A psicóloga e docente da Universidade de Lisboa administrou uma “injecção” de optimismo com a sua conferência, a segunda da iniciativa ‘Famílias em Congresso’ promovida pelas duas paróquias da cidade. Começou por considerar que existe hoje um “discurso social e cultural profundamente negativo sobre a família”, mas que “estamos num ponto de viragem”. “Se nós percebermos que este discurso cultural em redor do pior tem o poder de envenenar e de tingir a vida com as piores cores e retirar o brilho do melhor, se calhar percebemos que talvez seja a altura de fazer uma revolução positiva”, observou Helena Marujo. Tendo feito questão de descer do palco para se colocar ao nível da assembleia, entre os participantes, para com eles poder interagir, desenvolveu uma intervenção, enriquecida com cartoons e outras imagens humorísticas, marcada pelo tom informal com que se dirigiu às cerca de 280 pessoas presentes e pela forma com que lhes propôs algumas reflexões a dois. Helena Marujo começou por interrogar a assistência sobre experiências de felicidade em famílias (suas ou outras). A psicóloga advertiu que “sabemos hoje, pelo senso comum e pela ciência, que aquilo a que damos atenção, cresce”. “O que tem acontecido nas sociedades ditas desenvolvidas é que nos tornámos especialistas do pior. Temos uma espécie de apetência pelas histórias más que vendem mais. Criámos uma cultura que se permitiu estar numa espécie de pântano”, considerou. Sublinhando que “a vida não é assim tão má”, “apesar de estarmos numa fase muito difícil”, lembrou as condições de vida das gerações anteriores. “Tivemos uma melhoria da qualidade de vida e de acesso à informação que nos deveria fazer sentir abençoados todos os dias. “Temos de ser profetas da esperança” Não estamos a celebrar as coisas boas que fomos conseguindo conquistar enquanto seres humanos e a só repararmos no lado pouco doce que a vida tem”, salientou Helena Marujo, lembrando que “o sofrimento é democrático”, ou seja “toca a todos”. Constatando que os portugueses ficam “mais próximos” quando falam de problemas, sublinhou que “estamos no momento em que tudo é possível em termos daquilo a que chegámos na educação, na informação, e de possibilidades que a vida nos dá hoje”. “Nós temos de ser capazes – e a família é o melhor lugar para o fazer – de ser verdadeiros profetas da esperança”, exortou, acrescentando que “a família é um espaço de construção da estabilidade, mas simultaneamente de constante mudança”. Mudar pelas emoções positivas “Precisamos de mudar pela positiva e há um terceiro modelo de mudança que é através das emoções positivas”, complementou, convidando a “criar condições e linguagens de coisas boas para, a partir das emoções positivas” levar à mudança. “Há imensas coisas fantásticas a acontecer mesmo quando a vida familiar é difícil”, reconheceu. Helena Marujo apontou ainda a “cooperação” como estratégia para imprimir a “revolução positiva”. “Perante as últimas décadas andámos a pensar que avançávamos se fossemos competitivos. Neste momento começámos a pensar que tem de ser ‘de braço dado’ que a gente consegue fazer essa transformação e mudança”, afirmou, considerando que “o positivo pode e deve servir como fermento para a mudança, para fazer crescer o melhor das pessoas”. Estereótipos negativos das famílias Comparativamente com a realidade familiar de outros tempos Helena Marujo considerou que “não podemos dizer com certeza que a família de hoje está pior do que antes”. “Há muitos estereótipos negativos sobre as famílias de hoje”, referiu, salientando alguns sinais de evolução positiva. A “i-gualdade homem/mulher”, a “capacidade de dizermos explicitamente uns aos outros que nos amamos” e “uma maior independência” foram alguns dos exemplos enumerados. Procurando precaver o futuro, a conferencista advertiu: “se continuarmos com um discurso dramático das famílias actuais aumentamos as probabilidades das pessoas nem quererem constituir família”. A longevidade dos optimistas Por diversas vezes, Helena Marujo referiu-se a estudos que “comprovam que as pessoas que estão à espera de ter o pior tendem a ter o pior e as que estão à espera do melhor tendem a ter o melhor”. “Isto está explicado exactamente porque, tendo um horizonte positivo, vou fazer coisas para atingir esse horizonte e estar atento às coisas que me mostram o caminho para ele”, justificou, advertindo que “se estivermos à espera de ver as famílias actuais como uma desgraça, pois podemos estar descansados que só vamos ver desgraças!”. A psicóloga garantiu mesmo que “dizem todos os estudos empíricos feitos até ao momento que os optimistas são mais saudáveis, vivem mais anos e têm mais sucesso pessoal e profissional”. “As pessoas bem dispostas, com sentido de humor e com uma visão positiva em relação à vida têm um sistema imu-nitário mais forte do que as que são mais tristes e abatidas”, assegurou, sublinhando que a longevidade pode atingir uma década de diferença. “Uma diferença maior que a diferença entre fumadores e não fumadores”, frisou. Helena Marujo entende que “a família tem de decidir se quer ser um espaço de vitalidade que reflicta o melhor de cada um dos seus elementos” e lembrou que “as mensagens e os rótulos negativos criam determinismos”. Três aspectos positivos para um negativo A conferencista teve ainda tempo para propor algumas metodologias inovadoras. “Precisamos ser especialistas a contabilizar o que está bem, de tal maneira que passemos a dar importância muito mais às coisas positivas que às negativas. Por cada coisa negativa que proferimos, temos de dizer três positivas”, incitou, justificando que “os estudos científicos dizem que isto diferencia os sistemas em que as pessoas estão felizes dos sistemas em que as pessoas estão infelizes”. Agentes activos da mudança Lembrando que “todos somos espelhos permanentes da realidade”, Helena Marujo acautelou que é preciso “mudar a maneira de lidar com a vida”. Mudança essa que passa, segundo a psicóloga, pela mudança da “maneira de ver, de julgar, de aprender e de conversar”. “Em vez de perguntar pelos pro- blemas é preciso perguntar pelas soluções”, propôs, advertindo que “se tivermos a posição passiva de que os outros mudem para depois eu ser feliz, podemos esperar a vida toda”. “As nossas conversas podem ser conversas que valorizam, apreciam e estimulam” e “temos de criar condições para toda a gente ter voz numa família e poder dizer coisas respeitadoramente, mas que confrontem e que desafiem os outros membros da família a pensar diferente”, concluiu.