E Isilda Pegado acrescentou ainda que: "para crimes de aborto com gestação até às 10 semanas, há mais de 10 anos que não se conhece nenhum julgamento feito em Portugal". "Todos os julgamentos trazidos à praça pública são de crimes de aborto praticados acima das 14 e 16 semanas", esclareceu Isilda Pegado. Para a advogada, "o aborto é um acto de natureza tal que, ou é crime ou tem de ser de direito, porque não sendo proibido cai dentro da categoria dos actos médicos. E como em Portugal todos os actos médicos devem ser acessíveis a cada um dos cidadãos, eles passam a ser um direito à saúde", referiu. Aproveitamento das mulheres Intervindo sobre o contexto dos julgamentos que tem havido em Portugal, a presidente da FPV defendeu que "se alguma vergonha tem havido por parte das mulheres portuguesas, nomeadamente por virtude dos julgamentos que correram neste País, esse vexame deve-se exclusivamente aos defensores do aborto". "Nós nunca ‘armámos o circo’ à porta dos nossos tribunais. Nós estamos habituados a, todos os dias, situações justas e injustas serem julgadas com recato, dignidade e respeito por quem está sentado no banco dos réus", afirmou Isilda Pegado, considerando que "a forma mais bárbara de julgar alguém é fazer o seu julgamento na praça pública" e que "estes senhores querem introduzir em Portugal a cultura da morte contra a cultura do amor e da Vida". Lei da Política Criminal Ainda neste contexto, a advogada lembrou que o PS aprovou, em Junho passado, a chamada Lei da Política Criminal, que "visa resolver os problemas de atrasos dentro dos nossos tribunais" e que "diz que todos os crimes com pena prevista até 3 anos – como é o caso do aborto – , vêem os respectivos processos suspensos e não vão a julgamento". "É por isso que não temos julgamentos no dia de hoje", justificou. Função "preventiva" da Lei actual Apesar dos condicionantes de "a lei não ser aplicada, não haver julgamentos nem prisões", Isilda Pegado considerou que a mesma mantém uma "função muito importante": a "preventiva". "Se eu souber que uma coisa é proibida não a faço. É esta a única função que nós pedimos a esta lei", constatou. Cultura de Vida versus cultura do facilitismo Não fugindo à realidade do aborto clandestino em Portugal, Isilda Pegado defendeu que "é preciso trabalhar numa cultura que retire às mulheres este drama e que lhes dê outra opção". "A Vida não é entre aborto legal e ilegal", frisou. Isilda Pegado deu conta das "dezenas de instituições" para a defesa da e promoção da Vida humana, cons-tituidas em Portugal nos últimos 8 anos, e do trabalho em prol do acolhimento de mães e crianças em risco, da educação para a sexualidade, dos problemas da família e dos problemas políticos, e regozijou-se com a "rede nacional" de 15 grupos cívicos, de norte a sul do País. Defendendo que "o aborto é um drama para a mulher" e que "qualquer mulher, depois de fazer um aborto, dificilmente se levanta desta chaga onde cai", pois "nenhuma mulher esquece um filho que não nasce", considerou que "oferecer o aborto às nossas mulheres é um mal, um veneno e uma destruição". "Teremos então duas Vidas destruidas", complementou. Para Isilda Pegado, "uma vez liberalizado o aborto, é a cultura do laxismo e do facilitismo que está à nossa frente". O sistema de saúde e o negócio do aborto Referindo-se a um aspecto que considerou "odioso", apontou o dedo ao Estado. "Um Estado que não tem condições para socorrer os doentes, ajudar os aflitos; que tem um sistema de saúde que todos nós conhecemos – com as listas de espera que obrigam gente, tantas vezes incapacitada, a ficar meses e meses à espera de uma cirurgia ou prótese porque não há dinheiro – dá-se ao luxo de oferecer aborto gratuito e, segundo aquilo que é dito, a ser feito nas clínicas privadas, algumas delas pertencentes a grandes grupos económicos que vêm do estrangeiro fazer o seu negócio em Portugal. Nós temos o direito à indignação perante a forma como os nossos impostos são tratados e o nosso dinheiro é usado", afirmou.