Segunda-feira 19 de Agosto de 2019
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“O meu conceito de caridade passou a ser outro”

FOLHA DO DOMINGO – Como é que tiveste conhecimento da iniciativa? Nelson Rodrigues – No final do ano lectivo passado, o reitor do Seminário de Évora pediu aos seminaristas para terem em atenção como iriam organizar as suas férias de Verão – embora nunca obrigue a nada, propõe sempre algumas coisas – e propôs que trabalhássemos no Santuário de Fátima ou então nesta actividade com pessoas portadoras de deficiência. Inicialmente não me inscrevi em nenhuma porque tinha programado várias coisas para o Verão, nomeadamente uma caminhada a pé ao Santuário de Compostela e também a colaboração na visita da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima à minha paróquia. Entretanto dei-me conta de que poderia ir a Santiago e chegar ainda a tempo de ir trabalhar uma semana. Então liguei ao reitor e ele inscreveu-me. Escreveste um artigo  – [ver artigo ‘A maior liberdade é aquela que se doa’ na secção ‘Opinião’] – para a revista da Silenciosos Operários da Cruz e afirmas que sempre tiveste alguma dificuldade em relacionar-te com pessoas que fossem portadoras de algum tipo de deficiência… Sim, já tinha sentido essas dificuldades quando o Seminário de Faro me propôs fazer voluntariado durante dois meses no Hospital de Faro em colaboração com o diácono Rogério, o capelão. Sempre que tinha de relacionar-me com pessoas que tivessem alguma limitação no corpo – um membro a menos ou alguma deformação – era algo com que eu não lidava muito bem e o meu acompanhamento espiritual com essas pessoa falhava um pouco porque estava mais concentrado em constatar que a pessoa não era tão perfeita, a nível físico, como eu. E isso sempre me fez alguma confusão. Apesar disso resolveste avançar para uma experiência deste tipo. Porquê? O meu maior interesse era acabar com esta limitação que tinha. Então vi que se me obrigasse a passar uma semana com este tipo de pessoas, a cuidar da sua higiene e a fazer todos os trabalhos com eles, rapidamente me iria habituar. Foi uma forma de me forçar, a mim mesmo, a ultrapassar este problema. Quiseste contrariar essa limitação… Foi esse o grande impulso que me fez avançar. Durante a semana o que é que fizeste concretamente? Éramos cerca de 25 voluntários, as voluntárias ficavam com mulheres e os voluntários com homens. Coube-me cuidar de dois irmãos adultos com 26 e 29 anos, o Pedro e o António, com deficiências físicas de 100 e 86% respectivamente, que vieram passar estas férias com a mãe que tinha sofrido um acidente e tinha o pé partido, não podendo ela própria vestir e tratar da higiene dos filhos. Então fui eu a tratar dessa parte. Durante a maior parte do dia, nas actividades promovidas pelo Santuário de Fátima para dar a conhecer a mensagem de Fátima, todos estavam com todos. Todos ajudávamos a qualquer um com a cadeira de rodas ou com a alimentação, mas de manhã e à noite cada voluntário ocupava-se apenas dos seus, tratando da sua higiene e mudando fraldas. No meu caso concreto, tive essa necessidade de mudar as fraldas aos dois jovens que estavam à minha responsabilidade pois eles estão dependentes, assim como ajudá-los no banho e a vestir. Todas as manhãs, pelas 7.15h, tratava da higiene e todas as noites ia deitá-los. Durante o dia ajudava-os na acessibilidade, alimentação ou levava-os à casa de banho. Muitas vezes também falei com a mãe sobre a maneira como ela aceita esta realidade na sua vida. A mãe quis ir de férias com os dois filhos? Sim, quis estar com eles. Acabou por gozar as suas férias, tal como nós, voluntários, que também estivemos de férias. Ela assim esteve mais descansada por estar com os filhos, talvez mesmo até por causa da medicação que eles tinham de tomar ou para indicar alguns alimentos que eles não podiam comer. Os trabalhos mais pesados esses não os podia fazer. Mas o objectivo dessa iniciativa não é proporcionar aos pais ou encarregados por essas pessoas alguns dias sem trabalho? O objectivo é proporcionar férias aos deficientes e também aos pais, só que há pais que entendem que gozam melhor as férias se as passarem com os filhos. Há outros pais, como os de filhos hiperactivos, que terão melhores férias se estiverem sem os filhos. Conseguiste perceber concretamente qual a deficiência que cada um deles tinha? Não. Percebi apenas que eram deficiências a nível físico e motor, pois todo o funcionamento muscular falhava. Mesmo que tivessem um raciocínio perfeito eles não conseguiam exprimir-se porque nenhum músculo funcionava. Dizes que o primeiro dia foi o que te custou mais. Como é que conseguiste superar essa primeira fase? Consegui superar pela amizade que eles me transmitiram. No primeiro dia, o seminarista que estava comigo, fazia as coisas principais e eu auxiliava-o. Ele mudava a fralda e eu ia apenas deitá-la fora ou despi os rapazes e eu apenas os ia sentar na sanita. Eu fazia apenas as tarefas mais fáceis, mas mesmo essas causava-me alguma impressão por causa dos cheiros ou, mais do que isso, por ver as deformações dos seus corpos sem que eles pudessem corresponder. Embora estivesse a sofrer com tudo aquilo, a mãe estava contente, tranquila e falava connosco como se não fosse nada. Mas para mim estava a ser algo de muito severo. Depois as coisas foram evoluindo, até porque eu fui evitando estar presente nas situações que mais me incomodavam, e fui-me tornando muito amigo destes dois irmãos. De manhã, por exemplo, o António, que consegue andar, estava à porta do quarto à minha espera e mal me via no corredor começava a gritar por mim todo contente. Estes