FOLHA DO DOMINGO – Chegou ao Algarve no final do Verão de 2000 para trabalhar como Bispo Auxiliar, diocese que lhe foi posteriormente entregue a 27 de Junho de 2004. Que memória lhe traz a recordação dessa nova etapa da sua vida e do exercício do seu ministério? D. Manuel Quintas – Tratou-se de uma mudança pessoal bastante grande no modo de servir a Igreja… Terminava o serviço de Superior Provincial dos Dehonianos em Portugal… Foram seis anos vividos com grande intensidade na animação das comunidades e das obras dehonianas aqui e em Madagáscar. O facto de ter sido nomeado Bispo auxiliar no mesmo dia em que fui substituído nesse serviço, não me deu possibilidade de ter algum tempo “sabático”, livre da intensidade própria duma nomeação episcopal, com tudo o que ela tem de emocional e de exposição pública. O que mantenho mais vivo na memória foi o acolhimento que aqui encontrei da parte de todos, clero e leigos, e sobretudo de D. Manuel Madureira, que facilitou muito esta mudança e a adaptação à nova realidade que vim encontrar e na qual me vim inserir. Como é trabalhar em termos pastorais numa diocese que tem grandes contrastes, a nível geográfico, demográfico, e com uma sazonalidade tão acentuada? Que respostas procura a diocese para fazer face a esta realidade? Todas as dioceses têm as suas especificidades. As da nossa diocese, encaro-as com naturalidade… visto serem elas que nos definem como Igreja diocesana constituída por pessoas que vivem neste contexto geográfico, demográfico e sazonal. De certo modo, a nossa realidade reflecte o Portugal continental actual: tanto o interior algarvio (desertificação), como o litoral (concentração populacional) reflectem o interior e o litoral do território nacional com os respectivos apelos pastorais que lhe estão associados. Enfim, temos um pouco de todas as dioceses… não as acompanhamos no número do clero, é certo, para respondermos como gostaríamos a esta amplitude de problemas… mas com um clero generoso como o nosso, apesar de limitado em número e da média etária ser elevada, apoiados por um grupo de leigos corresponsáveis com uma boa inserção e compromisso nas suas comunidades, damos as respostas possíveis, certos de que não passamos de instrumentos do amor de Deus e da acção do Espírito. Espero que, com uma melhor organização e estruturação, possamos responder a estes desafios, no sentido de párocos e comunidades do litoral se abrirem mais à colaboração e à participação na vida das comunidades do interior. Também podemos progredir, num melhor aproveitamento da presença de muitos sacerdotes de outras dioceses, nacionais e estrangeiros, que aqui vêm passar alguns dias de descanso no verão… Hoje em dia assistimos a uma mobilidade cada vez maior por parte das pessoas. Entende que o actual modelo de organização paroquial ainda faz sentido nos dias de hoje ou seria necessário uma actualização? O conceito de “paróquia” foi inicialmente aplicado – aí pelo séc. V – apenas às comunidades cristãs surgidas no mundo rural,. Só muito mais tarde é que se estendeu às das cidades, tendo sido o concílio de Trento a determinar, na prática e em síntese, a estrutura actual… Vivemos num tempo caracterizado pelo dinamismo da mudança, factor importante na definição da realidade actual. A mobilidade a que se refere e sobretudo as mudanças sociais e culturais – sociedade de consumo, o “zapping” dominical, a participação “ocasional” na vida da própria comunidade – criam diferentes modos de relação entre as pessoas e a paróquia e a pertença à Igreja. A afirmação da liberdade individual – que, por vezes conduz a um individualismo e a um relativismo abrangente – relativiza e fragiliza a consciência comunitária, a exigência de celebrar a fé em ritmo comunitário e de a testemunhar a partir do envio eucarístico, escutado na própria comunidade. Esta situação é geradora de novas necessidades que, por sua vez requerem novas propostas pastorais. Hoje, sem deixar o modelo de organização paroquial habitual, a pastoral procura apoiar-se sobretudo na comunidade dos fiéis. A perspectiva eclesiológica do Vat. II reclama maior empenho e responsabilização da parte de todos – leigos, sacerdotes e consagrados – numa clara visão de complementaridade e corresponsabilidade. Hoje pretende-se que comunidade seja geradora, pela acção do Espírito, de novos ministérios laicais, que respondam às suas necessidades e às do meio onde ela está implantada e contribuam todos, cada um a seu modo, para a realização da missão da Igreja: o anúncio do Evangelho a todos e em todas as idades, que conduza a um opção responsável por Jesus Cristo e a uma clara e decidida predilecção pelos pobres e mais frágeis