O jovem algarvio refere que sentiu necessidade de relatar as “coisas extraordinárias” que viveu nestes últimos 3 ou 4 anos da sua caminhada. Valendo-se de uma imagem bíblica, Nelson Viana afirma que “não quis enterrar os talentos”. “Resolvi escrever o livro para que outras pessoas possam também ter conhecimento desta minha experiência, para poder ajudar outros que passem pelo mesmo género de sofrimento e para mostrar as graças que nos estão reservadas se buscarmos a Deus com vontade, fé e confiança”, diz. Baptizado em criança, Nelson Viana fez a primeira comunhão com 10/11 anos, altura em que abandonou a Igreja até adoecer há cerca de 3 anos a trás. Apesar do afastamento garante que continuou sempre a ler a Bíblia, a rezar à noite e a afirmar-se como crente, embora reconheça agora que se tratava de uma “religiosidade superficial”. Empregado de mesa, trabalhava muito, “ganhava bem”, mas “levava uma vida de stresse”, “com poucos momentos de descanso”, saindo muito à noite e com uma actividade que o fazia gastar muito dinheiro: o tunning (aquisição e transformação de automóveis). Começou a ter crises de ansiedade, resultantes de várias fobias, uma “doença grave” que diz tê-lo levado a sentir necessidade de aprofundar mais a sua fé. “A doença despoletou o crescimento em mim da semente plantada por Deus”, observa. Na altura isolou-se e deixou de sair à noite e de conviver com os amigos. Começou sozinho a ver o canal de TV Canção Nova, a assistir à Eucaristia e a ler mais a Bíblia e a rezar o Rosário. A determinada altura da sua vida começou a deparar-se com a morte antes de adormecer. “Tratava-se de um sentimento interior, mas que eu, consciente, conseguia visualizar na minha mente. Era como se saísse fora do mundo, contemplasse o universo e me deparasse com a morte de todos os seres humanos, inclusive a minha. Era algo terrível que me levava para a rua em pânico e com vontade de gritar. Mas depois olhando para o céu e fazendo o sinal da cruz parece que serenava”, relata Nelson Viana, contando que passou também a ter crises de ansiedade a conduzir, deixando na altura de trabalhar. Com a ansiedade e taquicardia a aumentar, apesar de medicado, decidiu sair de Portugal. Vendeu o seu Audi A3 e foi para Itália. Chegado, em Novembro de 2004, a Itália, começou a participar duas vezes por dia na Eucaristia. “Sentia essa necessidade”, reconhece. Em Roma, começou a procurar trabalho depois de conseguir casa, mas a saúde começou a agravar-se. Um dia, na Eucaristia em São João de Latrão, teve uma crise “muito grave”, sem conseguir sequer deslocar-se para o hospital que fica a 200 metros da igreja. “Pensei que ia morrer naquele dia. Acho que Deus deu-me a provar um bocadinho do sofrimento que existe no inferno”, testemunha, acrescentando que os médicos sempre lhe disseram que o seu problema era do foro psicológico, aconselhando-o a ter acompanhamento psiquiátrico que estava disposto a iniciar. “Ao sair do hospital, diante da igreja de São João de Latrão, veio-me um pensamento muito forte: «Vou colocar-me totalmente nas mãos de Deus». Quando tomei esta decisão inicia-se a minha cura divina”, precisa. Passados dois dias encontrou um rapaz, missionário claretiano, que lhe deu um livro – “Uma cabana no Bosque” – que marcou a transformação da sua vida, pois falava de um tipo de oração contemplativa, ao estilo de São João da Cruz e de Santa Teresa de Ávila, mas aliada a uma meditação oriental. “Comecei a fazer meditação silenciosa e a pedir o Espírito Santo”, relata, considerando “um milagre autêntico” a sua melhora. “Descobri que precisava esvaziar-me de tudo para encher-me de Deus. Apesar de ir já à missa, de rezar o terço e de fazer oração ao Santíssimo Sacramento, consegui curar-me através da oração contemplativa, do silêncio e o esvaziamento de mim mesmo”, reconhece. É então que acontece um segundo