Foste para Timor com que objectivo? Fui com o objectivo de fazer uma experiência de voluntariado missionário, não com a finalidade directa de evangelização, como acontece com muitas pessoas, mas para desenvolver e capacitar as pessoas daquele país. Fui trabalhar na diocese de Baucau, concretamente na área do ensino, na leccionação de aulas de Português numa escola católica em Manatuto. O senhor D. Basílio pediu-me ainda para colaborar na fundação do jornal diocesano e na criação de uma biblioteca. Mas estes não são projectos que se façam em alguns meses. E, tendo em conta a realidade do país, são projectos para levar mais algum tempo, até porque, provavelmente, há outros mais essenciais para a população. A diocese ainda não tinha jornal, nem biblioteca? Não. A diocese tem apenas um pequeno boletim criado pela Comissão Justiça e Paz, bastante rudimentar, com alguma análise política e artigos de formação religiosa, mas que não cumpre os objectivos de um jornal diocesano de informação das actividades da diocese. Também não existe qualquer biblioteca, mas provavelmente a diocese de Baucau, na pessoa do D. Basílio, possui a maior colecção de obras sobre a história do país. E, concretamente, o que é que te pediram? O que me pediram foi para encontrar apoios financeiros para a criação da Biblioteca. Foi contactada a Fundação Calouste Gulbenkian que nos doou alguns livros. Houve um impasse nas negociações que tivemos com a cooperação portuguesa, através do IPAD – Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento, e entretanto a casa onde estava prevista a instalação da Biblioteca foi queimada depois da nomeação de Xanana Gusmão. Em relação ao jornal pediram-me para colaborar na criação desse meio de comunicação e, a esse nível, o trabalho está um pouco mais concretizado pois estamos em conversações com o grupo Impresa que irá apoiar o projecto. Por exemplo, aquele grupo irá prestar uma formação a alguns timorenses, responsáveis pela criação do jornal. Como é que foste recebido? Desde o primeiro até ao último dia foi sempre muito bem tratado. As pessoas davam-me sempre o melhor que tinham. Quando deixei a escola, ao imporem-me o taj (têxtil típico), essa entrega foi feita como se eu fosse um chefe tradicional de Manatuto e não na minha condição de mero visitante. Isto tem um significado profundo. Ficaste alojado aonde? De segunda a quarta-feira estava em Manatuto para leccionar as aulas. De quarta-feira a domingo ia para Baucau para trabalhar nos outros dois projectos. Essa mudança, a meio da semana, até foi benéfica para mim. Quando cheguei a Manatuto senti-me um pouco só, pois só tinha lá um sacerdote que tinha sido meu colega. A ida, a meio de semana, para Baucau foi benéfica porque tinha lá outros padres que tinham sido meus colegas em Évora e que me ajudaram no primeiro mês na minha integração. De Manatuto a Baucau quantos quilómetros são? São 60 quilómetros. De carro podemos 45 minutos, mas de autocarro podemos levar hora e meia. Muitas vezes ida de carro, quando conseguia boleia de alguém, mas também várias vezes fui de autocarro. E andar de autocarro em Timor não é a mesma coisa que andar de autocarro na Europa. Os autocarros timorenses têm lotação para 27 pessoas sentadas, mas muitas vezes levam mais de 60 pessoas. Essa viagem fazia-me sempre sentir um pouco mal porque, pelo facto de ser estrangeiro – ou na como se diz na língua timorense: Malai –, levantava-se sempre alguém para me dar o lugar. Se recusasse as pessoas ficavam ofendidas porque é uma questão de acolhimento, se aceitasse sentia-me eu mal. As vias de comunicação viária são boas? O trabalho nessa área é, para mim, o que de mais essencial precisa de ser feito naquele país. A maior parte das estradas foram construídas no tempo da ocupação indonésia, mas com objectivos militares e por isso não foram feitas com qualquer preocupação em termos de segurança rodoviária, por exemplo. Muitas não têm largura suficiente para passar dois carros lado a lado. A situação só não é mais complicada porque ainda há poucos veículos, propriedade dos próprios timorenses. Que Timor foste encontrar? Fui para Timor porque tinha tido 9 colegas timorenses em Évora – que presentemente já são todos padres, à excepção de um que ainda não foi ordenado – e por isso, quando decidi fazer um ano de reflexão, optei por Timor, por já conhecer algumas pessoas. Mas fui sem qualquer expectativa. Ia preparado para tudo e, a única coisa de que senti falta foi alguém com quem partilhar aquilo que sentia, sobretudo no primeiro mês. O Timor que eu fui encontrar foi um Timor um pouco passivo. No início fiquei um pouco triste e interroguei-me: porque é que os