Com base no exemplo de alguns dos lugares das suas paróquias, onde celebra Eucaristia apenas uma vez por mês, intercalando com a celebração da Palavra, o conferencista testemunhou este descrédito. “Quando vou celebrar Eucaristia juntam-se umas 50 ou mais pessoas. Quando vai o ministro a celebrar a Palavra, participam apenas 10 ou 12 pessoas”, lamentou, considerando que “estamos cheios de palavras e por isso já não avaliamos verdadeiramente o que é a Palavra”. “A Palavra é mais do que uma coisa. É essencialmente uma Pessoa”, afirmou, lembrando que, “quando se eleva o Evangelho e se diz: «Palavra da Salvação», é Cristo que nos fala”. “Então não são palavras que ouvimos, mas o próprio Jesus Cristo que fala. Por isso a Palavra de Deus ganha outra força. É o Filho que fala. Ele é a Palavra. Não é por acaso que se acendem velas à volta do Evangeliário, que nos pomos de pé para ouvir a proclamação do Evangelho e que deve ser um livro diferente dos outros”, explicou. Considerando que “tantas vezes a Palavra não realiza a sua função”, o padre José Águas interrogou: “será que a Palavra perdeu a sua força? Será que a «semente» não presta ou será que o «terreno» que a recebe é «pedregoso», ou é um «caminho» ou está cheio de «silvas» e «ervas daninhas»?”. “Rarissimamente é terra boa”, respondeu, certo de que “o problema que se põe é de fé na Palavra”. A propósito da comunhão, explicou que “aquilo a que chamamos comunhão é o sinal sacramental de toda a outra comunhão (incluindo a da Palavra de Deus), que temos de fazer, caso contrário é um gesto vazio de sentido”. “Quando um ministro da comunhão vai levar a algum doente a Eucaristia é essencial fazer a celebração da Palavra”, elucidou. O sacerdote sublinhou ainda que “a Palavra atinge a sua plenitude quando é proclamada e celebrada na Igreja, nos sacramentos”. Considerando que, “ao longo da Idade Média, a Palavra de Deus foi perdendo a sua actualidade” por via de ser proclamada em latim, o padre José Águas recordou que foi com o Concilio Vaticano II “que se deu a abertura”. “O mau estar na Igreja era tanto que a primeira reforma que foi feita foi a introdução das línguas que falamos (vernáculo)”, justificou. A propósito das novas orientações trazidas pelo Vaticano II, salientou ainda o “carácter pascal dos sacramentos” e a “introdução da Palavra de Deus e da homilia na celebração de todos os sacramentos”. Para exemplificar o primeiro aspecto, referiu-se ao Baptismo como o sacramento que “nada mais se realiza e comemora senão o mistério pascal”. “Daí que o Baptismo é para celebrar na Páscoa e no domingo que é a Páscoa semanal. Como é que se pede o Baptismo para abrilhantar outras datas?”, questionou. Relativamente à outra dimensão, elucidou que “na liturgia só há lugar para a Palavra de Deus, a Palavra da Igreja e a Palavra do presidente”. “O Concílio mandou que, ao celebrar qualquer sacramento, houvesse sempre a comunhão da Palavra de Deus”, justificou. Neste contexto, referiu-se às admonições às leituras. “Uma admonição maior que a leitura é errado. A explicação «engole» a leitura”, advertiu, indicando que “o sacerdote é o primeiro a fazer as admonições”. “Às vezes tornou-se regra alguém que comenta tudo. Quebra completamente o ritmo da celebração. Há celebrações que o exigem. Para além disso, há admonições que são próprias do celebrante. Usamos e abusamos das admonições”, criticou. A terminar, apelou a à promoção da celebração da Palavra de Deus “nas vigílias, nas festas mais solenes, em alguns dias feriados, Advento e Quaresma” e que a homilia seja uma “extensão da Palavra”. Garantiu ainda que “a fé vem da pregação, da Palavra”. “É a Palavra que faz de cada rito sacramental um verdadeiro acontecimento de graça e um sinal de salvação”, concluiu.