Considerando que perceber as mediações entre Deus e o Homem “é perceber as diferenças entre as tradições religiosas”, o docente da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa apontou a sua importância na universalidade do Cristianismo. A propósito, começou por lembrar que a mediação dos povos (primitivos) que não têm tradição escrita é quase sempre restringida a “elementos do cosmos”: elementos do céu ou da terra ou animais. “Israel, em relação a essas tradições religiosas, dá um passo enormíssimo passo em frente, porque a mediação para Israel não são essas coisas, mas a História do seu povo”, recordou Juan Ambrosio, frisando que, no caso do Cristianismo, a mediação é “a Pessoa concreta de Jesus Cristo”. “Se o salto de Israel já era grande, este é um salto abissal”, considerou, sublinhando a importância deste facto na universalidade cristã. “É que a História de um povo «amarra» essa experiência à História do povo e, por isso, o Judaísmo só pode ser vivido com uma determinada cultura e até tem uma língua oficial”, observou, lembrando que “as grandes tradições religiosas têm todas elas, à excepção de uma, uma cultura específica e até uma língua específica”. “Para viver essa tradição religiosa eu tenho de assumir essa cultura específica e essa língua específica”, acrescentou, apontando os casos do Judaísmo que “implica a cultura judaica e o hebreu”, em que “embora muitos judeus não saibam hebraico, aprendem os textos sagrados em hebraico e rezam as orações em hebraico” e do Islamismo que “implica uma cultura e uma língua”, esta hoje ainda mais evidente: o árabe. Neste contexto, o teólogo constatou que “o Cristianismo não tem uma língua oficial”, nem mesmo o latim. “Realiza-se na realidade de cada pessoa humana e não ficou amarrado a uma língua, nem a uma cultura”, justificou, elucidando que “a mediação no Cristianismo é a pessoa humana, mas a pessoa humana em comunidade”. Juan Ambrosio considerou assim que “uma das primeiras grandes genialidades” de Paulo foi ter sido “o primeiro a consciencializar-se perfeitamente”, ainda que, num primeiro momento, por antagonia, “que não é possível subsistirem ao mesmo tempo a lei [judaica] e o Messias”, muito embora Paulo tenha permitido, “por uma questão prática”, que estes dois elementos tenham persistido durante bastante tempo nas primeiras comunidades. Clarificando o contexto da segunda ida de São Paulo a Jerusalém, que classificou de “momento decisivo para a História do Cristianismo”, o teólogo lembrou que “havia tensões entre as duas sensibilidades cristãs: judia e gentia”. À ala mais radical da comunidade de Jerusalém, os chamados cristãos judaizantes, a defender que a via para chegar a Jesus era o Judaísmo, “Paulo mostra que é possível viver-se a sério o Cristianismo sem se ser judeu e mostra que a missão dos gentios é possível, legítima e necessária”, referiu Juan Ambrosio, mostrando que “o que estava a jogar-se era: ou «amarrava-se» o Cristianismo à cultura judaica ou permitia-se que ele fosse por outro caminho”. “Se o resultado disto não tivesse sido o que foi garanto-vos que hoje seríamos judeo-cristãos”, defendeu. O conferencista mostrou que “quando Paulo, que sendo fariseu [judeu muito cumpridor da lei], dedicou toda a vida à lei, percebe que o que salva não é a lei, mas Jesus Cristo, dedica-se totalmente a Jesus Cristo e deixa de se identificar com a ala judaizante do Cristianismo”. Após o rompimento com Antioquia, observou Ambrosio, Paulo torna-se completamente contra a lei, considerando-a uma “rival perigosa de Cristo”, “tendendo a converter o seguimento de Jesus numa avalanche de prescrições”. O teólogo considerou este percurso de Paulo “verdadeiramente providencial” para “a liberdade de podermos ser cristãos em qualquer cultura, sem termos de deixar de ser homens contemporâneos de todos os momentos da História”. “Não estou a secundarizar a tradição judaica. Estou é a dizer que somos cristãos e não judeus. Não há outra maneira de ser cristãos, senão tendo por base a mesma experiência, vivida agora, na cultura do nosso tempo, tal como Paulo viveu no dele”, justificou.