O empresário considerou que “as crises são a base da auto-regulação da livre economia de mercado, opção dos regimes democráticos”. “Há um período de estabilidade, comentem-se excessos e a crise corrige esses excessos”, explicou aos cerca de 60 empresários e gestores presentes, reconhecendo que nem todos sofrem com as crises. “Sofrem os que passam mal, os que vivem o desemprego, porque os demais têm juros mais baratos e andam melhor na estrada porque há menos veículos”, constatou, acrescentando que “a cultura de superar o sofrimento, constrói-nos como pessoas” e que “cada vez que entramos numa crise, saímos dela ligeiramente melhor do que entrámos”. Falando no Hotel Faro, sob o tema ‘A missão do empresário e gestor cristão perante os desafios de hoje’, após a Eucaristia que teve lugar na capela do Seminário de São José, o empresário católico lembrou também que o cenário de crise é “um mundo de oportunidades” e defendeu que “as dificuldades vividas noutras épocas eram bem mais complicadas que as de hoje”. “Creio que há mais pessoas a viver melhor, do que viveram na época dos nossos avós e pais. Não sei se a qualidade de vida é toda melhor, temos é muito mais recursos e bens”, afirmou, lembrando que “para se distribuir riqueza é preciso gerar riqueza”. “Não há outra forma!”, evidenciou. José Luís Simões sublinhou por isso que “é preciso ter outros valores nos momentos críticos”, mas “se não formos capazes de criar riqueza, ser humanista é um luxo no qual implodimos todos”. “Se é verdade que é preciso ter critérios humanistas, nos momentos de crise não há milagres e é preciso agir”, afirmou, congratulando-se com o facto de nunca ter despedido colaboradores em tempo de crise, mas lamentando já o ter feito fora da crise. “Foi das decisões mais difíceis que tive de tomar, mas era preciso salvar o barco”, referiu. Reforçando a ideia do sofrimento interior dos empresários, implícita ao imperativo de ter de decidir, o presidente do grupo Luís Simões testemunhou a prioridade na sua organização da preservação dos postos de trabalho. “É mais importante que se preserve os postos de trabalho do que ter lucro num negócio em concreto, mas como não conseguimos viver sem lucro, temos de procurar com todos criar uma forma de ser competitivos para merecer a confiança e o interesse dos clientes”, complementou. “Quando perdemos um grande contrato, a multinacional que entregou o negócio a outro, não tem ideia que temos cerca de 3000 famílias (cerca de 10.000 pessoas) que dependem deste projecto”, acrescentou. Elegendo alguns valores “determinantes” da sua organização, mostrou como foi possível passar de uma empresa que em 1948 tinha já a sua primeira camioneta, quando na altura existiam quase só carroças, para um grupo empresarial que hoje tem 1700 colaboradores directos mais 1300 subcontratados. Diferenciação, persistência, complementaridade, tenacidade, ética, inovação, unidade e competitividade foram alguns dos termos mais utilizados pelo orador que juntou a este quadro de valores o “muito trabalho” que é preciso para consolidar tudo. A formação foi igualmente outro dos valores mais sublinhados pelo orador que testemunhou a criação em 1982 de um Centro de Formação Profissional para motoristas, fazendo da Luís Simões a primeira empresa privada em Portugal com tal estrutura. Por outro lado, referiu também a necessidade dos administradores frequentarem, de cinco em cinco anos, uma reciclagem numa qualquer cidade da Europa e apresentou o investimento em 2008 de 34.000 horas de formação, havendo anos anteriores que chegou às 50.000 horas. José Luís Simões considerou ainda que “o gravíssimo problema de Portugal” é a falta de “pessoas, processos e sistemas”. “Se não temos pessoas, processos e sistemas que suportem o produto, este não serve de muito”, considerou. “Ou temos vantagem diferenciadora sobre aquilo que o próprio cliente pode fazer ou não temos negócio”, advertiu, regozijando-se com o novo centro de operações logísticas no Carregado, inaugurado no âmbito do seu 60º aniversário do grupo. A infraestrutura, com 20.000 metros quadrados que será replicada em Lisboa, Madrid e Barcelona e comporta 56.000 paletes e 20 portas de carga, custou 30 milhões de euros e foi criada “para criar vantagem diferenciadora para a próxima década”.