momento que diz ter sido “único” e que classifica como “um marco” na sua caminhada de fé. “Um dia, dentro do autocarro ouvi uma voz que me disse durante 30 segundos: «Vem e segue-me». A partir daquele momento mudei radicalmente de objectivos de vida. A partir dali queria seguir Cristo a tempo inteiro”, relata. Conseguindo subsistir com algum dinheiro que tinha economizado e com a venda do seu carro, deixou de procurar trabalho, de querer constituir família e começou a procurar o seu lugar na Igreja. Através do seu amigo claretiano começou a fazer uma caminhada nos claretianos, mas na Páscoa visitou Assis e a partir do momento em que conhece a história de São Francisco identifica-se completamente com ele, decidindo ser franciscano. Procurou uma comunidade franciscana e confessou-se ao fim de 18 anos, o que começou a fazer regularmente. No entanto a caminhada nos franciscanos também não correu como desejava. Conhece um rapaz que o convidou a fazer uma peregrinação a pé e à boleia pela Itália, durante 4 dias, sem nada, apenas sobrevivendo da divina providência, o que o levou a tomar contacto, numa igreja em Roma, com uns frades franciscanos renovados (que não se identificam com a ordem tradicional). Atraído pela indumentária miseravelmente pobre, semelhante à que envergava quando realizava a peregrinação, Nelson Viana decide fazer uma experiência com aquela comunidade. Antes realiza ainda uma segunda peregrinação, partindo de Paris, com o objectivo de fazer o caminho de Santiago a pé. Estando com os frades renovados na Sicília durante algumas semanas, rapou o cabelo e começou a deixar crescer a barba, mas voltou a ter novo pensamento desta vez para regressar a Portugal. “Para mim foi novamente a voz de Deus. Queria fazer o que fazia ali, mas junto das pessoas que eu amava: a minha família e os meus amigos”, recorda. Depois de um ano em Itália, regressa a Portugal em meados de 2005 convicto de que tinha uma missão para realizar. “A viagem que me custou mais a nível psicológico foi de Lisboa para Albufeira pela ansiedade do regresso e do reencontro”, confessa, garantindo que, depois de chegar a Albufeira, começou a aperceber-se de uma outra realidade. “Deus queria-me no mundo, não vestido da maneira que me vestia quando estava com os frades da Sicília, mas antes de modo normal, testemunhando da mesma maneira a minha fé em Cristo como São Paulo ou Charles de Foucauld. No fundo, quero estar com as pessoas e testemunhar a minha fé com a minha vida, seguindo o exemplo de Cristo”, salienta. Nelson Viana garante ter tido “uma receptividade boa por parte de algumas pessoas e má por parte de outras”. “Tive muita dificuldade com os amigos, para que entendessem o que passei, mas acabaram por respeitar”, conta, acrescentando ter sentido o afastamento de algumas pessoas. Hoje, Nelson Viana garante não se sentir chamado a consagrar-se totalmente a Deus integrando um seminário. Começou a frequentar a paróquia e integrou um grupo para receber o sacramento da Confirmação. Actualmente não trabalha e subsiste com a ajuda dos pais, estando empenhado na divulgação do seu livro que entende enquadrar-se na sua missão de “trazer outras pessoas para Cristo”. Entretanto teve uma audiência com o Cardeal-patriarca de Lisboa. “D. José Policarpo disse-me para continuar e que se algum dia o meu trabalho produzir frutos, a Igreja fará o devido reconhecimento”. “Enquanto eu acreditar que é a inspiração divina que me move a actuar desta maneira, vou continuar”, conclui Nelson Viana. O lançamento do seu livro, publicado pela editora Tecto de Nuvens, acontecerá, com o apoio da Câmara de Albufeira, na Biblioteca Municipal daquela cidade, no dia 10 de Outubro deste ano, pelas 21 horas. O livro de Nelson Viana encontra-se à venda pelo valor de 6 euros, em vários pontos, entre os quais a livraria Paulinas Multimédia, em Faro.