da sociedade. Procedeu à reestruturação das vigararias, passando a diocese de seis para quatro áreas pastorais vicariais. A que se deveu essa alteração? Pretendeu-se, tendo em conta a nova realidade diocesana – diminuição do clero em algumas vigarias e maior facilidade de mobilidade do mesmo – redimensionar com mais realismo a constituição das Vigararias, de modo a proporcionar-lhes uma participação mais dinâmica no governo pastoral da Diocese. Também se pretendeu definir e enquadrar o múnus do Vigário, de modo a melhor promover a fraternidade entre o clero da Vigararia, a coordenar com maior eficácia a pastoral vicarial e a prestar um contributo mais objectivo e participativo ao Bispo diocesano no governo pastoral da Diocese. Este processo já aconteceu, ou está a acontecer, igualmente, noutras dioceses. Entende ser necessário proceder a mais alguma alteração/reestruturação de alguma área da diocese? E no plano da organização ou gestão pensa ser necessário fazer alguma adaptação? O Sr. D. Manuel Madureira deixou-nos um documento ainda actual e inspirador – a Diocese do Algarve em revisão – que envolveu clero, consagrados e leigos na sua análise. Eu considero-o um documento profético e muito actual, a nível inspirador. A sua aplicação tem-se revelado difícil porque exige agentes pastorais dispostos e preparados para “servir” a Igreja de modo diferente. As “unidades pastorais” só passarão de teoria quando houver gente capaz de as assumir como um modo novo de “ser” Igreja e de “realizar” a sua missão. O reajustamento da presença do clero ao território diocesano, tendo em conta a desertificação do interior e o crescimento demográfico no litoral, criando centros irradiadores de acção missionária, é uma realidade que gradualmente se vai impondo. E o que não fazemos por opção positiva, e de modo sereno, teremos que o fazer depois, pela pressão e urgência da necessidade. Espero e desejo que, este ano sacerdotal contribua para encontrarmos juntos o melhor modo de servir, hoje, a nossa Igreja diocesana. Pessoalmente gostaria, como já referi, que as comunidades do litoral, mais numerosas e com maior dinamismo pastoral, se abrissem mais às comunidades do interior mais envelhecidas e, por isso mesmo, com menos dinamismo, mas não com menos fé e menos sentido de Igreja e de vivência dos valores do evangelho. Na altura da sua tomada de posse como Bispo diocesano apontava que toda a pastoral da diocese devia inspirar-se na Eucaristia e na Pastoral das Vocações de Consagração. Como avalia o trabalho conseguido nestas áreas? As iniciativas promovidas na diocese ajudaram a criar, nas nossas comunidades paroquiais, uma nova sensibilidade eucarística e vocacional. Crescemos um pouco mais no apreço pelas vocações de consagração na Igreja. Era também esse o apelo de João Paulo II na carta apostólica no início do novo milénio, ao pedir um generoso empenho, sobretudo através de uma oração insistente ao Senhor da messe, na promoção das vocações ao sacerdócio e de especial consagração, definido como um problema de grande importância para a vida da Igreja em todo o mundo. Como dom gratuito do Pai, as vocações nascem e desenvolvem-se graças à mediação da Igreja orante e, simultaneamente, mediadora da proposta vocacional. Esta dupla mediação deve ser assumida por cada um dos membros da Igreja, sem excepção. O apelo vocacional diz respeito a todo o cristão, e não apenas àqueles que foram agraciados com este dom, e deve estar presente nas diferentes áreas de pastoral. Trata-se de uma tarefa nunca concluída. É por isso que a pastoral vocacional deve ser assumida como unificadora da pastoral em geral… introduzindo “o anúncio vocacional nos sulcos da pastoral ordinária” como recomendava João Paulo II. A Igreja algarvia viveu nos últimos anos a ordenação de vários sacerdotes, sendo que no último ano (de 31 de Maio de 2008 a 31 de Maio de 2009) foram ordenados quatro novos padres, o que pode levar a pensar-se que o problema da diminuição do número de vocações sacerdotais no Algarve foi resolvido ou pelo menos atenuado. Concorda com esta visão? A ordenação destes quatro novos padres, constituíram, para mim, o maior dom de Deus à nossa Igreja diocesana: a resposta de Deus à oração e ao envolvimento de todos na pastoral das vocações e, em primeiro lugar, daqueles que os apoiaram e orientaram (equipas dos Seminários Menor de Faro e Maior de Évora). Mais do que “resolver” ou “atenuar” o problema da falta de sacerdotes, os novos padres constituem para todos um sinal de esperança e, para nós que já recebemos o ministério ordenado, um estímulo a vivermos com alegria a fidelidade à vocação recebida e com maior generosidade o