A cerimónia de bênção e inauguração da obra, cuja denominação pretende homenagear o Bispo Emérito do Algarve, – responsável pelo envio, em 1990, do casal de leigos mandatados Albino e Cláudia Martins, impulsionadores do Centro Paroquial de Cachopo e colaboradores directos dos párocos que por aquela paróquia têm passado –, teve início com a celebração da bênção, presidida pelo Bispo do Algarve, D. Manuel Quintas, seguindo-se a leitura de alguns versos dedicados a D. Manuel Madureira Dias, o descerramento da lápide de inauguração e a visita à obra. Pouco depois decorreu no salão polivalente a sessão solene com um visionamento de um vídeo sobre o trabalho desenvolvido pela instituição, a assinatura do acordo de cooperação entre a Segurança Social e o Centro Paroquial de Cachopo e os discursos das entidades presentes. A cerimónia ficaria marcada pela intervenção de Albino Martins que começou por testemunhar “um longo percurso” de 11 anos com “a sensação de que o processo não tinha fim”, prestando homenagem “aos que não resistiram por motivos de idade e precária saúde”. “Tantos irmãos nossos sonharam ser recebidos nesta casa para receberem apoio social. Sobretudo o medo da noite (por se encontrarem sós), ou se encontrarem acamados, com fraldas e alguns com feridas e ficarem entregues a si próprios ao domingo (dia em que a instituição não presta apoio nas actuais valências). Tentámos encontrar soluções alternativas, voluntariado, mas não o suficiente para uma melhor qualidade de vida desses irmãos nossos, a quem hoje peço perdão, pela incapacidade que tivemos”, reconheceu Albino Martins. Prestou ainda homenagem aos 27 funcionários da instituição “pelas precárias condições do actual Centro, exíguo nos espaços, para quem presta apoio a 31 idosos em Centro de Dia, 56 em Apoio Domiciliário e 20 no Centro de Convívio da Feiteira” e justificou a decisão de homenagear o Bispo Emérito do Algarve com a designação do novo complexo social. “Retribuímos assim, a luta inicial que juntos travámos para que Cachopo, tivesse um lar digno”, afirmou. Revelando o conteúdo de uma carta enviada ao casal pelo Bispo Emérito por ocasião da sua saída da diocese algarvia, evidenciou a motivação que animou a construção da obra. “É preciso manter, plenos de vida e pujantes de virtude, os valores desses homens e mulheres de mãos calejadas, que passaram a vida no trabalho duro do campo, sem ajudas da civilização e o conforto oferecido pela evolução do progresso social e económico. Neles se encontra o verdadeiro rosto do homem algarvio”, referia D. Manuel Madureira Dias. Albino Martins agradeceu igualmente “o estímulo e apoio”, “o carinho e sensibilidade pastoral”, “a preocupação e o incentivo” de D. Manuel Neto Quintas e garantiu que aquela “não é uma estrutura à parte da paróquia”, mas antes “dirigida por pessoas com sensibilidade social e dinamismo eclesial”. “Não nos permitiremos que a organização mate o espírito, que a estrutura reduza as pessoas a números, que o funcionalismo desumanize os serviços, que a falta de competência profissional, humana e cristã, de funcionários e voluntários, o desclassifique na qualidade dos serviços que presta e na missão evangelizadora que possui”, prometeu, lembrando que “a caridade aparece nos Evangelhos como o sinal distintivo dos cristãos”. “Sabemos que a sua vivência é obrigatória e nunca a Igreja pode renunciar a este testemunho a partir da vida das pessoas e desta instituição. O Cristianismo ultrapassa o âmbito do templo e deve chegar ao quotidiano da humanidade”, acrescentou. Lembrando as palavras de um octogenário que referia que “o sol da tardinha é tão maravilhoso como o da manhã”, frisou que “os idosos têm o direito de ser felizes no entardecer da vida, pois foram, ao longo dela, servidores da comunidade”. Albino Martins manifestou por fim a finalidade que orienta o serviço da instituição. “Se por necessidade, forem acolhidos em centros de dia ou lares, não sejam estas instituições, simples dormitórios, mas sim respostas sociais onde funcione uma verdadeira terapia ocupacional”, defendeu, deixando um apelo aos familiares dos utentes. “Visitem os seus idosos com frequência e nunca apressados. As suas manifestações de afecto e carinho, são muito importantes. Desta forma conseguirão dar vida, ânimo e tornar felizes os que, com larga conta de anos, merecem viver os últimos, com dignidade, serenidade e coragem”, concluiu. O padre Flávio Martins, actual pároco de Cachopo comparou a história daquele complexo à do povo de Israel a caminho do deserto e Jorge Botelho, director do Centro Distrital de Faro do Instituto de Segurança Social, sublinhou que “apesar dos contratempos a obra fez-se porque um conjunto de entidades e pessoas acreditaram no projecto e deram o melhor de si”. Macário Correia, presidente da Câmara de Tavira, criticou o abandono do interior por parte do poder central, lamentando que a população de Cachopo tenha passado em 50 anos de 3500 para menos de 1000 habitantes. “O desafio é o de pôr este lar a funcionar e bem, mas é também o desafio de criar oportunidades para que no futuro os jovens não abandonem esta serra”, afirmou, apelando a que os utentes da nova obra “tenham alguma felicidade no Outono da vida”. O Bispo Emérito, surpreendido por ter dado nome ao novo complexo, até porque garantiu não ter concordado com essa designação, alertou para o perigo de se considerar finalizado o processo. “Percorremos uma etapa mas não atingimos a meta. Há necessidades novas que é preciso assistir”, afirmou, considerando que aquele lar “é o lugar da convergência dos caminhos todos que para aqui se dirigem” e que “é preciso não esquecer a interioridade”. D. Manuel Neto Quintas recordou que “quem vive na serra tem a mesma dignidade dos que vivem no litoral” e também lançou o olhar para o futuro, garantindo que as futuras atenções relacionadas com o complexo devem concentrar-se agora no trabalho com as pessoas. “Essa conjugação de esforços tem de ser maior porque se trata de ajudar pessoas”, complementou. A terminar, alertou que “nem toda a solidariedade é fraterna”. “Que esta obra seja uma instituição de fraternidade”, pediu. A cerimónia teve continuidade com a actuação do Rancho Etnográfico de Cachopo, com o descerramento do Mural da Solidariedade (em memória dos apoios conseguidos) e com o jantar-convívio. Com 20 quartos, distribuídos por duas alas com o nome dos dois párocos mais emblemáticos de Cachopo – Júlio de Oliveira e Roger Pille – o complexo dispõe ainda de sala de fisioterapia, gabinete médico, gabinete de enfermagem, cabeleireiro e quinta pedagógica onde os idosos que queiram poderão trabalhar. A obra, que só começará a receber utentes a partir de Outubro, custou cerca de 1,5 milhão de euros, sendo comparticipada pela Segurança Social (através do PIDACC) em cerca de 790 mil euros e em cerca de 750 mil euros pela Câmara de Tavira que ofereceu também o projecto de arquitectura. A Junta de Freguesia local doou o terreno e garantiu algum apoio financeiro pontual. Mais fotos, brevemente na Galeria de Imagens