Recordo, quando em 1968, ano do nascimento do meu primeiro filho, o Etienne, foi motivo para na sua tão apreciada crónica semanal, “Os Pardais do Jardim Observam”, se lembrar do mártir Estêvão, no recém-nascido, no Maio de 68, nesses nomes afrancesados dos meninos portugueses. Em férias fomo-nos encontrando em tertúlias muito agradáveis, em alegrias saudáveis, em casa deste ou daquela, gente mais jovem, em quer o sacerdote, nessa acção pedagógica se ligava a apostólica, misturando-se assuntos de maior interesse para as situações particulares de cada um. Então, em Clementino encontrávamos o sacerdote e o amigo, sempre nesse franco sorriso de orelha a orelha… Neste número do 93.º aniversário do Jornal Diocesano, escolhi um texto dos imensos que escreveu, nas suas crónicas que ficaram conhecidas e admiradas, publicado em 20 de Outubro de l995,com o título dividido em duas partes. Vou ao segundo, “Ser ou não ser Algarvio”: Quando estou aqui… às vezes sou tomado de desespero por tanta burocracia e falta de cuidados. E sou frustração, marfação, refugos e lixo por todo o lado. É o registo de estrangeiros, é um Código de Estrada novo, atestado de residência para habitar numa casa nova, livretes, passaportes, bilhetes de identidade, é a Sisa, é a Caixa, a GNR sempre à perna. Constantemente procuro cumprir as exigências da Lei. É uma aventura conduzir na 125.Não chove e a água não vem. Álcool em excesso, bodas lautas e sol abrasador. Às vezes pela calada da noite, tiros rompem o silêncio. Poeira e vento, moscas e mosquitos. O fumo das florestas a arder tapa o azul da abóboda celeste. Mas quando não estou aqui, sinto o aroma da flor da amendoeira, do fumo do pinheiro e outras espécies. Tenho no paladar o gosto do mel de Monchique, lembras-me o vinho e a vinha. Nos ouvidos soa suavemente o som melancólico, escutado ao entardecer, dos chocalhos dos mansos bois e a voz do boeiro: Eh! Malhado! Às pétalas das mimosas brandamente caem. Ouço o linguajar apressado de desvairadas gentes, pelas ruas da cidade, a voz triste do fado na boca das cantadeiras, o som sonante dos carros de mulas agudos ao ouvido. Há frangos assados, peixe assado e castanhas também, cataplanas e figos maduros. Laranjas, limões; ventos que sopram dos lados de Marrocos, pássaros aos milhares de milhares e o bater leve de suas asas. Especiarias de África trazidas pela brisa refrescante, o cheiro da maresia que vem do Atlântico. Eucaliptos odoríferos, piri, piri e o som estridente das cigarras. Já não posso mais regressar já ao Algarve!… Isto que leram, um poema no original inglês, veio publicado em The News – Portugal’s National Newspaper in Enghsh – Algarve Edition. Um poema de Sylvia Bensen. Este jornal teve, durante algum tempo, impressão na Tipografia União. Clementino, um devoto franciscano.., como genuíno algarvio. Homem de fortes sensibilidades! Teve “Os Pardais do Jardim Observam”, no jornal que colaborou e dirigiu; a cumplicidade de figura eclesiástica, naturalmente, com a dum Homem culto. Era um latinista de mão cheia.., e, naturalmente, de forte profundidade cristã. Fui acompanhando, no final do seu viver, todo esse desapego ao material: vida simples, viveu-a nos seus aposentos no Seminário que se compunham num quarto de toda a simplicidade despido de todos os atavios. E uma saleta ao lado, onde mantinha a sua “fortuna”, os livros, onde nessa já, minguada visão, os acariciava na sua predilecção. Fui seu “herdeiro”. Depois do seu falecimento. Uma Senhora dos serviços administrativos da Tipografia União, telefonou-me, que me dirigisse à redacção. Fui. Nas minhas mãos foi-me depositado um exemplar do livro que o Cónego Clementino publicara em 1957, com a dedicatória da sua Amizade. Encontrado: ao “destinatário”. Deixara tudo em ordem, para que a amizade e admiração se perdurassem. O seu livro “O Algarve na Poesia de Emiliano da Costa”, conservo-o na minha predilecção, ao lado das “Memórias de Adriano”, que Marguerite Yourcenar mo fizera; assim como “A Rosairinha” que Emiliano da Costa me dedicara; Maria de Olhão (Maria Odete Leonardo da Fonseca), nessa gratidão de grande Mulher algarvia, me enviou, sem me conhecer, a biografia doutra figura feminina, cristã exemplar, “Lutgarda Guimarães de Caires”; e em Paris… Pablo Neruda me entregara, numa bondade extrema, as suas “Odas Elementales”. Como os poderei separar, nas suas diversidades exemplares… Este Memorium em homenagem a um dos directores da “Folha do Domingo” justifica-se, nem que o fosse pelas crónicas lembradas de “Os Pardais do Jardim Observam”. Mas, e sobretudo, pelo Homem que admirei na sua sinceridade; exemplo de grande moralidade e sem limitações de qualquer natureza…