pequenos gestos deles tiveram muito significado para mim. Foi formidável ter-me dado conta da amizade deles por mim, porque perceberam que, apesar da dificuldade que tinha em lidar com sua deficiência, havia um esforço da minha parte. Comecei a lidar melhor com as suas necessidades fisiológicas e até passei a conseguir comer com eles à mesa. Eu, que no primeiro dia, perdia o apetite com algumas situações, comecei até a enfrentar coisas piores. Esses dois irmãos são no dia-a-dia totalmente dependentes da mãe que vive em função deles? Sim, a mãe deixou de trabalhar quando teve o primeiro filho. Quer dizer que o teu objectivo ao participar nesta iniciativa foi alcançado? Totalmente. E se não fosse a imagem peregrina de Nossa Senhora ter chegado à minha paróquia, teria ficado lá uma segunda semana. Tenciono agora voltar todos os anos. Dizes que és a mesma pessoa, mas que saíste modificado desta experiência. O que é que notas de diferente em ti para além da questão de te relacionares agora melhor com pessoas portadoras de deficiência? O que mudou foi a minha maneira de pensar estas coisas. Agora vejo que um cristão deve evitar querer fazer muitas coisas pelos outros porque vai sempre fazer isso como um sacrifício. Penso que há uma grande vantagem em procurar fazer as coisas com os outros. Eu não participei nesta iniciativa para ter férias mas acabei por tê-las. O meu conceito de caridade passou a ser outro: caridade com os outros e não caridade pelos outros. Achas que mais importante do que fazer muitas com os outros é, simplesmente, estar com os outros? Sim. Agora faz-me confusão sempre que ouço a expressão fazer pelos outros, porque a ideia é a de que quem faz pelos outros está num grau superior, os outros são os necessitados e eu sou aquele que pode resolver. A amizade destas pessoas é uma amizade no estado puro? Sim, mais puro do que isto penso ser impossível. Penso que Jesus está ali mesmo a dizer-nos como é que é ser amigo. Estavas convencido de que irias ter uma semana de trabalho? Sim. Pensei que fosse dormir pouco e que ficaria com os portadores de deficiência no quarto, por isso senti-me muito mal quando entrei no quarto e vi quatro camas. Agora já seria capaz de dormir no mesmo quarto, mas naquela altura, quando alguns se afeiçoaram a outros voluntários não precisando eu de ficar com ninguém no quarto, fiquei muito aliviado. E o que mais fizeram com eles? Fomos aos Valinhos, à igreja da Santíssima Trindade, à Capelinha, à praia fluvial, participámos em arraiais de convívio todas as noites e as tardes eram sempre destinadas à expressão plástica. Tivemos também uma celebração penitencial que me chamou muito a atenção por pensar como é que uma pessoa que não consegue falar se consegue confessar. Por outro lado, alguns voluntários abordaram o sentido de se ir confessar aquelas pessoas se elas não têm pecados. Isso fez com que, há noite, a partilha entre os voluntários fosse sobre esse tema. O sacerdote explicou-nos, no entanto, que o facto de não admitir-nos que os portadores de deficiência têm pecados, é estarmos a considerá-los menores em relação aos restantes seres humanos, sendo eles totalmente iguais a nós. Não aceitarmos que eles têm pecados é negar a condição de liberdade que eles também têm. Obviamente que não pecam como nós e que têm outro tipo de pecados. A minha grande dificuldade – que um dia como padre espero compreender – é como é que se confessa uma pessoa que não fala. Como é que essas pessoas vivem a sua espiritualidade e a relação com o divino? Acho que, se calhar, é uma espiritualidade muito inocente, de criança e penso que não há a necessidade de evoluir muito, porque enquanto eles ficarem por ali mantêm um contacto muito grande com Deus. Falam com Ele e têm necessidade de rezar com Ele. Se formos para conceitos mais complexos podemos estragar toda a evolução que eles possam já ter feito. Mas isto depende muito, porque há portadores de deficiência cuja única limitação que têm é muscular, para se expressarem. Por muito que não consigam falar, a cabeça funciona na perfeição. Se tratarmos como criança uma pessoa que está numa cadeira de rodas e não se consegue expressar, ela vai sentir-se muito inferior, embora o consiga dizer. Apesar de viverem essa espiritualidade de forma infantil podem ser exemplo para os outros cristãos? Quando falo em espiritualidade infantil não ponho defeitos nisso. Se o conseguirem viver bem eles serão cristãos perfeitos. Um exemplo: havia uma rapariga que estava sempre a sufocar-me e um dos irmãos com quem estive, o António, começou a defender-me. A dada altura ela começou a abraçar o próprio António e ele deu-lhe uma grande chapada na cara. Eu disse-lhe que a atitude dele não tinha sido correcta e perguntei-lhe se ele percebia porque é que não poderia voltar a fazê-lo e ele apontou para a cruz sem dizer nada. Percebi então perfeitamente que ele tinha consciência da sua fé e da presença de Deus na sua vida. Deu-me a lição da simplicidade das coisas. De facto, a razão que faz com que não devamos optar pela violência é a cruz do Senhor: Ele já sofreu tudo por nós e nós não temos o direito de fazer os outros sofrer. O balanço que fazes da participação nessa semana é portanto bastante positivo… Sim e noto que não dei tudo o que podia dar. No próximo ano será diferente. Quero voltar a fazer a experiência, não para continuar a combater o problema que tinha, mas para ser cristão com os outros. Há ali cristãos que, para puderem vivenciar melhor a sua fé e para terem férias, precisam de ajuda e eu posso e gosto de o fazer. Então vamos ser cristãos juntos.

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