FOLHA DO DOMINGO – Porque participou no congresso sobre «A evolução biológica: Factos e teorias»? Padre António Martins – Uma simples razão pessoal. Participei levado pelo interesse e pela actualidade da questão. Esta temática faz parte dos conteúdos programáticos da disciplina de Protologia, que lecciono na Faculdade de Teologia. A comemoração dos 200 anos no nascimento de Darwin e dos 150 anos da sua famosa e polémica obra “A Origem das Espécies Através da Selecção Natural”, tem trazido, novamente, a debate o facto da evolução e da sua conciliação com a fé cristã em Deus criador. A relação entre a fé a ciência ainda não é totalmente pacífica. Tanto por causa de preconceitos positivistas herdados do passado, por parte de cientistas, como pelo radicalismo fundamentalista de actuais movimentos cristãos evangélicos. Desde o início este congresso não só me suscitou curiosidade como também me levou a mobilizar todos os esforços para poder participar. Era uma ocasião única a não perder, e a não deixar de ser protagonista do próprio acontecimento. Esclareço que não fui delegado oficial de nenhuma instituição eclesial portuguesa. Participei meramente a título pessoal. Que avaliação faz desta iniciativa? Objectivamente o Congresso foi um grande evento científico e eclesial, com amplo impacto na opinião pública mundial. Foi a primeira vez que um fórum internacional, promovido pela prestigiada Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma, se debateu amplamente, sem qualquer preconceito, limitação ou complexo, o facto científico da evolução e as suas múltiplas interpretações antropológicas, filosóficas e teológicas. Foi também um acontecimento verdadeiramente interdisciplinar e ecuménico (nele participaram conferencistas católicos, evangélicos, judeus e até não-crentes). Os diversos contributos viram das áreas científicas da biologia molecular, da paleontologia, da antropologia cultural, da filosofia da ciência e da teologia. No seu desenvolvimento ao longo de seis dias, o Congresso foi intenso e cansativo. Valeu mais pela apresentação dos contributos das diversas áreas científicas sobre a evolução, do que propriamente por um amplo debate e consenso. Creio que o diálogo, cruzando as diversas áreas do saber e os actuais resultados da investigação científica sobre a evolução, será mais uma tarefa a desenvolver futuramente do que uma realidade alcançada neste Congresso. No final, pareceu-me mais uma justaposição de discursos vários em procura de harmonização e de uma possível síntese. Ficou claro como é difícil a interdisciplinaridade. Esperava no final deste Congresso uma intervenção do Papa marcando, profeticamente, novos horizontes no diálogo entre a fé cristã e a ciência, o que não chegou a acontecer. Bem diferente do seu empolgante início, o Congresso teve um encerramento discreto. Este encontro serviu de facto para a Igreja encontrar caminhos de diálogo, desmontando preconceitos e falsas posições que lhe são atribuídas nesta matéria? Uma conclusão a salientar, e talvez a mais significativa, foi o consenso geral sobre a evolução. Podem-se discutir interpretações e teorias diversas e até contraditórias, mas o facto da evolução apresenta-se hoje como uma realidade aceite por todos (ao menos por aqueles que intervieram no Congresso). Ninguém pôs em causa o evento da evolução e, em concreto, da hominização. O que não significa que tudo esteja explicado do ponto de vista científico. De facto, há hiatos obscuros, sem provas científicas seguras, na construção da teoria da evolução, onde a verificação dá lugar à probabilidade. O processo da evolução não é uma absoluta evidência científica. Por exemplo, a especiação (ou seja, o aparecimento biológico e morfológico de uma espécie) permanece mistério por explicar para as ciências. As ciências que estudam o vento da evolução (biologia genética, antropologia molecular, paleontologia…) deixam por explicar a diferença e a originalidade radical do fenómeno humano (do Homo Sapiens). É certo que o homem partilha 99% do seu património genético com o chimpanzé. Animal entre os animais, produto da evolução biológica, o homem é o único animal que produz cultura, superando, assim, o determinismo biológico. Como integrar a especificidade humana do pensamento, da consciência, da ética, da estética no processo evolutivo? A resposta a esta pergunta depende dos pressupostos antropológicos e ontológicos com que se parte. A ciência, em sua metodologia, é neutra, mas não são neutras as interpretações científicas. A pergunta “Que é o homem?», permanece em aberto. O homem é o único animal que é «escultor criativo de si mesmo» (Piccolo della Mirandola). Outro dado a considerar foi o facto de a Igreja católica nunca ter condenado a teoria darwinista da evolução. Hoje está provado que nunca houve um pronunciamento oficial negativo sobre o assunto, e que as censuras a teólogos que alinhavam com a evolução foram circunstanciais, revelando bem que o assunto não era consensual dentro das próprias estruturas da