Segunda-feira 14 de Outubro de 2019
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Pároco de Algoz, Tunes e Guia quer leigos actualizados ao Vaticano II

O padre Manuel Condeço, pároco simultaneamente das paróquias de Algoz (incluindo a comunidade de Tunes que lhe pertence) e da Guia, da análise que faz das três realidades, conclui que “falta muita coisa”, não no sentido material, por exemplo de infraestruturas, mas refere-se o sacerdote à dimensão espiritual. “É necessário criar estruturas para haver caminhada na fé e chegar a construir comunidades no sentido verdadeiro do termo. Aí é que falta fazer muito, porque as pessoas acomodaram-se, não entendendo a responsabilidade dos leigos na missão, evangelização e na estruturação das comunidades”, considera o sacerdote, convencido de que é necessário implementar ali uma “pastoral renovada, com mais juventude”. Para o padre Manuel Condeço, essa tarefa passa pela atribuição daquelas comunidades aos cuidados de um pároco novo jovem, “com mais entusiasmo e novas técnicas, novas práticas e novas maneiras de chegar à juventude”, mas também pela actualização ao Concílio Vaticano II. O sacerdote, que considera que “um padre idoso precisa de uma dedicação, doação e compreensão muito maior que um padre novo para manter as comunidades activas”, garante que “os leigos têm muita dificuldade em assumir responsabilidades” e “querem que seja o padre a fazer tudo e a mobilizar”. “Ora isto representa uma mentalidade de uma estrutura de Igreja anterior ao Concílio Vaticano II”, conclui o pároco, assegurando que tem tentado inverter esta situação através da sensibilização na catequese de adultos, formação que tem de ser ele próprio a realizar, porque não há membros nas três comunidades que para isso se disponham. No entanto, constata o padre Manuel Condeço, “a catequese de adultos é frequentada apenas por aqueles que já colaboram”. Os restantes, verifica o sacerdote, “querem apenas serviços: a Eucaristia à hora que lhes agrada, o Baptismo dos filhos quando lhes convém, o casamento pela Igreja como entendem”. Juntamente com estas características, o pároco considera ainda as comunidades “muito bairristas”, o que o leva a classificar as duas paróquias como o “terreno mais difícil de trabalhar” que já conheceu. O sacerdote afirma mesmo que “as três comunidades querem as mesmas oportunidades, embora as estruturas e caminhadas não sejam iguais” e o tempo que lhes destina seja diferente. “A Guia exige muito mais trabalho, até porque estava habituada a um acompanhamento contínuo”, complementa, justificando: “tenho de dedicar o meu tempo de acordo com as necessidades que sinto mais prementes”. Para o padre Manuel Condeço, uma consequência negativa desta característica pode “levar a comunidade que se sente injustiçada a pensar que o sacerdote está menos interessado no seu trabalho pastoral”. Reconhecendo que, aquando da sua vinda para a Guia, houve uma certa perda de boa vontade para colaborar na paróquia, por parte de algumas pessoas, o padre Manuel Condeço explica que essa atitude foi motivada por um “sonho” que se esvaiu. “O ideal de a Guia fazer do Centro Paroquial um centro social de convívio não se concretizou devido à revisão da Concordata que tornou essa aspiração inviável, pois seria necessário ter contabilidade organizada e estar sujeito a impostos”, esclarece, garantindo que “actualmente as coisas já estão a mudar”. “A Guia está a redescobrir uma nova fase com a tentativa de construção de um grupo de oração”, considera o prior, explicando que “outro problema da comunidade é haver um pouco de rivalidade entre as pessoas”. “Há pessoas que não aceitam que as determinações sejam diferentes da maneira como elas próprias pensam”, afirma. O sacerdote considera-se “exigente”, afirmando que gosta das “coisas rectas” e não “sacramentalista”, do tipo que administra sacramentos com facilidade. Reconhecendo que, “muitas vezes, as pessoas querem facilidades”, o padre Manuel Coelho constata que “as pessoas fogem para paróquias vizinhas, porque não lhes é exigida tanta preparação”. No entanto, adverte que não será essa realidade que o fará mudar. “Acho que temos de construir comunidades a sério”, complementa. Pároco quer sector sócio-caritativo a dar “resposta imediata” à pobreza Mostrando-se consciente na condição real das comunidades paroquiais a que preside, o padre Manuel Condeço afirma que, de entre as dimensões litúrgica, profética e sócio-caritativa, esta última é aquela que “está em pior situação”, pois está em causa a capacidade de resposta das paróquias. “Tunes tem bolsas de pobreza com ciganos e imigrantes do Leste, tal como o Algoz e a Guia também têm problemas a esse nível”, refere o sacerdote, salientando particularmente o caso de Algoz, o­nde “esses focos estão identificados