serviço à nossa Igreja diocesana. Nos planos e na orientação do Pastor considera haver verdadeira sintonia entre o presbitério e os vários movimentos de apostolado com o seu Bispo? Os movimentos eclesiais e as novas comunidades constituem, hoje, um verdadeiro dom do Espírito, um “sinal luminoso da beleza de Cristo e da sua Igreja”, segundo expressão de Bento XVI. É natural que, devido à sensibilidade pessoal de cada um, tal como acontece com tantos cristãos que sintonizam mais com um tipo de espiritualidade do que com outra, haja padres que se revejam mais nuns movimentos do que noutros. Quem faz surgir os movimentos na Igreja é o Espírito Santo e é a mesma Igreja, através daqueles que têm o ministério do discernimento dos carismas, que os aprova. Eu dou graças a Deus pelos movimentos presentes na nossa diocese. Todos contribuem, cada um segundo a sua espiritualidade, para uma vivência mais consciente do próprio baptismo e um maior impulso missionário dos seus membros, empenhados na solução de problemas de cariz social, na construção de uma sociedade mais humana, mais fraterna e mais solidária, e na prática generosa de acções de voluntariado. Em que moldes têm estado a ser feitas as visitas pastorais e que balanço faz delas? Os moldes habituais que herdei do Sr. D. Manuel Madureira. Constituem, verdadeiramente, um tempo privilegiado para o Bispo, na medida em que lhe permite uma maior aproximação ao mundo humano e cristão que lhe foi confiado; a possibilidade de um conhecimento e contactos mútuos; a recolha de informações úteis para aplicação, no concreto, da mensagem evangélica que lhe cabe anunciar. Também possibilitam às comunidades cristãs, com os seus respectivos Párocos, a revisão da acção pastoral que estão a realizar, bem como receberem, do Bispo, estímulo para continuar, com zelo e criatividade, a sua missão evangelizadora. Como avalia os cristãos algarvios em termos da coerência entre a fé que proclamam e a sua vida que vivem fora da igreja? Têm alguma dificuldade em assumir o testemunho cristão fora do templo ou, pelo contrário, a dimensão testemunhal é vivida de igual forma quer estejam no seu meio laboral, social e familiar ou dentro da igreja? Bom, quando nos referimos aos cristãos algarvios, temos que partir da constatação de que a maioria dos eleitores do distrito de Faro, não nasceu no Algarve… pelos menos estes são os dados que me chegaram recentemente. Somos, por isso, uma diocese constituída por gente oriunda de distintas proveniências, nacionais e estrangeiras e mesmo de diferentes continentes… Esta característica multicultural reflecte-se, necessariamente, no modo como cada um vive e testemunha a fé. O que verificamos em todos é a necessidade de conhecimento e aprofundamento dos conteúdos essenciais da fé, lacuna que aqui e em todo o lado, limita, fragiliza ou mesmo anula o compromisso cristão no mundo. Procuramos responder a esta realidade com a constituição de grupos de adultos de aprofundamento da fé, sobretudo quando solicitam, para si mesmos ou para outros, a celebração dos sacramentos de iniciação cristã e do matrimónio. Para alguns trata-se verdadeiramente do “primeiro anúncio” acolhido de modo consciente e com implicações concretas na vida. Os divorciados recasados – alguns dos quais a colaborar directamente na estrutura paroquial – são também uma realidade que se vem evidenciando no Algarve. De que forma é que a Igreja, e concretamente a algarvia, procura proceder com estes casos? A crise da instituição familiar encontra, actualmente, a sua expressão mais visível e mais sofrida na fragilidade do vínculo matrimonial. Tornou-se frequente encontrarmos gente que passou do casamento canónico a um divórcio civil e depois a um segundo casamento civil por parte de ambos ou, pelo menos, de um dos cônjuges divorciados. Esta situação coloca os crentes numa situação de ruptura com Igreja enquanto comunhão e caminho de fidelidade a Jesus Cristo. Não é fácil abordar uma questão tão complexa na resposta a uma pergunta de uma entrevista sobre assuntos tão diversificados. Gostaria, no entanto, de dizer a quantos se encontram nesta situação duas coisas. A primeira é-me sugerida pelo testemunho de alguns destes casais: não embarquem em soluções simpáticas, acolhedoras e facilitadoras… apontadas por alguém que fala em nome pessoal mas não em nome da Igreja. Isso não resolve o problema de fundo e acaba sempre por ser gerador de mal estar pessoal na vivência da fé. As opções e soluções pastorais para ajudarem autenticamente a pessoa têm que se apoiar na verdade. Só o que é verdadeiro pode ser pastoral. A segunda colho-a de João Paulo II em palavras repassadas de amor pastoral: