De 15 de Julho a 17 de Agosto, a jovem algarvia, estudante de engenharia agro-pecuária, mergulhou na realidade pobre do pequeno bairro de Pericón, na diocese de Merlo Moreno, nos arredores de Buenos Aires. Entrevistada pela FOLHA DO DOMINGO, a missionária algarvia explica que afinal mais importante que ir lá para longe, o importante é perceber as missões a desempenhar ao perto. FOLHA DO DOMINGO – Como é que surgiu a oportunidade de participar nesta experiência? Vera Ferreira – Um dia fui à Missa em que costumo participar, na igreja de Santa Cruz, em Coimbra, – a cidade o­nde estou a estudar –, e umas raparigas informaram que estavam a fazer uma recolha de fundos para quem quisesse ir numa missão à Argentina.Eu abordei o grupo e perguntei se ainda aceitavam voluntários. Elas disseram-me que sim e em Janeiro deste ano começaram as preparações para a missão.Nós, os 15 jovens portugueses, reuníamo-nos de 15 em 15 dias em Coimbra para nos prepararmos. Quantos foram os participantes? De Portugal éramos 15, mas ao todo éramos cerca de 80 jovens, entre jovens de França, Japão, Alemanha e Espanha. O grupo maior era da Alemanha e de Espanha. Concretamente, o que é que fizeram? Fomos divididos em 4 grupos. Havia a responsabilidade principal que era a pintura do infantário, pois as instalações estavam em mau estado e as missionárias tinham-se comprometido em fazer a pintura, quer do pátio (com desenhos), quer das salas interiores. Para além deste grupo da pintura, havia ainda os grupos da saúde, das crianças e de visita às famílias. Então, dividimo-nos de forma estarmos num dos grupos em cada semana. Eu estive na pintura na primeira semana, na segunda participei numa missão diocesana organizada pela diocese local e trabalhei ainda com os miúdos. Só não estive na saúde porque era para quem estivesse mais vocacionada para essa área. Com as crianças, íamos de manhã para o campo de futebol e fazíamos jogos e desenhos e procurávamos perceber como é que viviam e estávamos com eles. Nas visitas às famílias reuníamos 3 ou 4 pessoas e, como os argentinos são muito devotos de Nossa Senhora, percorríamos as diversas casas, dando informação sobre a nossa missão e sensibilizando para a participação com as crianças nas Eucaristias, mas sobretudo, procurando escutá-las e saber como viviam.A missão diocesana foi para mim um momento extraordinário porque pude conviver mais de perto com jovens que também já fazem estas missões e com outra realidade mais pobre do que aquela o­nde se centrava a missão. Qual é a realidade da Argentina neste momento, a nível religioso, social, cultural? Com a crise de 2000 muitas pessoas ficaram na pobreza, sem ter dinheiro, sem ter o que comer e sem ter emprego e a Igreja foi um apoio social bastante grande ao ponto da criar espaços, chamados comedouros, para dar de comer às pessoas. No sítio o­nde ficámos chegou a haver comedouros para 700 pessoas e a paróquia conseguia sustentar todas as pessoas que moravam no bairro. É por isso que a Igreja, em termos sociais, tem uma importância tão grande. Da pobreza resultaram vários outros problemas. Eu conheci várias raparigas de 20 anos, com três filhos e já à espera do próximo. Também na Argentina a Igreja é uma autoridade? Não é só uma autoridade. A Igreja é viva, é para as pessoas. É uma Igreja de intervenção social e as pessoas têm um respeito muito grande pela Igreja. O padre Raul, o pároco da zona o­nde estivemos, tem dedicado toda a sua vida a ajudar os pobres, dando-lhes de comer e apoiando-os socialmente. O padre mobiliza-se em busca de apoios. O Estado reconhece isso? Não sei. O que eu sei é que a Igreja tem uma acção social bastante grande. Mas pelo menos a sociedade reconhece e respeita o trabalho que a Igreja desenvolve? Bastante. E o povo argentino tem uma gratidão, mas também um espírito de luta bastante grande. As pessoas vivem com quase nada. Até as casas que têm são elas próprias que as constroem. Mas há pessoas de certos sectores da sociedade que vivem bem. Claro. Relacionados com a política? Claro. O que as pessoas sentem é que naquele país há uma certa corrupção. Os ricos são ricos e os pobres são pobres e não são dadas muitas oportunidades às pessoas pobres para evoluírem. As pessoas continuam a querer trabalhar, mas parece que há uma barreira tão difícil de transpor entre a pobreza e o outro mundo… Aquelas