e catalogados”, faltando uma “capacidade de resposta imediata”, pois “a resposta que existe é mensal, apesar de garantir a ajuda a bastantes famílias com apoio proveniente da Caritas Diocesana e do Estado, através da Associação Cultural e Social de Algoz”. O prior refere ainda que o caso da Guia é mais complicado. “Há focos de pobreza, alguns identificados, mas não temos resposta, porque não há ninguém no sector sócio-caritativo”, afirma, lembrando que, quando chegou à paróquia, “se havia agentes eles acabaram por se demitir desse trabalho” e presentemente “há pessoas que ajudam apenas esporadicamente”. O pároco espera ainda que a visita pastoral do Bispo diocesano contribua para que as paróquias se comprometam mais neste sector da pastoral. Pe. Condeço, um missionário em missão no Algarve O padre Manuel Condeço, com 65 anos, é natural do concelho de Viseu, o­nde frequentou o ensino primário. Após esta formação inicial foi para perto do pai, imigrante em Angola, tendo entrado ali para o Seminário com 12 anos. Formou-se na diocese de Nova Lisboa (actual Huambo), foi ordenado sacerdote por D. Daniel Junqueira, na paróquia de São Pedro de Nova Lisboa, em 1967. Professor em Angola leccionou no Seminário e na escola do ensino oficial e foi pároco de Vila Flor. Viveu de perto todo o período do fim da colonização e com a conjuntura sócio-política a complicar-se em Angola, volta de férias a Portugal e recebe a indicação que não regressasse, pois “não havia condições”, sugerindo-lhe que se disponibilizasse para o serviço na sua diocese de origem. Ao fim de 23 anos em África regressa definitivamente a Portugal, mas o então Bispo de Viseu, alegando que o padre Manuel Condeço não está definitivamente colocado naquela diocese mantém-no durante 13 anos numa situação de indefinição, sem efectivar a sua incardinação. Completou os estudos em história na Universidade de Coimbra que tinha iniciado em Angola. Leccionou também filosofia no Seminário de Viseu e acumulou com aulas de Português em Vouzela. Insatisfeito com indefinição da sua situação pediu autorização aos Bispos das duas dioceses e ingressou na carreira docente. Estagiou nos Açores e regressou a Vouzela o­nde esteve até vir para o Algarve. Ao fim de 13 anos na diocese de Viseu solicitou ao Bispo local uma definição da sua situação, mas sem sucesso, pois o Prelado não assumiu a responsabilidade da sua incardinação. Disponível para encontrar uma diocese que o quisesse encardinar, o padre Manuel Condeço veio para o Algarve o­nde já tinha trabalhado pontualmente com o padre José Águas, precisamente no mesmo ano da entrada de D. Manuel Madureira Dias na diocese que tratou da sua incardinação. Colaborou nos primeiro tempos com o padre José Águas e foi professor até 2001. Esteve no primeiro ano a trabalhar no bairro da Pedra Mourinha, de que mais tarde viria a ser pároco. Da Matriz de Portimão passou por Ferragudo, Lagoa, Aljezur, Odeceixe, Pêra e, antes de vir para Algoz e Guia, esteve no Vicariato da Pedra Mourinha, em Portimão. Francisco Brás – Membro do Conselho Pastoral Paroquial de Algoz “A paróquia ‘bateu no fundo’, mas actualmente estamos a levantarmo-nos um pouco, até porque temos um pároco que tem uma capacidade interessante de diálogo que consegue exprimir algo de novo em relação àquilo que se vinha dando às pessoas. É uma visão nova do Evangelho”. Maria da Graça Brás – Membro do Conselho Pastoral Paroquial de Algoz “O pároco é um bom teólogo e uma pessoa disponível, mas também espera que nós, leigos, tenhamos iniciativa para colaborar com ele. Há um isolamento entre os diversos grupos e ainda é muito difícil fazer com que não funcionem cada um por si. Internamente funcionam muito bem, mas quando lhe é pedido que se entreguem mais ao serviço comunitário não há disponibilidade. Há uma tendência para um certo protagonismo nos nossos grupos e ainda não conseguimos comprender que a nossa missão é serviço”. Sérgio Silveira – Acólito e Animador de Jovens da Guia “União é o que falta na paróquia da Guia. Não há o sentido de comunidade e por vezes torna-se fechada e pouco aberta e acolhedora para quem vem de fora. Existem resistências a ideias novas. Por vezes as pessoas estão à espera que seja o pároco a tomar a iniciativa de fazer as actividades. No entanto, existem algumas pessoas que ainda vão fazendo as coisas. Há crescimento. Um pouco lento, mas há. O pároco, embora não estando cá sempre, dá muito apoio”. Patrícia Ramos – Membro do Grupo Coral da Guia “Na paróquia falta mais dinamismo por parte da comunidade que muitas vezes não corresponde àquilo que nós organizamos. O trabalho do pároco tem sido produtivo e inovador e trouxe as novas tecnologias ao serviço da Igreja e acho que o seu trabalho é positivo”.

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