Segunda-feira 19 de Agosto de 2019
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Portugal: construir o futuro na esperança

Falta dignidade e profundidade aos debates, mais de acusação do que de esclarecimento. E, todavia, não podemos esquecer a delicadeza da actual situação política e a necessária busca de alternativas para sairmos da presente crise, não só económica e política, mas também de cidadania e de confiança nas instituições. Seria fácil, e essa é a tentação comum, entrar num diagnóstico marcado pelo pessismismo, pelo alheamento participativo, pela indiferença cívica, pela descrença dos portugueses em si próprios, nos seus governantes e nos orgãos de soberania. A serenidade de uma intervenção que nos convoque para a esperança, que nos devolva a auto-estima e nos mobilize para uma maior participação cívica é necessária e urgente. Ésse é o caminho do testemunho dos cristãos, prontos a dar razões da sua esperança, sobretudo nos momentos mais difíceis da vida nacional, em que um empenho acrescido pelo bem comum é um imperativo de consciência. Recentemente dois importantes contributos foram tornados públicos, a orientar o discenimento e a intervenção crítica dos cristãos na actual situação política: o comunicado do Conselho Permanente da Conferência Espiscopal Portuguesa, de 14 de Dezembro de 2004, e o texto da Comissão Nacional de Justiça e Paz, «Propor a esperança, abrir portas a um futuro melhor», de 20 de Janeiro de 2005. É comum aos dois textos um estilo sereno e um apelo a uma esperança activa e comprometida. Ambos, o segundo na sequência do primeiro e por ele suportado, pretedem ser um contributo para superar o ambiente de desânimo que a actual sociedade portuguesa atravessa. Para além das legítimas diferenças das propostas partidárias, apelam os bispos a se encontrar convergências em verdadeiros objectivos nacionais». «O progresso do País precisa do empenhamento generoso de todos, da renúncia a egoísmos pessoais ou grupais, da competência dos agentes económicos e culturais. É urgente criar uma o­nda de fundo de entusiasmo por Portugal, em que as legítimas diferenças se transformem em razão e não em obstáculo». E convocam os cristãos a um epenhamento cívico mais decisivo, a uma responsabilidade política mais comprometida. De nada serve o habitual espírito crítico «à portguesa», que se limita a denunciar sem se compromter em alternativas credíveis. «Não deixemos o futuro do nosso País só nas mãos dos políticos profissionais. Ajudemo-los com a nossa consciência crítica e com a nossa escolha responsável. A nossa convivência democrática aprofundar-se-á qualitativamente se votarmos em propostas, mais do que em partidos, motivados pela esperança objectiva que essas propostas suscitam e não tanto pela nossa tradicional simpatia partidária». A Comissão Nacional de Justiça e Paz convida os agentes políticos a fazer uma apresentação clarificadora dos principais problemas e das maiores potencialidades do País, a fim de que a campanha eleitoral não se reduza a simples habilidades de comunicação. Ora é precisamente isso que estamos a verificar: ausência de sério debate político nos principais partidos. Uma gritaria encurdecedora marcada por mútuos ataques, alguns ao nível da má-educação e da boçalidade, que desmobiliza os cidadãos. Queremos inverter a actual tendência de corrusão da vida democrática. Exigimos aos partidos clareza e dignidade nos debates, ousadia nas propostas; que não tenham medo de perder eleitores, mas se arrisquem a falar verdade. A encunciar as suas propostas políticas, a indicar os objectivos programáticos mas também os meios para os concretizar. Não é nada esclarecedor indicar fins sem apresentar os meios para os alcançar. A verdade é uma exigência democrática, para que a participação dos cidadãos possa ser de confiança e de respeito por aqueles em quem delegam a soberania. E só a partir da clareza das propostas, da verdade dos programas, pode haver discernimento por parte dos eleitores. O contributo cívico dos cristãos na actual sociedade, e no contexto dos seus delicados problemas, não pode deixar de estar marcado pela esperança: «O momento que vivemos precisa de vozes de esperaça, precisa dos gestos que se pautam pelo fazer bem, precisa de corações que acarinhem sonhos de dias melhores e que os partilhem com os demais, precisa de muito investimento nas pessoas e de muita dedicação ao bem comum, precisa da cooperação como principal trampolim para a melhoria da nossa vida colectiva, precisa de cada um de nós. Não há cidadãos dispensáveis, dentro e fora dos partidos políticos, quando se trata de criar uma comunidade nacional mais solidária, desenvolvida, apta a enfrentar com esperança os tão invertos dias que se avizinham», podemos ler na reflexão da Comissão Nacional de Justiça e Paz.Porque a esperança funda-se no amor de Deus e vive-se com os irmãos, em comunidade de amor. A nossa esperança tramsite-se nos gestos fraternos e na procura incessante do bem comum. Põe o interesse da comunidade e do País acima dos interesses grupais, partidários, dos lobbies corporativistas. A nossa esperança alimenta-se daqueles que eram excluídos e encontraram abrigo, daqueles que estavam perdidos e encontraram um novo novo para as suas vidas. A nossa esperança acredita que um futuro melhor é possível, porque acredita no valor das pessoas, nas suas potencialidades, nas sementes do Reino que nelas Deus semeou. Não vivemos na ilusão de políticas e políticos redentores; sabemos que a política é humana porque feita por pessoas. Mas sabemos que a razão da política é o bem comum, a arte de governar a cidade na justiça, na solidariedade e na paz, encontrando soluções de integração para os excluídos, de justiça na repartição da riqueza. Portugal exige um futuro de esperança. Todos nós o exigimos e nele nos queremos comprometer.

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