Igreja. O problema de fundo não era tanto a teoria da evolução em si, mas sim o materialismo radical (a redução do homem ao animal) com que a mesma era apresentada e defendida. A Igreja católica, por instinto estratégico ou por sincera intuição, desde o início conseguiu evitar que a teoria evolucionista fosse a repetição de um novo caso Galileu. Um evolucionismo moderado sempre existiu no seio da Igreja católica, já contemporâneo de Darwin (a tese de Mivart). Posso dizer que este Congresso conseguiu esclarecer que a questão da evolução nunca assumiu os contornos de uma cruzada nem contra Darwin nem contra os seus seguidores. Foi possível aliar a ciência, filosofia e teologia para superar posições e polémicas ideológicas? Prudentemente direi antes que foi possível colocar cientistas, filósofos e teólogos a ouvirem-se mutuamente e a pensarem com seriedade na argumentação e nas conclusões científicas propostas por cada um dos conferencistas. Foi possível uma escuta respeitosa. O que não significa encontrar, de imediato, uma síntese que seja totalmente aceite por cientistas, filósofos e teólogos. Creio mesmo que nunca será possível alcançar uma teoria comum, consensualmente por todos partilhada. O que também não creio que seja necessário. A fé na criação não se pode provar cientificamente; entra no âmbito das convicções religiosas. Deus não abandona o mundo ao acaso (aqui está a maior divergência entre o evolucionismo darwinista e a fé cristã). A evolução não é mero produto do acaso, sem finalidade nem projecto. Por outro lado, a criação pode ser lida em grelha evolutiva, num perspectiva de finalização e consumação em Cristo, como fez, genialmente, o padre Teilhard de Chardin. A fé cristã não é incompatível com uma perspectiva evolutiva do mundo, desde que se supere uma interpretação literalista dos textos das origens. Talvez baste neste campo uma posição de mínimos: nem concordismo nem radical oposição. Nem uma incompatibilidade absoluta entre fé e evolução (Deus cria o mundo/o mundo e o homem são mero resultado do processo evolutivo), nem uma interpretação dos textos bíblicos de forma evolutiva, fazendo da Escritura pretensa prova científica da evolução, ou vice-versa. O diálogo passa aqui pelo respeito das metodologias próprias da teologia, da hermenêutica bíblica e das ciências experimentais que estudam o evento da evolução. São campos complementares do saber, que mutuamente se enriquecem, sem se invadirem um ao outro. A evolução é uma explicação científica do como aconteceu o mundo; a criação é uma atitude de fé, improvável e invisível, que proclama a origem do mundo e do homem no amor criador de Deus, que tudo sustenta com o sopro da sua palavra. Que horizontes se abriram para o futuro com a realização desta iniciativa? Posso dizer que foi o primeiro passo de um logo e fatigoso caminho, apenas iniciado. Abriu-se um vasto campo de promessas e de possibilidades no diálogo entre a fé e a ciência. É certo que o diálogo interdisciplinar é difícil, paciente e lento; requer disponibilidade para escutar, capacidade de compreender o outro e o seu pensamento e de deixar fecundar a própria inteligência com os contributos de outros ramos do saber. Este trabalho sério de interdisciplinaridade, promovido pela Universidade Gregoriana, apresenta-se como uma profecia para o futuro, a realizar pacientemente. É um acontecimento que terá, certamente, a sua evolução no próprio pensamento cristão e teológico. Não se esperem, todavia, resultados imediatos. De um ponto de vista mais imediato, pareceu-me que este Congresso se configurou como resposta do pensamento católico à tese do «desenho inteligente/Intelligent design», defendido, vigorosamente, na actualidade por movimentos evangélicos nos Estados Unidos. A quantidade e a qualidade de speakers e de instituições norte-americamos presentes foi para mim seguro indicador da incidência e da intencionalidade «americana» deste Congresso. O «desenho inteligente» é uma teoria que apresenta uma concordância entre a fé e a evolução. A origem do universo e da vida humana são explicados por uma «causa inteligente» e não pelo processo da selecção natural. O «desenhador» é uma forma cripta para dizer Deus. Busca-se na natureza as provas da existência do «desenhador» pelo estudo dos «desenhos». Esta tese é apresentada como uma rigorosa teoria científica, em que se procura redefinir a ciência através de explicações sobrenaturais. Em termos de opinião pública pretendeu-se afirmar que a teoria do «desenho inteligente» compromete tanto a racionalidade teológica como a racionalidade científica, pois não é uma coisa nem é outra. Um sério diálogo faz-se respeitando a especificidade das áreas do saber próprias, sem pretender fazer da fé uma explicação científica nem instrumentalizar a ciência ao serviço de crenças religiosas. É caso para dizer, parafraseando o Evangelho, «dai a Deus o que é de Deus (a fé na criação), dai a Darwin o que é de Darwin» (a teoria da evolução). Nem confusão nem oposição entre ciência e fé.