Pelos vistos, não se importam que essa nova vida humana, pequenina, inocente e indefesa seja definitivamente interrompida, seja aniquilada, eliminada e aliás, diga-se, eliminada com dor e sofrimento, porque o nascituro sente e sofre com as raspagens e com os outros maus tratos que lhe infligem para que ele morra e deixe de existir. Essas pessoas e esses agrupamentos, estão preocupados, não a com a morte do nascituro, mas com o facto de a mãe e não sei se também outras pessoas, como por exemplo o pai que muitas vezes (quase sempre) paga, instiga e até obriga a mãe a abortar ou as abortadeiras que lucram com essa actividade criminosa, serem levadas a Tribunal para prestarem contas à Comunidade pela prática de um acto tão abominável e lamentável como é tirar a vida a uma criança. A essas pessoas e agrupamentos que alegadamente querem «acabar com a humilhação» permito-me recordar que não há maior humilhação do que a morte. Sim, a morte é a maior humilhação a que está sujeito um ser humano, por isso a sabedoria antiga refere-se à morte, como «os ossos humilhados». Não será por mal, mas o problema de análise destas pessoas radica, como muito bem obeservou Nuno Rogeiro, na dificuldade que elas possam ter em percepcionar a existência de realidades visíveis e invisíveis: Defendem o aborto «independentemente da questão fundamental invisível da “vida” (escondida no seio materno) e , valorizam a questão acessória visível, a da “humilhação”. Ora esta questão da “humilhação” é uma falsa questão, que a pretendida liberalização do aborto, a pedido da mulher, até às dez semanas de gestação, não irá resolver, como é fácil de perceber: Se a mulher tiver abortado às dez semanas e um dia, ou às onze ou doze semanas, já para não falar em fases mais adiantadas da gravidez, essa mulher, mesmo com a alteração legislativa que agora se propõe, sempre terá que ser sujeita à dita “humilhação” da justiça penal. E aí sim, será de questionar, porque é que até às dez semanas a mulher que aborta é poupada da “humilhação” do julgamento e a que abortar às dez semanas e um dia, ou às onze semanas é submetida à humilhação de ser constítuida arguida e levada a julgamento. Ir a julgamento, ser constituído arguido, sentar-se no banco dos réus, é sempre uma humilhação, mesmo quando se está inocente. Nos últimos dias de 2006 Portugal viu uma mulher de Monção ser apresentada à justiça penal, constítuida arguida e ficar em prisão preventiva, por alegadamente ter morto a sua filha Sara, de dois anos. Foi uma humilhação para a mãe da Sara. Mas maior humilhação foi para a própria Sara, que morreu e sofreu maus tratos antes de morrer. Ninguém ousou levantar a voz para dizer que a mãe da Sara não deveria passar pela humilhação do Tribunal, pelo contrário, muitas pessoas se concentraram à porta do Tribunal a exigir justiça e a ameçar “fazer justiça” pelas próprias mãos. É certo que a Sara, de dois anos, já tinha personalidade jurídica, coisa que não tem ainda o nascituro. Porém, a aquisição da personalidade jurídica é uma mera ficção jurídica, que uns países concedem à pessoa humana a partir do corte do cordão umbílical, como é o caso português, ou apenas passadas vinte quatro horas do nascimento, como é o caso de outros países, ou passados ainda mais dias, dependendo das ordens jurídicas. Não é, não pode ser uma tal ficção meramente jurídica a fazer a diferença entre as pessoas e a conceder ou reconhecer direitos, especialmente o direito à vida. A menina Sara de Monção, nos seus dois aninhos de vida, era uma pessoa humana que nunca deveria ter sido humilhada pelos maus tratos que alegadamente lhe foram inflingidos pela sua mãe, que nunca deveria ter sido sujeita à humilhação da morte prematura e violenta, tal como o nascituro que vive ainda no seio materno uma vida humana intra-uterina, também não deverá ser jamais sujeito aos maus tratos dos bisturís cirúrgicos e das raspagens que o visam simplesmente eliminar, isto é matar. Ambos são pessoas humanas, com igual direito de viver. A única diferença que leva algumas pessoas a aceitarem e até a exigirem que a mãe da Sara seja submetida à humilhação da justiça e ao mesmo tempo a não quererem que as mães dos nascituros passem pelo mesmo processo, é que a infeliz Sara era uma pessoa visível enquanto que os infelizes nascituros abortados são pessoas, ainda, invisíveis.