FOLHA DO DOMINGO – Quanto tempo esteve no Algarve? IRMÃ MIRIAM GODINHO – Estive no Algarve 14 anos. Vim de Santarém em Outubro de 1994, após a morte da noviça. E agora segue para onde? Para o mosteiro onde estava antes, na abadia de Sainte Marie de Rivet, em França, a 50 quilómetros a Sul de Bordéus. A minha abadessa já me disse que devo lá estar dia 11 de Julho. Os seus superiores da comunidade entenderam que era esta a melhor solução? Sim. Eu vim de lá e durante estes anos fui lá duas vezes. Sempre me senti ligada àquela abadia. Sobretudo apoio espiritual sempre tive. Estou contente em voltar para lá, pois já conheço a comunidade e sinto-me lá bem. A irmã veio para o Algarve com o propósito de fundação… A minha antiga abadessa desafiou-me a ver se conseguia fazer um projecto de fundação. Ao princípio resultou porque entrou a Maria Helena Branco e tudo estava a correr bem, só que uma doença veio ceifar-lhe a vida. Depois entrou outra rapariga que esteve 8 anos comigo, mas não perseverou e a seguir veio outra que acabou por se transferir para um mosteiro de Espanha e eu, há 4 anos, fiquei sozinha. Porque que é que acha que não se concretizou o projecto? Pensava que as raízes de Portugal estivessem mais vivas e quando cheguei notei que essas raízes já estavam muito diluídas. Com a continuação destes anos todos vejo que o processo de deterioração das vocações está a aumentar. Há qualquer coisa que não está a favorecer o desabrochar das vocações. A partir da minha perspectiva contemplativa acho que há pouco militantismo. Há muito poucas pessoas empenhadas em viver como Igreja e em saber viver em serviço. Segundo especialistas da Pastoral Vocacional, se não há um empenhamento muito forte na vida cristã, em geral não há vocações. Acha que falta esse empenhamento? Falta. Falta um empenhamento sério de vida cristã na juventude. Não empenhamento nos grupos de querer pôr os grupos a fazer muitas coisas. É cuidar a vida pessoal como uma resposta a Jesus Cristo, vivida em Igreja e em serviços concretos, sem desligar da parte interior da pessoa. Este contacto pessoal com Jesus Cristo é essencial para o desabrochar de uma vocação. E porque é que acha que isso não acontece? Acho que há falta de catequese nesse sentido. A catequese é muito light. Dão-se passos na catequese e as crianças vão queimando etapas desde pequeninas sem compromissos. Tudo acaba no rito e, na vida concreta, as opções não correspondem aos conteúdos de fé. Há falta de conteúdo espiritual nas pessoas. Não obstante, encontramos pessoas com uma fé esclarecida e com um empenhamento muito bom na Igreja e na diocese do Algarve há pessoas que se podem apontar como exemplares nesse sentido de empenhamento, de serviço desinteressado e doação à Igreja, mas a maioria das pessoas que frequentam a Igreja não são assim, sobretudo a juventude. Vão aos grupos, fazem as suas orações, mas sem compromisso. A sua oração não compromete e não há um apaixonamento a sério pela pessoa de Jesus Cristo. Que balanço faz destes anos no Algarve? Bom. Estou agradecidíssima à diocese porque encontrei desde o primeiro momento muita simpatia e acolhimento da parte de todos: leigos, religiosos, sacerdotes e bispos. Sempre senti um apoio muito forte da diocese e muita paciência, fruto da fé que anima as pessoas da Igreja do Algarve, porque não é fácil apoiar uma monja solitária com um projecto de fundação que parece que não dá. As pessoas nunca me apontaram o dedo e nunca me desanimaram. Gostaria de agradecer muito, do fundo do coração, por isso porque me fez sentir que, apesar do meu projecto não ir avante, a minha presença junto das pessoas era valorizada. Tem algum sentimento de mágoa por não ter conseguido o objectivo? Não, porque não vim por vontade própria. Trouxe o projecto de uma abadessa que hoje está retirada porque já tem muita idade e queria implementá-lo. Como não era minha a iniciativa vou com a mesma paz com que vim. Quando os meus superiores viram que eu já estava a ficar sozinha de mais e me sugeriram pensar no regresso, imediatamente pensei em voltar ao mosteiro. Pela paz vim e pela paz vou. Não sinto frustração nenhuma. Pode haver frustração quando fazemos a obra em nome próprio e nos deparamos com muitos obstáculos. Chegou a acreditar em algum momento que o projecto da fundação ia para a frente? Sim. Cheguei a acreditar que “num momento Deus pode enriquecer o pobre”, como diz a Sagrada Escritura, e isso às vezes dava-me muita força. Quando foi pensado o seu regresso? Há um ano estive no mosteiro a projectar o meu regresso. A irmã, durante um tempo significativo em que esteve no Algarve, esteve a viver sozinha. Foi difícil a vida solitária? A vida solitária é difícil, mas a minha regra prevê que eu possa fazer vida eremítica e eu, que não pedi vida eremítica, acabei por fazê-la com os parâmetros da minha vida monástica. Nós, os monges