A Procissão das Tochas, como ficou conhecida, é a mais antiga em São Brás de Alportel, paróquia da vigararia de Loulé, no Algarve, que foi a maior freguesia rural do país no princípio do século XX, facto que ditou mais tarde a sua religiosidade e a manutenção da tradicional procissão. Contava então com cerca de 13 mil habitantes. Foi também o grande centro católico do Algarve. No séc. XIX, “praticamente todas as aldeias organizavam esta procissão da Ressurreição”, onde as pessoas levavam nas mãos uma vela que na linguagem antiga “era designada por tocha”, conta à Agência Ecclesia o pároco José da Cunha Duarte. Também conhecida como a Procissão das três Marias (em alusão às mulheres que se deslocaram ao túmulo de Jesus na manhã da Ressurreição), as confrarias, responsáveis pela organização, eram então obrigadas a levar uma tocha acesa ou luminária e as opas vestidas. Posteriormente, a falta de cera levou ao aparecimento de paus pintados e ornamentados com flores, no cimo do qual se colocava uma pequena vela. Mais tarde, com o desaparecimento das confrarias, permanecem na procissão os paus enfeitados, as lanternas e as velas acesas ao lado do pálio e as opas, que ainda hoje são trajadas pelos homens que transportam o pálio. Ao longo da procissão, cantavam-se hinos, responsos e o Aleluia, em honra da Ressurreição do Senhor. Antigamente havia também um ou dois coros a cantar e o povo respondia, mas com o passar do tempo, a falta de clero e de cantores, levou a que o canto ficasse na boca do povo. Com a implantação da República esta situação que era comum em todas as paróquias alterou-se, pois as manifestações públicas foram proibidas. A tradição das procissões esmoreceu. A título de exemplo, o padre José da Cunha Duarte, relembra que em Lagos a primeira procissão apenas voltou em 1941. Com a República “praticamente todas a confrarias foram extintas”, os homens já não queriam participar nestas manifestações, tornando-se “tudo mais laico”. Com a ida do padre José da Cunha Duarte para a paróquia, em 1981, esta tradição nunca mais cessou. “O Bispo de então pediu-me para restaurar a tradição” e todos os anos se organiza a Procissão das Tochas “em todo o seu esplendor”, garante o pároco. A festa religiosa, que leva mais de seis mil devotos a São Brás de Alportel, tem início pela manhã de Domingo, com a celebração da Eucaristia na Igreja Matriz, local de onde parte a Procissão do Aleluia, uma hora depois. De acordo com a tradição, as tochas são levadas apenas por homens, vestidos a rigor, cabendo-lhes a tarefa de abrir o caminho entre o mar de gente, as varandas engalanadas e as colchas estendidas nas janelas. Antigamente o aparato nas ruas era maior. As casas mais humildes apareciam enfeitadas com grinaldas de flores, enquanto as famílias com mais posses mandavam erguer grandes arcos de verdura, flores e fitas coloridas. A procissão saía após as laudes, com os sinos a repicarem e o coro cantava “O Senhor ressuscitou no sepulcro. Aleluia, aleluia, aleluia!” Quando a procissão retornava à igreja, para nova celebração da missa, os homens retiram as flores das tochas e espalham pelo chão onde o andor vai passar, “acto que já não se realiza”. Ao longo da procissão formam-se grupos de amigos que pelo caminho vão cantando “Aleluia, aleluia!”, num percurso que se estende, “porque embora seja pequeno as pessoas vão parando à medida que se canta, por isso tem de haver sempre quem vá na frente a puxar o cortejo”, conta o pároco. Com a tradição restaurada tem-se ganho também “em respeito. Todos colaboram e os homens vão todos à frente, as mulheres seguem a trás, todos a cantar na procissão”, conta o padre José da Cunha Duarte. Com o objectivo de valorizar este acto público, juntaram durante o percurso crianças, que vão encenando quadros bíblicos. O tapete de flores que se estende “por quase dois quilómetros” dá um cariz particular a esta tradição. Para construir esta obra de arte, são precisas 3 toneladas de flores, num trabalho que resulta de uma centena de voluntários. Com uma semana de antecedência se começam a preparar as flores. Pede-se às estufas que colaborem, “misturamos as cores com a verdura”, conta o pároco e lançam-se ao trabalho na sexta e no sábado. Tem havido, nos últimos anos, uma preocupação de ressurgir a tradição, que manda atapetar as ruas com alecrim, rosmaninho, alfazema e flores silvestres. A festa prolonga-se pela tarde e noite dentro, seguindo-se um cariz mais profano das celebrações, com a atribuição de prémios aos vencedores das tochas floridas. “Com isto pretendemos valorizar as tochas, o empenho das pessoas e premiar a criatividade para que nos próximos anos estas iniciativas continuem”, explica o pároco. Para que a festa não se limite à parte religiosa e porque em São Brás de Alportel se vive a festa da Páscoa como a festa do concelho e da família, “todos os são-brasenses, mesmos os que vivem fora, regressam por estes dias à terra para festejar esta data em família”. Assim de tarde, depois do almoço, todos se juntam para ouvir artistas, ranchos folclóricos, “numa grande festa cultural”. A par da música, os doces regionais como o folar e as amêndoas tenras são habituais. O grande dia de toda a celebração da Semana Santa é de facto “o dia de Domingo, quando todas as famílias se reúnem e se concentram”, finaliza o pároco.