Aos voluntários e candidatos a voluntários da capelania, aos funcionários, enfermeiros e a alguns médicos e doentes, para além de outras pessoas que quiseram comparecer, o sacerdote pediu “mais coração nessas mãos”, recuperando uma afirmação de São Camilo de Lélis que considera manter-se actual. Aos presentes lembrou que a responsabilidade em humanizar a saúde é de todos. “A tarefa de humanizar a saúde compete necessariamente aos profissionais, ao hospital enquanto instituição e aos pacientes. Os próprios doentes têm um papel muito activo nesta área”, sublinhou, constatando que “somos especialistas em colocar as culpas nos outros”. “Muitas vezes procuramos colocar as culpas nos profissionais ou nas leis e em tantas situações que por vezes não são originárias do problema”, observou. Complementando, o assistente do Secretariado Diocesano da Pastoral da Saúde (SDPS) salientou que os cuidados de saúde são um “direito de todos nós”. Não obstante, criticou: “como direito, pensamos que devemos ter acesso a todos os luxos e todos devem estar ao nosso serviço e não é bem assim. Por isso, os pacientes precisam também de perceber que a humanização na saúde depende deles”. E porque “as famílias são a base da sociedade”, defendeu igualmente dever haver “uma ligação entre o hospital e as famílias”. “Muitas vezes os problemas partem da falta de diálogo e conhecimento. Uma família pode ajudar a humanizar a saúde”, considerou. Referindo-se concretamente às “causas da desumanização”, o conferencista afirmou que “a tecnologia é uma grande ajuda, mas pode tornar-se um problema”. “A tecnologia tornou-se quase a solução para todos os males. Pensar assim é tirar a capacidade humana da saúde”, advertiu, constatando que “sem os técnicos que comandem a tecnologia, as máquinas não resolvem tudo”. “A ditadura da tecnologia é um facto latente no mundo da saúde e leva à «coisificação» do enfermo que acaba por ser um número e um objecto que perde a humanidade. E isso é grave”, lamentou, considerando “fundamental tratar um doente pelo nome” porque “quer dizer que a pessoa é importante”. A “complexidade do mundo da saúde” foi outro dos motivos apontados. Neste âmbito criticou a burocracia e “super-especialização”, admitindo que esta última é positiva como princípio, mas pode tornar-se complicar a forma de actuar perante um doente. Um dos aspectos mais evidenciado foi o “trabalho dos profissionais de saúde”, sobretudo no que se refere à “falta de condições”. As “escassas motivações intrínsecas”, como o facto de o mundo da saúde se tornar “elitista” devido às regras que impõe tendo como consequência a formação de jovens noutros países como a República Checa, Cuba ou Espanha, foram também abordadas. Mas as “poucas motivações extrínsecas”, como o salário, também mereceram a atenção do conferencista. “Os médicos ganham bem para a responsabilidade da missão que exercem? É que muitas vezes esquecemo-nos de pesar tudo na balança”, interpelou, apontando como consequência o surgimento de unidades hospitalares privadas como o Hospital da Luz, em Lisboa, que “tem os melhores especialistas de todos os hospitais portugueses, onde só entra quem tem dinheiro”. Considerando que os profissionais de saúde, por estarem em contacto directo diário com o sofrimento, “muitas vezes são os primeiros a entrar em esgotamentos e depressões”, o padre Joel Teixeira lamentou a falta de mais técnicos. “Uma coisa é um médico estar responsável por 10 doentes e outra coisa é estar responsável por 50. Devia haver regras claras que impedissem isto para que o mundo da saúde fosse mais humano. É impossível a médico ou a um enfermeiro que trabalha 24 horas seguidas manter a mesma atenção, dedicação e discernimento”, constatou. Os “critérios mercantilistas” foram também outra das “causas de desumanização” referidas. “O mundo da saúde é atractivo economicamente. O papel da iniciativa privada, como princípio é muito interessante, mas nenhum grupo constitui um hospital para ter prejuízo”, reconheceu o conferencista, que lamentou a manutenção de doentes no hospital para que sejam atingidas quotas e admitiu que o mundo da saúde possa ter “prejuízo económico” para ter “outros lucros que são os verdadeiramente importantes neste mundo”. O padre Joel Teixeira criticou ainda a “negação do sofrimento” que considerou ser hoje “tabu”, tal como a doença e morte. “Parece que ninguém pode sofrer e ter dor”, frisou, admitindo que “há um medo impressionante da doença” e por isso a “ilusão da eterna juventude ainda continua bem presente” na sociedade. “Fazemos tudo para continuar jovens e para não pensar na morte”, reconheceu, considerando não fazer sentido “ter medo da morte” para quem tem fé. “Ter medo da forma como se poderá morrer, também eu tenho, mas ter medo da morte é negar algo que é fundamental na nossa fé”, elucidou. A última causa apontada foi a da “mentira da medicina omnipotente”. “Pensamos que a medicina pode resolver todos os problemas. Às vezes é ela própria causadora da morte”, confrontou. O conferencista defendeu a personalização do trabalho dos profissionais da saúde. “Quando nos dedicamos a uma pessoa doente, não nos estamos a dedicar a uma pessoa qualquer, mas a uma pessoa concreta”, advertiu, defendendo que “um sistema de saúde humanizado é aquele cuja razão de ser é estar ao serviço da pessoa”. “Terá sempre de ser pensado em função do Homem e não de outros interesses e realidades. Terá sempre de ter como fim o melhor para a pessoa, senão estamos a deixar cair aquele que é o fundamento de um hospital”, complementou, acrescentando que “humanizar um hospital tem de passar por dar valor à dignidade humana”. “Posso conhecer todas as doenças, sintomas e terapias para ultrapassar uma doença, mas se não me entrego àquele que está à minha frente, acaba por ser uma relação que não dá vida”, observou. A terminar, aconselhou ainda os voluntários parar, escutar e conhecer o doente, lembrando, como exemplo, que “só depois de parar e escutar é que Jesus cura”. Considerando que a “saúde integral” passa pelos aspectos corporal, mental, emocional, social, espiritual e ecológico, lembrou que aos profissionais requer-se, para além da “competência técnica”, a “relacional, emocional, ética e espiritual”. A iniciativa contou ainda com a presença do Bispo do Algarve, D. Manuel Quintas, do capelão daquela unidade hospitalar, o diácono Rogério Egídio e da enfermeira directora, representante do Conselho de Administração do Hospital de Faro, Filomena Martins.