Aquele advogado de 39 anos que optou por não exercer a profissão, começa por constatar de que, com a chegada de D. Manuel Madureira Dias ao Algarve, “implementou-se uma forte dinâmica e aposta nos leigos”. Como exemplo disso mesmo, para além da própria experiência pessoal que vive com o padre José Joaquim Campôa, actual pároco de Aljezur, Bordeira e Odeceixe, que inicialmente incluiu também Teresa Martins, João Cabral lembra ainda os casos dos casais Albino e Cláudia Martins, pioneiros, como leigos, neste modo de servir a Igreja algarvia, a trabalhar na paróquia de Cachopo, e Nelson e Ângela Farinha, que viveram também uma experiência parecida nas paróquias de Alte e Querença. “Na Diocese começava a viver-se uma mudança de atitudes e novos modos de ser Igreja”, para “regozijo e esperança” de uns e “desconfiança” de outros, recorda, certo de que “o Espírito Santo tentou «falar» ao Algarve, mas poucos perceberam que o rumo, no qual D. Manuel tentava apostar, poderia ser um caminho verdadeiramente válido para fazer face à escassez das vocações sacerdotais”, lamenta, considerando que “no futuro, todos, em plena comunhão, poderiam participar numa Igreja mais descentralizada e menos hierarquizada”. Em relação à sua experiência pessoal, assegura que a mesma o tem feito “crescer a nível cristão, em todas as dimensões”. “Em 1999 lancei-me numa aventura, que para mim termina em Aljezur. Aqui encontrei o meu lugar e aqui servirei a Igreja, hoje com este sacerdote, amanhã com o que se seguir. A minha disponibilidade será sempre a mesma”, garante, adiantando que o projecto que o fez partir da sua cidade de Faro “ainda não se concretizou”. “Penso que só alguns passos foram dados. Ainda não estou a viver o meu ideal de Igreja. Sinto que Deus me chamou até Aljezur, para algo ainda mais nobre e bonito”, confessa João Cabral, reconhecendo que ainda lhe falta “aprender muito e viver com mais intensidade o espírito cristão”. Considerando que “a experiência comunitária de base «morreu» com a saída da Teresa”, João Cabral, afirma que “os anos seguintes, até aos dias de hoje, foram um gerir de tudo aquilo que se construiu a três”, embora sem nada acrescentar ao projecto inicial trabalhado com D. Manuel Madureira Dias durante cerca de 2 anos. Hoje, João Cabral acredita que “chegou a hora de Aljezur dar um passo em frente”. “Há massa humana mais que suficiente para ser trabalhada”, afirma. Tendo crescido no seio de uma comunidade paroquial urbana, realça agora que “é mais interessante, mais prático e mais consequente trabalhar-se com pequenos grupos, numa paróquia do interior”. Reconhecendo o “grande apoio e carinho” por parte das comunidades cristãs do interior algarvio que serve, garante que “as gentes da Costa Vicentina sempre atentas, generosas e sedentas de Deus, mostraram que a Igreja tem ainda muitíssimo a dar-lhes”. “Era interessantíssimo apostar nestas novas formas de ser Igreja, romper desconfianças, muitas vezes infundadas. Temos tantos leigos, especialmente casais, que cresceram nos Convívios Fraternos e noutros movimentos e que só esperam por uma palavra para trabalharem numa entrega mais radical à Igreja”, refere, certo de que “está a chegar um novo tempo” à Igreja. “O Espírito Santo anda a dar sinais que algo tem de mudar nas nossas estruturas paroquiais”, considera, referindo-se à intervenção final do actual Bispo do Algarve, D. Manuel Quintas, nas Jornadas Paulinas. “Igreja do Algarve aposta nos teus leigos! Eles serão num futuro muito próximo um dos alicerces mais importantes nesta nossa Diocese. Serão eles com os poucos padres existentes as «personagens» fundamentais, para inverter uma certa descrença, não em Deus, não em Cristo, mas na Igreja estrutural e hierárquica”, exorta aquele leigo, afirmando haver, nos diversos movimentos e espiritualidades, “elementos fundamentais e necessários para uma eficaz e plena renovação estrutural” das paróquias algarvias. Como exemplo aponta o “desprendimento e alegria” do Caminho Neocatecumenal e a “simplicidade, humildade e paz de espírito” de Taizé. “Penso que as «velhas estruturas» das nossas paróquias e de alguns movimentos que trabalham no Algarve têm de se renovar para trazer um discurso mais apelativo e mais de acordo com a realidade concreta do nosso dia-a-dia”, considera, na certeza de que “o ano de 2009 será o ano da mudança, da renovação e da transformação”. Concretamente sobre a espiritualidade de Taizé, de que é conhecido simpatizante e responsável diocesano, afirma ter sido a responsável pelo crescimento dos jovens do concelho de Aljezur. “Taizé abriu-lhes os horizontes cristãos, culturais e humanos. Aproximou-os de Deus e da Igreja. Fê-los crescer nas suas personalidades e ajudou a paróquia de Aljezur a ter uma massa jovem como muitas não têm”, verifica. Reconhecendo de que, com esta experiência de 10 anos, encontrou o seu lugar na Igreja, tem esperança de ainda levar por diante o projecto social que tinha em mente em 1999 a equipa de que fazia parte: a construção de uma casa de acolhimento para crianças abandonadas. “Não está esquecido e os jovens de Aljezur têm um forte desejo de ajudar a concretizá-lo”, conclui.