FOLHA DO DOMINGO – A geminação entre as dioceses do Algarve e de Baucau tem procurado dar algum contributo às populações de Timor. Como é que vê essa ajuda? D. Basílio do Nascimento – Já desde o tempo do senhor D. Manuel Madureira houve essa preocupação. Estabeleceu-se essa geminação de várias paróquias do Algarve com outras tantas de Baucau. A nível particular tem funcionado até agora, mas esta renúncia quaresmal da diocese do Algarve destina-se sobretudo às escolas da diocese de Baucau porque nós temos, neste momento, 117 escolas, desde o nível primário ao nível secundário. Algumas paróquias algarvias têm feito chegar lá as suas ajudas. Como é que analisa a situação de Timor neste momento? Eu só tenho interrogações, pois não tenho dados concretos para fazer uma avaliação objectiva. Algumas das interrogações que faço são: Como é que um problema que era de âmbito apenas militar, saiu do seu âmbito para se tornar num problema nacional e é hoje um problema internacional? Porquê? Quais as causas? Quem está por detrás disto? Quais são os objectivos? Sinceramente permaneço numa nebulosidade em relação à actual situação. Evidentemente que, como timorense e como Pastor, sinto-me muito apreensivo com aquilo que se passa neste momento. A mim preocupa-me sobretudo a consequência destas indefinições e destas violências que têm um papel muito negativo sobre a população, sobretudo da cidade de Díli. Graças a Deus toda esta violência passa-se apenas ao nível da cidade de Díli. Mas eu vi todo o sofrimento do povo timorense em 1999. Acompanhei-o de perto. E na altura, perante toda aquela chacina e toda aquela violência, – e a gente sem saber a quem se dirigir, porque havia uma ausência muito grande de autoridade –, o timorense, pequeno e pobre, o pouco que tinha perdeu. Ao longo destes quatro anos de independência tentou reorganizar a sua vida e infelizmente agora perdeu outra vez tudo. Agora vamos ter de seguir o mesmo processo que reconstrução que tivemos estes anos todos. Quando um problema aparece ainda nas parangonas dos jornais e na comunicação social parece que chama a atenção de toda a gente… …o problema é quando deixa de aparecer. Exactamente. Depois temos nós de apanhar os cacos. Acha que pode estar ainda na origem destes conflitos alguns resquícios das milícias indonésias que estejam a minar a sociedade timorense, aproveitando-se da insatisfação do povo? Das milícias que estão hoje na Indonésia, não vejo que possa haver um aproveitamento da sua parte. Julgo que há sobretudo uma espécie de grito de insatisfação por causa da degradação da situação. Felizmente hoje em dia começa a haver alguns recursos financeiros, mas penso também que o mau estar vem pelo facto de as pessoas saberem que há esses pequenos recursos que já poderiam estar ao serviço da nação e do povo e… as pessoas não têm nada. Penso que para além da crise militar, o facto de a situação económica do País estar a baixar, perante uma espécie de desespero em relação ao futuro e perante o facto de não se vislumbrar saídas imediatas para a vida das pessoas, – estou a pensar no desemprego, na pobreza e noutro desenvolvimento que se poderia ter e não se tem ainda –, tudo isto tem contribuído para esta reacção violenta da parte da população. Acha que o facto de estes conflitos terem ultrapassado as fronteiras militares deveu-se a uma falta de capacidade governativa? Bem, eu não quero ser juiz, nem taxativo em relação à governação, mas permita-me dizer uma coisa que é a nossa realidade: em recursos humanos Timor é um País que começa do zero e a quem falta tudo. Não só em recursos humanos, mas também financeiros e infraestruturais. Se ao nível do financiamento, os países doadores da comunidade internacional têm tido os olhos muito abertos e uma atenção muito grande em relação à situação, do ponto de vista dos recursos humanos somos muito limitados. Penso que uma das razões para que as coisas não andem neste momento prende-se com esta limitação. Mas também, por outro lado, penso que a independência trouxe a Timor expectativas muitíssimo elevadas na população. Julgou-se que, com a independência, todos os nossos problemas iam ser resolvidos automaticamente. Sonhar é bom, mas sem pessoas os sonhos e as ideias, por mais belas que sejam são sempre travados. De forma que eu não classificaria de incapacidade, mas julgo que neste momento há uma limitação de crescimento e de desenvolvimento de capacidades porque não as temos. Tem dito que o Governo não tem tido facilidade de relacionamento com o povo timorense. Que há uma certa insensibilidade em relação à realidade de Timor. Porque é que acha que isso acontece? Eu penso que depende do carácter das pessoas. Julgo que o senhor Primeiro-Ministro é um homem muito bem intencionado, uma pessoa formada, mas a comunicação é o que falta a Mari Alkatiri. É uma pessoa distante e trata-se de uma lacuna não só dele, mas da parte dos restantes governantes. Não tem havido comunicação. E não sou só eu que o digo, mas todas as pessoas, e sobretudo os observadores internacionais, que estão em Timor e mesmo a população. Sentem que há um fosso de ligação e de comunicação entre os governantes e o povo. Há pilares fundamentais da identidade timorense