beneditinos, somos solitários em companhia. No mosteiro, devido à vida que levamos de muito silêncio e interiorização, acabamos por ser solitários em companhia. A vida monástica é um treino para a vida eremítica. Foi o período mais difícil da estadia no Algarve? Foi o mais difícil e talvez tenha sido o mais fecundo na vida interior. A pessoa sabe se é monja se, quando lhe tiram os «andaimes», se sustenta de pé sem vacilar. E isso é um teste. E a irmã já tinha essa certeza e confirmou-a agora… Sim. É um treino muito bom que também nos faz desejar mais a comunidade. As comunidades vivem do que produzem. O que fazia a irmã a esse nível? Vivia das traduções que fazia para diversas editoras e produzia ícones que me encomendavam. Que línguas fala? Francês, Inglês, Italiano e Espanhol. Há pouco referia que os jovens não se comprometem com Cristo e a Igreja, mas a experiência vocacional que orientou na diocese de Coimbra parece contradizer essa visão… Vê-se que há uma sede… Houve essa adesão e conheceram a espiritualidade, mas toca-lhes agora agarrar nos elementos que lhes deixei da vida cisterciense e trabalhar o projecto. Acredito que daí possam surgir vocações porque o Espírito Santo «não está de férias». Hoje em dia esta ditadura do relativismo, de que falava o Papa na sua primeira missa de pontificado, está estendida a toda a Igreja. Não acreditamos muito em compromissos definitivos. Pode concretizar no que é que constituiu a iniciativa de Coimbra? Partiu de uma rapariga que falou com o responsável do Secretariado da Pastoral Vocacional que o organizou. Foi o proporcionar a um grupo de jovens da vivência num mosteiro beneditino, durante 24 horas. Acha que os jovens algarvios são mais resistentes à questão vocacional? Talvez o Algarve ainda esteja pouco trabalhado nesse sentido. Deve haver um pouco mais de empenhamento nessa área. A sua inserção na paróquia de Santa Catarina da Fonte do Bispo… …foi pouca. Foi mais espiritual do que outra coisa, porque eu tinha de manter o meu rosto contemplativo. Portanto eu não podia iludir as pessoas de que era uma monja de vida activa, que não sou. Daí, eu não tinha acção directa na paróquia. Mas nunca me neguei a trabalhar «das grades para dentro», o que chegou a acontecer. Fui fazendo o que me pediam. A paróquia também vai ficar mais pobre… Uma rapariga que me escrevia há dias dizia isso. Não pela minha pessoa, mas pela presença contemplativa que é sempre uma mais valia para um grupo de cristãos que precisa de um sinal de fé. Espiritualmente falando, estarei sempre presente para aquelas pessoas que foram sempre muito atentas comigo. Também o mosaico de congregações religiosas no Algarve vai ficar mais pobre… Pois. Deixa de estar presente um carisma, mas o Senhor providenciará. Neste momento qual o seu projecto para o futuro? Ser monja (risos). Que expectativas leva? Obedecer. A vida de um monge não tem outro sentido que não o da obediência como diz São Bento. Entro na comunidade ao serviço e o que me derem para as mãos, farei. Trata-se de preparar a minha eternidade. O monge adianta a sua própria morte quando morre para o mundo e entra no mosteiro para adiantar a vida que é aquela que nos espera. Quantos membros tem a comunidade para onde vai? Vou ser a 19ª num mosteiro com 5 nacionalidades. Não teria sido possível às comunidades maiores encaminharem para cá alguns elementos? Esta comunidade de Rivet para onde vou esteve a acabar e hoje em dia é um mosaico de monjas que vieram para ajudar a comunidade. Fiz muitas propostas a vários mosteiros do mundo, mas também compreendo que a crise vocacional não é só de Portugal. E nunca obteve resposta? Da maioria nunca obtive resposta. Houve uma abadessa do México que me mandou uma rapariga que era filha de uma família muito numerosa e esteve apenas um mês comigo porque não conseguia estar fora da pátria. Tenho esperança que a comunidade para onde vou, como está a rejuvenescer, no prazo de 5/6 anos, venha assumir uma fundação em Portugal. Que mensagem gostava de deixar à diocese do Algarve? Que os cristãos do Algarve se empenhem em conhecer Jesus Cristo, pois nós só amamos Aquele que conhecemos. Cristologia, estudo da Sagrada Escritura e formação Teológica é o necessário para chegar a esse conhecimento interior. Acha o Algarve uma diocese demasiado mergulhada em acções vazias de conteúdo? Acho um bocadinho. Fazem-se muitas coisas mas depois a perseverança nelas é que é difícil. É preciso perseverar e dar continuidade a iniciativas que são magníficas e que acabaram por se diluir porque os destinatários não se empenharam. Gostava de regressar ao Algarve? Sim, não pela paisagem, mas por saber que tem falta de presenças contemplativas, que foi uma das coisas que me atraiu quando vim para cá. O Algarve fica agora apenas com uma comunidade contemplativa… Mas as irmãs do Carmelo de Faro são valentes e valem por mil.