Num dos antros do tormento, descobriu um extenso cortejo de monges de capas e capuz branco de aparência brilhantes. Andavam todos com muita lentidão, como ao peso dum grande cuidado… Cheio de admiração, Dante, por ver naquele lugar de dor e tormento o símbolo da pureza, e desejando saber porque vestiam assim de branco estes condenados, interrogou um deles que lhe explicou todo este misterioso tormento: Os monges aparentemente brilhantes por fora, eram realmente forrados de chumbo pesadíssimo e esta era também a razão de caminharem assim tão lentamente. Este era o tormento dos hipócritas. De facto, não é a hipocrisia uma contradição íntima? Pois, lá dentro da consciência o hipócrita sente e vive uma coisa e por fora mostra ou pretende parecer outra. Foi isto mesmo que Cristo Jesus tantas vezes condenou nos escribas e fariseus, chegando até a compará-los a sepulcros branqueados por fora, mas cheios de podridão e miséria por dentro. Vivendo, pois, o hipócrita em perpétua desarmonia consigo mesmo, torna-se-lhe a Vida necessariamente um fardo pesado e difícil de suportar. Só quem é natural e verdadeiro é simples e ágil e vive com facilidade porque realiza o que pensa, é coerente consigo mesmo. Permanece enfim a exactidão deste símbolo do tormento dos hipócritas porque ser uma coisa e parecer outra é para o homem um peso interior e umas verdadeiras peias para o andar na Vida… Joaquim Mendes Marques