que estão a ser ignorados pelo Governo? Bom, eu sou suspeito para responder a isso, mas julgo que nesta fase a Igreja é um parceiro que não devia ser ignorado ou minimizado precisamente, porque neste momento há uma afectividade ainda bastante grande e um reconhecimento muito profundo, da parte do povo, em relação àquilo que a Igreja fez no passado. Tem havido alguns comportamentos que foram interpretados pelo povo e também por nós, Bispos, como sendo, – não digo tentativa de afastamento, mas – uma espécie de redução. Ao dizer isto não quero reclamar coisa nenhuma. É só para dizer que neste momento a realidade é esta: há uma entidade que tem uma grande influência ainda junto do povo, que é a Igreja Católica e estar a tentar alheá-la da realidade ou tentar minimizar o seu papel nestes tempos próximos, penso que não é de bom senso. O povo não acolheu bem essa atitude… Sim. Não acolheu. Os senhores Bispos chegaram a pedir, em Abril de 2005, a demissão de Mari Alkatiri. Acha que teria sido melhor o Primeiro-Ministro ter-se demitido nessa altura? Penso que a manifestar a insatisfação, todo o cidadão o pode fazer, mas, na altura, podemos interpretar como sendo um sinal enviado aos órgãos de poder para dizer: “vejam lá para o­nde é que estão a tentar levar o País, porque nós sentimos que, através desta atitude, há qualquer coisa da identidade timorense que está a ser minimizada”. Há pessoas que consideraram que a Igreja Católica foi muito longe. Eu admito que possa ter ido, mas também foi uma forma de chamar a atenção para um aspecto que nós, os Bispos, estávamos a sentir. Era qualquer coisa que estava a contribuir para uma certa confusão e para a construção de uma sociedade que tinha pouco a ver com a identidade timorense. Passada esta primeira fase em que a Igreja teve um papel de ajudar na pacificação deste conflito, qual deve ser agora o seu papel? Eu corro o risco de ser repetitivo. A Igreja a um dado momento foi defensora. O senhor D. José Ribeiro foi uma das vozes, muito fortes, que se levantou contra os abusos, defendendo o povo timorense. Numa segunda fase, de 1983 a 1995, a Igreja foi denunciadora dos maus-tratos e sofrimento que estava a ser infringido àquele povo. E aí, como se sabe, o meu predecessor e amigo D. Carlos Filipe levantou a voz da Igreja muito alto. Numa terceira fase, antes da independência, entre os anos de 1995 e 1999, a Igreja foi reconciliadora. Tentou sentar à mesma mesa os irmãos desavindos. Hoje, penso que a Igreja deve ser iluminadora. E este papel iluminador consiste sobretudo, a meu ver, em contribuir para a estruturação da mente do povo timorense, iluminando, de modo que nós compreendamos os novos tempos que Timor está a viver. Já não é uma colónia portuguesa, já não é uma província indonésia, também já não está na dependência das Nações Unidas e é um País que tem de se construir a si próprio, sobre os seus próprios valores que terá de encontrar e sobre a identidade que caracteriza o povo timorense, tentando viver na democracia que caracteriza as sociedades modernas. Estamos a viver uma fase de transição em que passámos de uma sociedade tradicional para uma sociedade democrática. Penso que o papel da Igreja hoje é fundamentalmente um papel de educador do povo, das mentalidades para iluminar a compreensão das pessoas para estes novos tempos. Acha que o Governo está ciente dessa contribuição que a Igreja quer dar? Eu penso que sim e esta, – justiça seja feita, – é também a preocupação, a vontade e o pedido que os membros do Governo fazem. Só que nós, Igreja, não temos meios para o fazer. O Estado tem todos os meios. E também por causa destas separações, entre Igreja e Estado, nem sempre a ‘corrente’ passa. Temos de evoluir e crescer na compreensão mútua do papel de cada um sem nos ingerirmos nos campos de cada um. Mas entretanto, enquanto estas coisas não se definem vamos assistindo a uma sociedade que vive numa indefinição. E quando se olha para a dimensão e para o número da população e sobretudo para os recursos que temos acho que se todos dermos a mãos poderemos fazer daquele País um lugar o­nde os timorenses possam viver felizes. Em paz. Exacto. Sim, neste momento o que importa é que haja serenidade, paz e um clima que propicie a diminuição da tensão, porque há sessenta mil refugiados que estão nos conventos, nos seminários e nas paróquias em Díli. Esse tem sido também o papel da Igreja: servir como refúgio… Se se pode brincar nestes tempos, eu diria que o papel de bombeiro, infelizmente ou felizmente, é também uma vocação que a Igreja é chamada a desempenhar nestes tempos de crise e de aflição do povo. O Seminário Maior estava já com 9 mil refugiados e a Cúria de Baucau tem também cerca de 9 mil refugiados e a comida já estava a faltar. Como é que está o processo de criação da terceira diocese de Timor? Está em stand by porque a preocupação do Vaticano é fazer coincidir a administração eclesiástica com a administração civil. E falou-se em três dioceses, porque na altura os nossos governantes apontavam a divisão de Timor em três zonas. Hoje em dia fala-se em cinco. De forma que o Vaticano fez saber que é preferível esperar para ver qual a definição definitiva da vontade do Estado.