timorenses não lutam pela melhoria das condições de vida? Ou porque é que não trabalham para desenvolver o país? Mas os timorenses não sabem o que isso é. Não podemos exigir às pessoas que trabalhem para desenvolver o país se elas próprias não sabem o significado da palavra desenvolvimento, sobretudo os jovens de 25/30 anos, que viveram toda a sua vida debaixo da ocupação indonésia. É que os indonésios incutiram nos timorenses a mentalidade de que não precisariam de fazer nada porque lhes dariam sempre tudo. Por outro lado, pode-se dizer que, aos olhos de ocidentais, o povo timorense é um pouco preguiçoso. Ora se, sobre esse povo que já tem essa condição natural, aparece um opressor que favorece ainda mais esse factor, essa característica acaba por se desenvolver. E neste momento, um dos problemas de Timor é a quantidade imensa de jovens, que poderiam constituir a força de trabalho timorense, mas que vivem na cidade de Dili sem fazer nada. Limitam-se a conviver à noite, a beber e a provocar desacatos, vivendo à custa das suas famílias e amigos. No início deixaste transparecer a imagem de que os timorenses se pudessem optar, em termos de trabalho, por uma situação mais descansada em detrimento de outra de maior pressão não hesitariam em poupar-se. A determinada altura pareceu que te contiveste nessa análise. Percebeste entretanto que não podias fazer ainda uma análise muito profunda, foste alvo de algum tipo de pressão ou resolveste conter-te para tua própria segurança? Essa é a apreciação geral que uma pessoa faz quando chega a Timor. Confrontei-me um pouco com a passividade das pessoas. Na primeira semana fui confrontado com uma situação provocada de uns funcionários da gráfica da diocese de Baucau que chegaram ao ponto de avariar o sistema de electricidade para não terem de trabalhar. O timorense é uma pessoa sem ambição e isso não é próprio da cultura asiática porque, por exemplo os indonésios, são pessoas com grande ambição. Mas também nem todos os timorenses são assim, sobretudo os que tiveram oportunidade de sair do país. Não te parece que terá contribuído também para essa realidade o contexto que Timor viveu ao longo da sua história com a guerra e a ocupação indonésia? Esta característica dos timorenses é relatada pelos portugueses desde o século XVII, mas claro que a ocupação indonésia também contribuiu. É que para além da opressão militar, o povo timorense sofreu uma grande opressão cultural que só será eliminada com a sucessão de gerações. Essa opressão vislumbra-se sobretudo ao nível da formação intelectual. A maior parte dos jovens que vivem na cidade de Dili sem nada fazer são pessoas que fizeram a sua formação na Indonésia, uma formação que não atinge sequer o básico. Há também a questão da língua, pois existe uma resistência enorme por parte dos jovens com idade entre os 15 e os 30 anos em relação à língua portuguesa. O sonho daqueles rapazes não é conhecer ou viver em Portugal. Quando muito desejam viver noutro país da Europa. O sonho da maioria dos timorenses é viver na Indonésia. Então os timorenses não guardam mágoa por aquilo que a Indonésia lhes fez? Guardam. Mas não os timorenses dos 25 aos 30 anos. A luta do povo timorense não foi com o povo indonésio, mas com os militares indonésios, que no caso das milícias, utilizaram e formaram elementos timorenses para fazer o que fizeram. Um timorense não tem qualquer ressentimento de um indonésio. Os próprios indonésios também sofreram atrocidades com o regime de Soarto porque era uma ditadura. O regime de Soarto matou cerca de 1 milhão de indonésios quando se deu a luta pelo poder. Actualmente a salvação de Timor é a Indonésia… …não é as Nações Unidas, nem Portugal ou nem a Austrália? Não, por uma questão de dependência. Timor não produz nada para além da agricultura. Todos os restantes produtos consumidos em Timor vêm da Indonésia. O próprio Presidente Ramos Horta, o primeiro país que escolheu para visitar, depois de tomar posse, foi a Indonésia. Os timorenses preferiam que as Nações Unidas e a Austrália deixassem Timor? A maioria deles acho que sim. Mas a relação com Portugal é diferente. Existe uma grande simpatia da classe jovem com Portugal, apesar de não falarem português e de terem uma grande resistência em relação à língua portuguesa e de serem a favor da cultura indonésia. A simpatia por Portugal leva a que muitos timorenses usem símbolos portugueses, como bandeiras, camisolas da selecção nacional, etc. Os timorenses vêm as Nações Unidas, de certa forma, como um bom aliado, pois a sua permanência no país significa a permanência de muitas pessoas, o que gera um crescimento da economia timorense. Mas a intervenção