Na sessão de apresentação que teve lugar na delegação regional do IPJ – Instituto Português da Juventude, em Faro, José António Cruz, chefe daquele agrupamento e coordenador do projecto, explicou que o mesmo nasceu de uma necessidade dos jovens. “Estes jovens escuteiros sentiram necessidade, há cerca de um ano, de servir, ajudar e colaborar, mas tiveram dificuldade para se orientar”, elucidou, garantindo que o “principal objectivo deste projecto é ajudar as pessoas”. “Temos consciência de que temos pobreza em Portugal, não só em termos materiais, mas também em termos humanos. Se em termos materiais, por vezes, não pudemos dar tudo aquilo que seria desejável, em termos humanos cada um de nós pode dar tudo aquilo que tem”, salientou, acrescentando que o sítio tem de ser visto “não como um objectivo, mas como uma ferramenta”. “Compete-nos agora dinamizar esta ferramenta. O mais difícil não foi chegar aqui, o mais difícil vai ser a partir de hoje. O que pretendemos agora é desenvolver a rede humana”, destacou, considerando esse aspecto como “factor vital” para o sucesso do sítio Solidus.pt. Embora lembrando que o projecto é “completamente aberto à sociedade civil”, desde logo por a sua Comissão Executiva ser constituída por pessoas que não são nem nunca foram escuteiras, aquele dirigente do CNE, reconheceu que o papel importante do movimento escutista. “O CNE tem uma estrutura com cerca de 70 mil associados (dos quais 20 mil com mais de 18 anos), 1000 agrupamentos locais, 20 estruturas regionais e nas regiões autónomas. Temos aqui um potencial muito grande para constituirmos equipas regionais com coordenadores regionais que vão ter de desenvolver equipas nos seus distritos, angariar instituições e divulgar que o sítio existe junto dos voluntários”, afirmou José António Cruz, manifestando a ambição do projecto de se estender a todo o território nacional. Considerando não ser desejável nesta área “entrar em linhas de concorrência”, o dirigente do CNE destacou a importância do trabalho conjunto. “Não pretendemos substitui-nos a ninguém, pretendemos sim estabelecer parcerias”. E como exemplo informou da parceria com o Banco Alimentar Contra a Fome do Algarve (BAA) cujos 600 voluntários já estão registados naquele sítio. Mas o alcance do Solidus não pretende ficar apenas pela disponibilização de uma plataforma de encontro na Internet. “Pretendemos desenvolver outras acções e educar os jovens para uma cultura de voluntariado e trabalhar com o Ministério da Educação nesse sentido. Os jovens são muito voluntariosos, mas têm de ser acompanhados e dinamizados”, anunciou José António Cruz. Por outro lado, aquele projecto quer “desenvolver acções junto dos idosos e das pessoas reformadas”. “Temos tantos reformados em Portugal que são muito válidos, que têm tempo e podem ajudar. Queremos trabalhar com essa população que é bastante grande para que as pessoas se sintam úteis”, explicou aquele responsável, sublinhando que haverá quem faça o registo dos voluntários que não utilizem a Internet. Explicando que o funcionamento do Solidus.pt acontecerá com os registos das instituições, mas sobretudo com os anúncios de recrutamento de voluntários que ali colocarem, José António Cruz elucidou que “o que se pretende é que cada voluntário dê apenas o que pode dar”, seja uma hora por semana ou uma hora por mês. “Vamos trabalhar com pessoas que já estão em situação difícil e mais cuidado temos de ter quando nos comprometemos”, ressalvou. Para acertar estas e outras exigências, informou de outra valência do projecto. “Estamos a prever, dentro de um ano, ter um plano de formação disponível às instituições para formar os voluntários”, anunciou. Macário Correia explicou que esta “é uma iniciativa que se enquadra nos projectos chamados INTERREG, que se criam com pequenas comparticipações dos fundos europeus”. O presidente da AMAL e membro da Comissão de Honra do projecto lembrou que “a separação geográfica entre gerações da mesma família leva a dificuldades que todos nós conhecemos e por isso é preciso alguém por perto que faça um trabalho de apoio e de afecto que outros, sendo da raiz