pessoas vivem só para conseguir o dinheiro para comer e mais nada. O Estado não assegura os direitos mais elementares como a assistência à saúde, educação, emprego, etc? O que eu consegui perceber é que as pessoas que trabalham só conseguem ter dinheiro para comer e nada mais. Como é que foi acolhida pela comunidade local? Muito bem. Senti-me um pouco mal porque percebi que podia fazer muito pouco num mês, mas as pessoas acolhiam-nos e agradeciam-nos por termos dedicado um mês das nossas vidas para estarmos com elas. Por vezes até me dava um aperto no coração de tanto que as pessoas nos valorizavam. Sermos acolhidos por um povo que não nos conhece de braços e coração aberto é extraordinário. As pessoas são de uma riqueza interior fantástica e a pobreza traz isso. Traz a simplicidade, a humildade e um coração muito grande. Porque que é que quis fazer esta experiência? Eu queria sentir o que era estar ao serviço de outro, embora estivesse consciente que ir em missão para o estrangeiro não é tão importante como tudo isso. Se não formos capazes de, o­nde estamos, também nos entregarmos aos outros e de os servirmos, então ir ao estrangeiro não tem significado nenhum, pois a missão começa o­nde nós estamos. Mas ir um pouco mais além, conhecer um povo numa situação de necessidade e perceber como é que essas pessoas são, foi isso que me levou a aceitar este desafio. Mas o importante é querermos e podermos ajudar o­nde estamos. Ir à Argentina foi uma oportunidade que me surgiu, mas o mais importante é estarmos abertos a fazer algo pelos outros. Ir em missão para a Argentina é igual a ir trabalhar aqui para o centro de idosos. Se calhar faz mais falta aqui do que lá. Mais importante do que irmos lá fora é percebermos as missões que podemos desempenhar perto de nós. Ajuda a tomar essa consciência, uma missão ad gentes? Não. Essa consciência eu já a levava. Eu quando penso em missão, penso no dia-a-dia da minha vida e não numa viagem, num espaço de tempo concreto. A missão ad gentes reforça muito mais a vontade de ajudar. Se eu vou lá fora e acho que já fiz tudo o que tinha a fazer, penso que isso não tem qualquer sentido. Pobreza e bairros da lata também há em Portugal. A sua paróquia é que ficou a ganhar, pois passou a contar com uma pessoa muito mais sensível a esse tipo de situações? A paróquia tem muitas pessoas sensíveis e muitas que desempenham acções sociais de voluntariado. E posso dizer-lhe com muito orgulho que a paróquia o­nde me insiro tem pessoas que trabalham muito no sentido de ajudar os outros. Muito mais do que eu, porque o têm feito ao longo de toda a vida e se calhar foi pelo exemplo deles que eu cheguei até aqui. Mas ficou mais sensível às missões ad gentes? Sim. Claro que sim. As situações de pobreza nunca me passaram ao lado, agora ir lá e ver a força e a fé que as pessoas têm, que os ajuda a viver, a confiar e ter esperança no dia de amanhã, isso sim, é um testemunho. Os argentinos são pessoas de fé? São. E isso vê-se no relacionamento e na partilha com os outros. Do pouco que têm são capazes de dar tudo. A sua fé pessoal também saiu valorizada? Levou um abanão grande. Os exemplos de vida daquelas pessoas que tanto passaram, a maneira de agradecer a Deus e a alegria que têm faz avivar aquilo que temos dentro de nós. Sendo os argentinos pessoas de fé e ido vocês para lá com a intenção de evangelizar, quem é que acabou evangelizado? Nós. Fomos lá para missionar e no final saímos missionados. Eles ensinaram-nos muito mais. E foi atingido o objectivo a que se propôs? Eu vim com a sensação de alguma tristeza por ser tão pouco tempo. Quando já estamos a começar a conhecer as pessoas, o meio que as envolve e o­nde é que nos poderíamos encaixar melhor, vimos embora e voltamos às nossas casas. Então ficamos com uma sensação de insatisfação. Foi pouco tempo, mas de qualquer maneira deu para valorizar muitas coisas. Gostava de lá voltar? Sim. Gostava de voltar um dia pelo menos para rever aquelas pessoas. A sua paróquia teve conhecimento? Apoiou? Os jovens da paróquia todos me apoiaram e também falei várias vezes com o senhor padre Domingos que me deu bastantes conselhos. Senti da paróquia uma força imensa. Fiz também questão de trazer cá as irmãs para elas conhecerem a minha paróquia. E o apoio da família? Sim. A minha família apoiou-me bastante. Todos me apoiaram.