saibam estes homens e estas mulheres que a Igreja os ama, não está longe deles e sofre pela sua situação. A Igreja continua a considerá-los seus filhos, que não quer ver abandonados ou excluídos, podendo participar, igualmente, na missa pela escuta da Palavra, e participar activamente nas suas obras e no testemunho da caridade. Que avaliação faz o senhor Bispo do trabalho de leigos mandatados a trabalhar em colaboração com os párocos? É uma estratégia a manter ou a incrementar ainda mais? A avaliação é positiva, apesar das dificuldades. Claro que é um caminho a seguir e a incrementar. Passa, quanto a mim, pelo incremento desta opção a resposta que somos chamados a dar. Reconheço que há ainda alguma confusão em muita gente sobre a missão específica de “leigos mandatados”, que se apoia, necessariamente, numa vocação laical e não no ministério ordenado. Muito gostaria e espero que, nas nossas paróquias, pela acção dos Párocos, surgissem mais casais ou leigos com esta disposição e correspondente disponibilidade. Quando se vive uma das mais graves crises da história recente, sendo o Algarve permanentemente referenciada como a região do país que mais sofre com o desemprego, que respostas tem a Igreja algarvia procurado dar a este nível? Temos procurado, a nível das paróquias, das associações e movimentos, estar atentos a estas situações e procurar, ou dar se possível, respostas para elas. A nível da Diocese, criámos um fundo proveniente da última renúncia quaresmal, que está ser gerido por uma comissão nomeada para o efeito. Reconheço que a nossa resposta é mais pontual e assistencial do que, propriamente, uma acção de fundo. Que avaliação global faz então o senhor Bispo destes cinco anos como Pastor desta porção da Igreja Universal? E quais foram para si as grandes acções realizadas? Eu gosto pouco de fazer balanços deste género. É muito difícil avaliar e medir a acção de Deus na vida de quantos constituímos esta Igreja diocesana… Procuramos deixar-nos conduzir pela acção do Espírito, mas que as nossas fragilidades humanas, a começar por mim, tantas vezes impedem de chegar às metas propostas e de produzir os frutos desejados. Apesar destas limitações e de outras conhecidas, que depois se tornam mais evidentes na realidade própria de cada comunidade, pessoalmente penso que procurámos, de modo geral, empenhar-nos em seguir o Programa de Pastoral da diocese, assumindo-o como um meio para crescermos mais como comunidades vivas, fraternas e missionárias. Para isto muito contribuíram as iniciativas promovidas pela passagem da Imagem Peregrina por todas as paróquias, das quais destaco as catequeses bíblicas para grupos de adultos. A realização do Sínodo dos Bispos e a celebração do Ano Paulino vieram dar um grande contributo à realização deste Programa que, como sabemos, inspirará ainda os próximos três anos da nossa acção pastoral. Quais as principais obras/projectos que gostaria de ver realizados na diocese? Como diocese, temos naturalmente, alguns sonhos… se assim lhe podemos chamar. Quero referir-me apenas a dois deles… um mais prático, outro mais vivencial. Como sabemos a diocese assumiu, ainda com D. Manuel Madureira a obra social iniciada pelo Pe. Gomes, SOS Vida, de apoio às grávidas e às mães solteiras. Apoio que tem vindo a ser assumido pelo Caritas, mesmo sem termos uma estrutura/obra própria com esta finalidade. Trata-se de um projecto, assumido pela diocese, em diversas ocasiões, a última no início da visita da Imagem Peregrina. Gostaria que a construção desta obra continuasse a ter o envolvimento de todos – párocos e paróquias – e não fosse a obra do Bispo ou de alguns apenas… Também gostaria que este Ano Sacerdotal, com as iniciativas que já temos programadas, nos ajudasse a definir e a assumir melhor a missão do ministério ordenado na Igreja. Quanto melhor for assumida a missão específica dos presbíteros e diáconos permanentes, mais e melhor surgirá o lugar dos leigos e a sua participação na vida das comunidades paroquiais e na missão da Igreja. Por outro lado, também desejava que este ano, nos ajudasse, como clero diocesano, a fazer da oração pessoal, particularmente a oração a Cristo presente na Eucaristia, a nossa primeira prioridade pastoral, como testemunho do reconhecimento do primado absoluto de Deus na nossa vida, imersos numa cultura pluralista e ambivalente de religiosidade politeísta e neutra, cada vez mais dominante, como é aquela em que vivemos. Queremos acreditar e confiar mais naquilo que Deus faz em nós e através de nós, do que na nossa acção pastoral, tantas vezes desligada da sua fonte e da comunhão eclesial, não passando, por isso mesmo, de “agitação” pastoral.