genética, não poderão fazer por dificuldades da vida em que as famílias não coexistem num espaço próximo como acontecia há algum tempo atrás”. “Num mundo em que se fala, cada vez mais, de dinheiro, de lucros e de resultados é bom falarmos de afectos, de cooperação, de entreajuda, sem falar necessariamente de dinheiro e esse é um sentido que a vida tem de ter”, sublinhou. Paulo Bernardo, director geral da Globalgarve, destacou o bom uso das novas tecnologias ao serviço da comunidade. “Hoje em que vivemos numa aldeia global, em que a informática tem tanta importância e em que se diz que a informática é fria e afasta as pessoas, temos aqui um exemplo muito interessante de como a informática pode ser aquilo que nós quisermos”, disse. Luís Villas-Boas, director do Refúgio Aboim Ascensão, também manifestou a sua “satisfação” pelo nascimento do Solidus. “Numa altura em que em Portugal há fome, violência contra as mulheres e crianças, há famílias disruptas e sem qualquer projecto de reequilíbrio, numa Europa em que Portugal não é excepção, com uma grave crise no dossiê criança, o voluntariado pode desempenhar um papel importante neste contexto, numa altura em que até da justiça nos chegam sérias preocupações diárias”, afirmou. Aquele também membro da Comissão de Honra do projecto, sublinhou que “o voluntariado só pode ser organizado por pessoas concretas”. “Solidários são as pessoas. Os Estados não têm solidariedade”, concretizou, lembrando que “a solidariedade tem de ser exercida e não pode ser alardeada”. “As instituições que cuidam de pessoas precisam de voluntários organizados, porque todos sabem que existe também um outro voluntariado que não este e a que eu chamaria de folclórico, de aparecer de vez em quando, para ajudar de vez em quando”, criticou, salientando a falta de “voluntários envolvidos, organizados e responsáveis”. Villas-Boas aproveitou ainda a ocasião para apresentar uma autêntica lista das necessidades da instituição que representa. “Apoio em actividades lúdico-pedagógicas, actividades desenvolvidas no âmbito do pré-escolar e da educação da infância, actividades numa área ante pré-escolar (crianças com menos de 5 anos), animação de grupos, actividades recreativas, de lazer, sócio-culturais, visitas, colaboração durante as férias, pequenas saídas até com acampamentos de uma dia, apoio a actividades pontuais relacionadas com épocas festivas (Natal, Carnaval, Páscoa), colaboração em rotinas do dia-a-dia das crianças, ajuda no ensino, nas refeições, no sono e no brincar, actividades características que podem surgir a partir da imaginação e criatividade dos próprios voluntários”, foram algumas das ajudas referenciadas por aquele responsável. A terminar Villas-Boas considerou o Solidus “uma forma de organizar e reforçar o voluntariado que existe”. D. Manuel Quintas, Bispo do Algarve, outro dos membros da Comissão de Honra, começou por se referir ao documento publicado pela Conferência Episcopal Portuguesa em 2001, Ano Internacional do Voluntariado, intitulado ‘Voluntariado – Porta Aberta para a Humanização da Sociedade’ que exortava à criação de redes locais de voluntariado. O Bispo diocesano destacou a mística do escutismo e os objectivos desta iniciativa e lembrou que “o voluntariado há-de ser sempre necessário”. “O voluntariado vem pôr em relevo 20 séculos de mensagem cristã, vivida e testemunhada na Igreja, nas suas variadas expressões de dedicação voluntária, vem interpelar as sociedades de consumo onde o ter e o fazer contam mais do que o ser e o dar-se”, salientou. D. Manuel Quintas defendeu ainda a necessidade de “alguma maturidade humana, afectiva e espiritual” de quem quer exercer voluntariado. O Bispo diocesano desafiou ainda as instituições a criar espaço para formar voluntários e terminou desejando que aquele projecto contribua para uma “cultura da solidariedade”. Para além dos elementos já referidos fazem ainda parte da Comissão de Honra do projecto Solidus, a primeira-dama Maria Cavaco Silva (presidente), a cantora Mafalda Veiga, Margarida Pinto Correia, administradora executiva da Fundação Gil, e Adriano Pimpão, presidente do BAA.