O presbítero historiador explica que este trabalho agora divulgado “é o resultado de investigação de vários anos”, desde que chegou ao Algarve em Outubro de 1994. Tendo recorrido à documentação guardada na Torre do Tombo, em Lisboa, no Arquivo Distrital de Faro, e no Arquivo da Diocese do Algarve –, este último onde encontrou “muita coisa que só a diocese tem” –, o investigador assegura que foi no Algarve que a Igreja portuguesa “sofreu mais”. “Havia um ambiente de revolta em várias freguesias, o que mostra o nível cultural e religioso. Noutra terra teria sido impossível fazer o que aqui se fez, mas as pessoas do Algarve deixaram fazer e ninguém se manifestou ou impôs”, constata, justificando que “o Cristianismo era vivido de forma muito superficial e os cristãos foram manipulados”. O sacerdote testemunha ainda que “uma parte do património foi destruída e outra parte saqueada ou roubada”. “A Biblioteca Municipal de Faro tem livros que foram roubados, sendo que outros volumes estão ainda no Seminário”, exemplifica, acrescentando que “muita coisa esteve hasta pública e foi vendida ao desbarato”. “Houve algumas pessoas que compraram coisas e devolveram à Igreja”, relata, considerando que as situações mais graves tiveram lugar em Lagoa, Lagos e Tavira. “Muitos padres foram presos e alvo de revoltas, vendo as suas casas incendiadas, saqueadas e as igrejas usurpadas”, complementa. Nesta primeira colaboração com o periódico diocesano [que pode ser lida na secção ‘Opinião’ deste portal], o historiador relata a influência dos “focos republicanos e maçónicos” nos “desacatos frequentes”, assim como o do domínio de grupos republicanos sobre alguma imprensa regional que “acusava a Igreja de estar aliada à monarquia”. O Bispo do Algarve da altura, D. António Barbosa Leão, embora monárquico constitucionalista, “manteve sempre o distanciamento na luta partidária e, por diversas vezes, ordenou aos sacerdotes para não se imiscuírem na política”, afirma o padre Afonso Cunha, assegurando que “a Igreja era rotulada na imprensa e pelos políticos como «jesuítica», «inquisitorial», «ultramontanista» e «miguelista»”. O sacerdote relata ainda que a abertura do Seminário, no ano lectivo de 1910, foi perturbada e que a Diocese do Algarve chegou mesmo perder o seu Seminário. O padre Afonso Cunha explica ainda que, apesar da intromissão directa do Estado de então no contexto eclesial, “o Bispo não se calou”, “mas pagou amargamente a sua frontalidade”. “Foi obrigado a exilar-se em nome da I República”, recorda o historiador com diversos trabalhos realizados em prol da cultura algarvia, a que tem legado importantes contributos nas mais diversas áreas.