Sexta-feira 29 de Novembro de 2019
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Pe. Domingos da Costa, o obreiro de Deus que “baralhou” a Mexilhoeira Grande

Mas o padre Domingos da Costa recorda que os seus primeiros dias naquela freguesia não foram fáceis. “A seguir ao 25 de Abril houve movimentos contra a Igreja e, quando cheguei, o então pároco, padre Gonçalves, estava fechado em casa há uma semana”, lembra o sacerdote, acrescentando que, nos primeiros anos, sofreu “ameaças de toda a espécie”. “A igreja foi assaltada várias vezes e houve cartas anónimas contra mim, mas o que me fez ficar aqui foi ter-me metido em obras, pois encontrei a igreja paroquial em ruínas e o lar transformado na ‘lixeira’ da freguesia”, afirma. “Como a Igreja não tinha credibilidade nenhuma, achei que devia empenhar-me socialmente”, relembra o padre Domingos da Costa, para quem “a credibilidade da Igreja passa sempre pela caridade”. “Quando a fé não se concretiza na caridade, entusiasma pouco as pessoas”, considera. A realidade que encontrou quando chegou, mexeu com a sua formação. “Vi crianças que não tinham o­nde passar tempos livres e andavam na rua e os idosos a enforcarem-se”, recorda. Para além disto, “quase ninguém concluía o 12º ano” e “o mal que acontecia era o destino”, ironiza, assegurando que, nos primeiros dois anos, foi também alvo de “perseguição política” e de “um clima de intimidação”. Em Março de 1976 começou o restauro da igreja; em Agosto de 1977, a construção do Centro Cívico da Pereira e, em Julho de 1978, o Infantário, resistindo às ameaças da chamada “comissão da Igreja” de que “viriam destruir de noite”. “Fui acusado de ser demagogo porque ainda não tinha acabado uma obra já estava a iniciar outra”, recorda. A relação de estudante com a Alemanha manteve-se, até porque regressa anualmente, por alguns dias, a terras germânicas e a contribuição para a obra social da paróquia tem-se feito sentir. “A diocese de Colónia veio cá e viu que isto avançava e que havia vida nas coisas”, refere. Tendo nascido no seio de uma família pobre, o padre Domingos da Costa sempre pensou que “se um dia viesse a ser sacerdote, haveria de trabalhar sobretudo para os pobres”. Hoje entende que veio “para o lugar certo, na hora certa”. “Gosto muito de enfrentar conflitos. Se não me criarem os conflitos, eu tenho de os inventar para viver neste dinamismo constante”, confessa. Da formação alemã aprendeu ainda a disciplina e a pontualidade. “Um dia comecei um casamento sem a noiva. Quando chegou já a cerimónia tinha começado”, relata, garantindo que “agora chegam todas a horas”. “Cheguei a fechar a porta 5 minutos depois da Eucaristia começar e não entrava mais ninguém”. “Mas, – complementa o sacerdote – temos de ser coerentes: eu para exigir tenho de dar o exemplo”, afiançando que “as pessoas têm agora outra educação”. A própria “Sociedade Recreativa organizava actividades culturais e não queria ninguém da Igreja”, até que, “por causa dos outros não serem pontuais, foi obrigada a aceitar os da Igreja que eram mais cumpridores”, lembra o sacerdote, atestando que “hoje as principais entidades da freguesia estão entregues a gente da Igreja”. “Também a Junta aprendeu que era melhor trabalhar com a Igreja do que contra ela ou à sua margem”, acrescenta. “Ao princípio foi muito complicado as pessoas compreenderem este espírito porque nunca o tinham experimentado, mas a Igreja é isto”, testemunha o pároco, que defende que “a Igreja tem uma força inaudita que os cristãos não sabem aproveitar”. Actualmente, o pároco da Mexilhoeira Grande diz que ajudou a “mudar as mentalidades” da freguesia, sobretudo “a das pessoas com menos de 45 anos” e garante que já não tem resistências na paróquia”. “A Igreja tem hoje credibilidade aqui na terra e os cristãos, que eram desprezados como os loucos, analfabetos, ignorantes e estúpidos, são bem vistos e valorizados”, considera. Para o padre Domingos da Costa, “um cristão tem de viver o cristianismo encarnado”, isto é, “ver o­nde é que faz falta, estar desperto para a realidade”. “Caso contrário, andamos a pregar tudo no ar”, adverte o sacerdote, identificando “o grande mal da Igreja portuguesa”. “Os cristãos são culpados muitas vezes de as coisas não avançarem, porque são muito passivos”, acrescenta, garantindo que “a princípio, também acreditava que as catequeses faziam cristãos”. “Cheguei à conclusão que as catequeses, por si, não fazem cristãos. A Igreja tem de mostrar que vale a pena, pelo testemunho de vida, pelo empenhamento, pela persistência e pela teimosia”, concluí o presbítero que entende que “a Igreja tem-se acomodado”. Particularmente crítico com a Igreja que quer continuar a ajudar a melhorar, o padre Domingos da Costa aponta mais um aspecto a rever. “O mal da Igreja é que a gente se cansa de edificar”, afirma, relacionando esta consideração com a sua sucessão na paróquia. “O grande receio que eu tenho é que, no futuro, não venha para cá um pároco com o mesmo espírito e sensibilidade para o carisma da caridade”. Se isso acontecesse, isto destruir-se-ia tudo. Costumo dizer às pessoas que estejam atentas e que não aceitem qualquer padre que venha para aqui, pois isto está lançado e não pode voltar para trás”, reconhecendo que este apelo poderá gerar algum conflito. No entanto, considera o padre Domingos da Costa, “o sacerdote tem de estar preparado para os conflitos”. O padre Domingos da Costa, que defende que “uma paróquia é o reflexo do seu pároco”, entende ainda que “a Igreja algarvia está muito reduzida à sacristia e olha pouco para o aspecto social dos pobres”. “Um mal no Algarve é que a Igreja tem muitas estruturas, mas não as põe ao serviço da população ou, quando muito, só as disponibiliza para o aspecto litúrgico”, considera o pároco da Mexilhoeira Grande. Confidenciando uma das suas mágoas, o padre Domingos da Costa lamenta que o padre Arsénio da Silva não tenha querido trabalhar também na Mexilhoeira Grande para que a comunidade jesuíta permanecesse unida no Algarve. História de um Jesuíta no Algarve Ordenado em 1972 na Covilhã, com 32 anos, pela Congregação da Companhia de Jesus (Jesuítas), o padre Domingos da Costa estudou na Alemanha de 1969 a 1973. De 1973 a 1975 estudou Ciências Sociais em Paris. Esteve para ser professor de Filosofia na Faculdade de Filosofia de Braga, mas quando soube que a Congregação procurava abrir uma comunidade no Algarve, ofereceu-se. Tendo rumado ao Algarve em 1976 com o padre Arsénio da Silva, pároco de Nossa Senhora do Amparo de Portimão, esteve para ir trabalhar também naquela cidade do Barlavento algarvio. No entanto, poucos dias depois de terem chegado ao Sul do País, foi-lhes pedido para tomar conta da paróquia da Mexilhoeira Grande, desafio que somente o padre Domingos aceitou.

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