FOLHA DO DOMINGO – Senhor Bispo, esperava que acorresse tanta gente para o acolhimento da imagem peregrina? D. Manuel Quintas – Não esperava, sinceramente, uma multidão tão grande. Desconheço mesmo se alguma vez a cidade de Faro assistiu e participou numa manifestação pública de fé com esta moldura humana. Foi uma agradável surpresa para mim, para a comissão organizadora e penso que para todos quantos, sábado à noite, acorreram de todo o Algarve a Faro para esta celebração. Numa sondagem feita junto dos párocos, previam-se cerca de 40 autocarros… parece que, segundo informação da PSP, foram mais do dobro, vindo ainda um considerável número de pessoas com meio de transporte próprio. Tenho que referir, igualmente, os farenses, que acorreram em grande número, ou se uniram das janelas e varandas de suas casas, à procissão de velas, nela participando com fé e devoção. Os Serviços Diocesanos disponibilizaram cerca de 5000 velas, muitas pessoas trouxeram-nas das suas paróquias e verificámos ainda que havia muita gente sem vela. Estou convencido de que se houve "alguém" que não ficou surpreendido com esta mobilização tão grande do povo algarvio, foi Aquela que motivou e mobilizou toda esta multidão: Nossa Senhora. Ela, como Mãe, conhece bem o coração dos seus filhos e os seus anseios… Havia também alguns autocarros, vindos da vizinha Espanha, pois também ali foram distribuídos alguns cartazes… Aí está outra surpresa para nós. A veneração a Maria, enquanto Mãe de Jesus e nossa Mãe, e a particular devoção a Nossa Senhora de Fátima não conhecem fronteiras… Vejo nisso uma sugestão para os párocos e as comunidades paroquiais dos concelhos limítrofes de Vila Real de Santo António, Castro Marim e Alcoutim, quando se reunirem para organizar a visita da imagem peregrina às suas paróquias… Seria bom que nela incluíssem ou, pelo menos, informassem os párocos vizinhos de Espanha. Posso concluir que está feliz pelo modo como decorreu o acolhimento da imagem peregrina? Estou feliz eu e, estou certo, todos os que nele participaram, tendo em conta diversos testemunhos que recebi. No final da celebração agradeci a quantos colaboraram na organização deste acontecimento, destacando de modo particular, os intervenientes directos: Câmara Municipal, PSP, GNR, Marinha, Bombeiros Municipais e Voluntários… Gostaria de referir, igualmente, os Escuteiros, mesmo os Lobitos, pela sua preciosa colaboração, bem como a Comissão diocesana responsável pela coordenação deste evento. A surpresa pelo número de pessoas que acorreram a Faro, obrigou todos, particularmente a PSP e a GNR a um trabalho suplementar. Mas é a todo o Algarve e, de modo especial, a Faro, que aqui deixo o meu reconhecimento e o meu profundo obrigado pelo modo como aderiu e participou no acolhimento de imagem peregrina. Podia resumir em poucas palavras o objectivo desta iniciativa pastoral, a visita da Imagem Peregrina, para a Igreja diocesana do Algarve? A passagem da imagem peregrina no Algarve é um meio e não um fim em si mesmo. O povo algarvio demonstrou que é um povo, na expressão da sua fé, profundamente mariano, tal como o povo português em geral. Pretendemos que, sem deixar de ser mariano, possa chegar também a Cristo. Esse é o verdadeiro objectivo. Passar de Maria a Cristo. Tal como ela propôs em Caná, em Fátima, em os todos os tempos e lugares. É essa a sua missão, como Mãe de Jesus e nossa Mãe. Cristo é, verdadeiramente, o nosso Redentor e Salvador. É a Ele que somos convidados a escutar e a seguir. É com Ele que temos de nos identificar. Daí o lema inspirador do nosso Programa Pastoral para este sexénio, fazei o que Ele vos disser, pedido formulado por Maria nas Bodas de Caná. Este lema é explicitado, neste biénio da presença da Imagem Peregrina na Diocese, com outro, igualmente expressivo e mobilizador: peregrinar com Maria ao encontro de Cristo. Os meios de comunicação referiram repetidamente uma afirmação do Cardeal Bertone proferida na homilia, em Fátima, pela qual exortava os cristãos a não se calarem, e até mesmo a se rebelarem, face aos "pretensos senhores destes tempo (…) que exigem e estão prontos a comprar ou mesmo a impor o silêncio dos cristãos, invocando imperativos de uma sociedade aberta, fechando todas as entradas e saídas ao Transcendente, impondo como único valor comum, em nome de uma sociedade tolerante e respeitosa, a negação de todo e qualquer valor real e permanente válido… Quer comentar? O melhor comentário a esta afirmação foi feito pelo povo algarvio no sábado à noite, aqui em Faro. Assistimos, de facto, a algumas situações que deixam "o povo" perplexo… Ainda há dias alguém comentava comigo o seguinte: um membro do Governo visita um cemitério judaico e, por respeito com esse lugar e a religião judaica, acede a colocar o "kippá" na cabeça; vai outro visitar uma Mesquita e ei-lo a fazê-lo descalço por respeito e consideração pela fé desse povo; vai outro inaugurar uma obra recentemente concluída, em que é convidado o Bispo ou o pároco a proceder à sua bênção e não pode, nem sequer esboçar o sinal da cruz, ainda que seja baptizado e cristão. Este gesto, (os outros, pelos vistos, não) é totalmente proibitivo porque o Governo deve ser laico… Acredito que, em determinadas momentos, os intervenientes nestas situações hesitem sobre o melhor modo de agir, de modo a não ofender ninguém e a respeitar todos os credos… Todavia, estes factos referidos são reveladores, aos olhos do povo, de uma mentalidade anti-católica, que se pretende fomentar na sociedade portuguesa… A situação é mais grave quando, como refere o Cardeal Bertone, se pretende silenciar os cristãos e suprimir toda a ligação ao Transcendente… A manifestação de fé de sábado à noite, em Faro, constituiu seguramente uma forma espontânea dos cristãos algarvios contradizerem "esses pretensos senhores deste tempo". Ainda que possam sentir-se legitimados pelo voto do povo, perdem toda a legitimidade quando ao legislar, o fazem não tendo em conta a realidade concreta do povo que os elegeu, mas apenas as suas convicções pessoais e as suas mentes "pretensamente" iluminadas.