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Pe. Valentim Gonçalves pediu testemunho de defesa dos pobres em vez de palavras

Procurando apresentar o testemunho de uma experiência iniciada em 1992, que é a sua, o sacerdote começou por sublinhar que “o Evangelho e a pobreza andam de mãos dadas porque o Evangelho é sempre uma mensagem de superação àquele que se sente limitado nas suas aspirações, mas também aberto ao desafio que lhe é proposto por um Deus que o ama, mas não o substitui na conquista que é sempre dele”. Concordando plenamente com o conferencista que o antecedeu, o padre Valentim Gonçalves reforçou que “a pobreza é para ser ultrapassada”. Recordando a sua experiência pessoal, lamentou ter constatado que os imigrantes chegavam a Portugal “com o sonho de encontrar os irmãos”, mas “encontram uma frieza tremenda e uma semana depois desapareciam”. O padre Valentim Gonçalves defendeu então que “a continuidade da missão desenvolvida em África tem de ser continuada aqui”. “Aqui, no concreto, é que mostramos se é verdade ou não aquilo que anunciamos lá”, acrescentou, reconhecendo ter sido com esta motivação que se deixou conduzir pelas situações que foi assumindo como “lugar teológico”. “Não estará Deus no mais pequenino tão ou mais autenticamente do que no culto protegido e confortável da igrejas ou no refúgio das nossas reflexões e retiros? Tomar a causa de Deus não significaria estar aí a impor-me literalmente junto dos que estavam a ser agredidos nos seus sentimentos e dignidade, umas vezes em nome da lei, outras em nome do nada que representavam? Não estaria Deus aí, mais do que refúgio do meu gabinete a redigir belos textos e a desenvolver pensamentos profundos sobre um Deus que a todos ama, mas que parece deixar cada um a que se desembarace dos laços que a vida lhe lança?”, confessou ter reflectido. “Esta reflexão foi marcante para mim. Convencido de que não precisava de ir para Estrasburgo, Bruxelas, ou de ultrapassar os mares para ser missionário, tinha diante de mim as interpelações e o convite à prática da missão para anunciar a Boa Nova”, reconhece. Trazendo à memória um episódio ocorrido no Prior Velho, referiu uma manhã em que alguém lhe ligou a informar que estavam a deitar abaixo as barracas. “«Vem cá precisamos de ti», dizia-me”, lembrou, recordando igualmente as interrogações que lhe surgiram. “O que havia de fazer? Quem era eu para me opor àqueles que legalmente estavam a cumprir o seu dever às ordens dos seus legítimos superiores? Que direito tinha de me intrometer naquilo que não me dizia respeito? Como é que eu, habituado a ser educado, me ia colocar ao lado daqueles que tinham lesado a lei, construindo a sua barraquinha em lugar que não era deles e sem licença?”, pensou o padre Valentim Gonçalves quando, no turbilhão de pensamentos, era preciso decidir. “Só cheguei à decisão depois de responder a uma quarta questão: Afinal, se hoje não for para junto deles, o que é que eu vou fazer no próximo domingo, quando me juntar na igreja com eles para celebrar a Eucaristia e tiver de os chamar: Meus irmãos? Afinal na terça-feira, com as retroescavadoras, onde é que estava o nosso irmão?. Então, engolindo alguma repugnância, fui e fiquei com eles nesse dia e nos dias a seguir”, testemunhou. Procurando clarificar a posição daqueles que defendem os mais frágeis, o sacerdote explicou alguns aspectos. “Não somos contra a lei, mas a favor da lei que está ao serviço da pessoa e a toda a pessoa trata com a mesma dignidade e não interpretada avilmente no interesse daqueles que tem poder. Somos a favor da igualdade fundamental. Mas sabendo que o princípio da igualdade só se realiza quando houver um tratamento igual para situações iguais e diferente para situações diferentes. Não somos contra o progresso. Somos a favor do progresso para todos e não do progresso que se verifica à custa dos mais fracos. Somos pelo desenvolvimento e contra o obscurantismo daqueles que querem aparecer pondo-se em bicos de pés sob a cabeça dos fragilizados e oprimidos. Sentimo-nos corresponsáveis pelo progresso e desenvolvimento e por isso não nos limitamos a denunciar, mas estamos dispostos a dar o contributo possível em ordem à solução dos problemas. Não queremos substituir ninguém, nem criar dependência, nem irresponsabilidade, mas ser uma presença que acompanha e anima aquele que deve caminhar pelos seus pés”, referiu. O conferencista lamentou ainda que o lema da excelência não permita que se ajude “muitos que podiam sobreviver” sem esse grau de exigência. Por outro lado, criticou que “tem havido investimentos de vulto por parte da administração pública com erros e falhas intoleráveis porque, para os mais vulneráveis, qualquer coisa serve”. O sacerdote defendeu ainda que “os apoios atribuídos têm de ser acompanhados para que aquilo que foi disponibilizado seja responsavelmente utilizado”. Criticando uma certa passividade, mesmo no interior da Igreja, apontou o caminho a seguir. “Falamos muito bem e dizemos coisas muito bonitas em favor dos que estão cansados, mas o que eles precisam já não é de palavras. Há uma onda xenófoba que está a crescer. Se não estamos atentos a isso para que é que nos juntamos ao domingo para celebrar a Eucaristia?”, interpelou, defendendo que “se os imigrantes são um problema, a raiz não está só nos países deles, mas nos países do norte que criam condições para que eles não possam viver nos seus países e sejam forçados a saltar para a Europa”. Lembrando o holocausto, interrogou: “o que irão dizer de nós daqui a 50 anos?”. “Se calhar vão falar do Darfur, Etiópia, Congo, Gaza, Palestina e Iraque”, conclui, defendendo que se 10 por cento dos que vão à missa ao Domingo fossem mais militantes destas causas, seria o suficiente para inverter o actual panorama. Mais fotos, brevemente na Galeria de Imagens

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