das Nações Unidas em Timor não tem sido no sentido de ajudar o país a criar condições para que daqui a algum tempo possa seguir sozinho seu próprio caminho? As Nações Unidas estão em Timor até 2008 e pode haver alguns vícios. Uma pessoa que esteja ao serviço das Nações Unidas, que aufira um alto vencimento – basta dizer que um simples voluntário ganha cerca de 2000 dólares –, sabendo que quanto mais depressa desenvolver o país, mais depressa ficará sem o seu emprego ou que terá de mudar para um outro país, com condições muito mais adversas, poderá desenvolver alguma resistência a sair dali, sempre na expectativa de que o prazo de permanência aumente em função dos objectivos não terem sido ainda atingidos. Timor, comparativamente ao Iraque ou ao Sudão, é um país seguro e do agrado dos funcionários das Nações Unidas. Como outros países que vivem situações conflituosas, o mal de Timor é ser um país rico, do ponto de vista dos recursos naturais? Sim. Existe petróleo e gás. Os conflitos que vemos na televisão restringem-se normalmente à cidade de Dili. Porque é que isso acontece? Sim, limitam-se a Dili. Para além de haver a convergência de muita gente para a cidade por ser central e por ser a capital do país, existe a tal realidade dos jovens timorenses desempregados, com problemas de inserção na comunidade e na sua maioria ligados a grupos de artes marciais que causam distúrbios. Houve um problema nos geradores que produzem a energia para Dili, pois foi descoberto que a empresa que abastecia de combustível o seu depósito introduziu juntamente 40 mil litros de água. Por causa desta situação houve a necessidade de fazer cortes de energia de 2 em 2 horas em zonas alternadas da cidade. Quando era cortada a energia em determinado bairro, os jovens dali iam ao bairro que estava na altura a ser alimentado pressionar o técnico para desligar aquele gerador e voltar a ligar novamente o seu. Existe um clima de violência que não se percebe porque existe. Eu próprio quando ia a Dili, a partir das 19 horas, tinha um certo receio de andar na rua. Normalmente fazia o sacrifício de voltar no mesmo dia para Baucau. A Igreja tem mais trabalho em Dili do que em Baucau? Deus concedeu-me a graça de trabalhar na diocese de Baucau que é, a todos os níveis, completamente diferente da Igreja de Dili. E tive oportunidade de trabalhar com uma das pessoas que mais me fascinou até hoje e com quem todos os dias aprendia: o senhor Bispo D. Basílio. A realidade da diocese de Dili para Baucau diverge um pouco. Baucau é uma diocese que tem como objectivo prioritário criar postos de trabalho, desenvolver o país, criar estabilidade e condições de vida para as pessoas. A diocese de Baucau tem uma carpintaria ao nível do melhor que existe na Europa, financiada pela Câmara de Paredes, com maquinaria de ponta. Tem ainda a tipografia e uma oficina de mecânica e um dos sonhos de D. Basílio era criar uma empresa de construção civil. A tipografia ainda está em fase de arranque porque, recentemente, comprou maquinaria topo de gama na Indonésia e mudou de instalações. A que se deve o sucesso das empresas da diocese de Baucau? Ao senhor D. Basílio. Porquê? Porque D. Basílio sabe procurar os apoios necessários e as pessoas certas para levar tudo isso por diante? Sim, exactamente. O senhor Bispo D. Basílio apoia e acredita inteiramente nas pessoas com quem trabalha e o seu trabalho é valorizado a 100 por cento. Qualquer actividade de sucesso em Timor neste momento tem de estar associada à diocese de Baucau. Também é a única entidade que dá garantias financeiras, de estabilidade e de segurança. Os fundos são mesmo aplicados naquilo para que foram destinados e não há desvios, o que não acontece com algumas ONG’s. O senhor D. Basílio é uma pessoa muito influente no país. A Igreja timorense está bem organizada ao nível dos três sectores da pastoral: profética, litúrgica e sócio-caritativa? Ao nível da pastoral, as coisas em Timor não funcionam como aqui, mas também não sei até que ponto é necessário, porque toda a gente frequenta a comunidade. Eu, em Timor, não fui fazer evangelização, mas fui evangelizado. Não fui fazer evangelização porque não é preciso, pois, tendencialmente, todas as pessoas são católicas. No entanto existem algumas actividades para os dois sectores da pastoral que estão organizados: a catequese e a juventude. Muito do trabalho de evangelização é feito nas paróquias. O cristianismo em Timor é um pouco islamizado, talvez pelo facto de viverem perto do maior país muçulmano do mundo. Valoriza-se muito a relação directa com Deus e não tanto na relação com Deus, através do próximo. Isso explica um pouco os confrontos que existem. Existe também um grande sentimento de gratidão dos timorenses para com a Igreja, porque foi a única entidade, nos últimos 20 anos, que preservou a sua cultura, identidade e que os defendeu. Durante os últimos 25 anos, os padres tiveram de pôr um pouco de lado o seu papel de pastores, para passar a assumir o papel de políticos, defensores da identidade e dos direitos mais elementares do povo. Como é que os timorenses vêem o facto de D. Ximenes Belo estar em Portugal e não em Timor? Penso que esse assunto não é problemático para os timorenses. Nunca ouvi nada em relação a isso. A geminação estabelecida em tempos entre as dioceses do Algarve e Baucau foi visível? Não tive contacto com essa realidade. Com vista ao futuro qual será a tua relação com a diocese de Baucau? Neste momento, o meu futuro pertence inteiramente à diocese do Algarve e qualquer projecto que eu assuma em Timor tem de ser em comunhão com a minha diocese e sobretudo com o senhor D. Manuel Quintas, pois a minha ligação a Timor terminou no dia 1 de Agosto conforme tinha acordado previamente com o senhor Bispo. Vou ficar isso sim, como uma ligação afectiva para sempre com a diocese de Baucau. Há interesse da diocese de Baucau para que eu volte mais alguns meses para avançar um pouco mais com o projecto do jornal, mas eu não posso dizer que vou ou não, pois isso depende do senhor Bispo D. Manuel Quintas. O que é que tu combinaste com D. Manuel Quintas antes de ires para Timor? Há muito tempo que eu gostava de fazer um ano de reflexão num país de missão e surgiu a hipótese de ir a Timor. O que disse ao senhor Bispo foi que, quando regressasse de Timor, depois de avaliar alguns aspectos, estaria disponível para acolher a vontade da diocese do Algarve a meu respeito. E o maior apoiante desta minha iniciativa foi o senhor Bispo D. Manuel que só impôs uma condição: que fosse por um ano. Como também queria ir por uma ano, aceitei. Não estavas desejoso de regressar a Portugal? Não. Não tinha saudades de Portugal, apenas da família e dos amigos. E se me dessem agora a oportunidade de voltar para a missão, não me importaria. Gostaria de ir para o Irão ou o Paquistão. Gostei muito da experiência de trabalhar longe do meu País. Gostei sobretudo da experiência de trabalhar para a capacitação de um povo que não tem nada e precisa de tudo. As nossas capacidades são aproveitadas ao máximo e a nossa auto-estima é elevada. Descobri em Timor que conseguia fazer coisas que nunca pensei fazer na vida, como por exemplo emissões de rádio. Por isso conheço hoje melhor as minhas capacidades e fragilidades. O primeiro mês foi difícil, mas depois ambientei-me. Ao final de 3 semanas, o senhor Bispo D. Basílio propôs-me ficar lá 3 anos. E que respondeste? Que não podia, porque não dependia apenas de mim, mas também da minha diocese. Por vontade de D. Basílio continuavas lá por mais uns anos? De certeza. Criou-se uma certa empatia entre nós. Mas se continuasse não seria para desempenhar qualquer função como sacerdote, caso fosse ordenado, pois Timor não precisa de padres. Daqui a 5 anos a diocese de Baucau tem uma média de 2 padres por cada paróquia. A situação é completamente diversa da europeia. Mas continuas a querer ser ordenado sacerdote? Eu quero servir a diocese do Algarve. Se a diocese achar que a melhor maneira de a servir é como sacerdote, eu aceito com todo o gosto e com a maior honra. Continuo a sentir que tenho capacidade e que Deus me chama a esse caminho, mas vou respeitar a vontade da diocese. Se um dia chegar a ser ordenado padre, não será para meu belo prazer e gosto, mas para servir a diocese. Relatos da missão… “Dili é uma cidade quente, poluída, desarrumada e confusa. Dili não é Timor e Timor não é Dili. Em Timor existem muitos choques. Desde logo o choque entre Loromono (parte Oeste) e Lorosae (parte Leste)”. “O Seminário de Dili é único no mundo. Tem um campo de refugiados lá dentro e na festa do próprio Seminário foram celebrados Baptismos e Crismas e no dia anterior foram celebrados casamentos”. “Houve uma jornada da juventude, promovida pela Pastoral Juvenil da Igreja de Baucau, com 12 mil participantes que contou com diversas conferências que teve a participação de diversos ministros do Governo timorense, do então candidato à Presidência da República e só não teve a presença do Presidente da República porque estava doente”. “Tive um acesso muito mais facilitado ao Presidente da República e ao primeiro-ministro de Timor do que aqui a um presidente de Junta de Freguesia”. “Na Missa do Galo estavam cerca de 4 mil pessoas na catedral”. “Se tivesse ficado em Timor apenas um mês tinha ficado com uma ideia completamente errada”.