Com base numa homilia publicada na Comunidade da Serra do Pilar (Vila nova de Gaia), o padre Domingos Costa começou por se referir à mensagem do Papa aos bispos de Portugal no final da última Visita ad Limina. A propósito desta intervenção, o orientador da Recolecção Quaresmal defendeu que a “conversão” da Igreja Portuguesa, pedida por Bento XVI, tem a ver, antes de mais, com os “Pastores”, ou seja, os bispos e os padres. O sacerdote considerou mesmo que “a Igreja, na Europa, tem o chão a fugir-lhe dos pés e não vai voltar a ser o que já foi”, incitando-a a mentalizar-se de “que é o grande «rebanho» que está a desfazer-se”. Apelando à “urgência da conversão ao Evangelho”, defendeu que “A Igreja do chamado primeiro mundo – da Europa –, e muito concretamente de Portugal, é, e será cada vez mais, um pequeno «rebanho». A Igreja institucionalizada continuará a diminuir em número nos próximos anos”, previu o padre Domingos Costa, explicando que “afirmar isto não é dizer que diminuirá a fé ou aumentará a incredulidade”. “O que se quer dizer é o seguinte: cada vez serão em menor número os cristãos que se assumem como tal, a celebrar a sua vida à luz da fé e a referir-se explicitamente a valores e virtudes cristãs”, justificou, complementando que, “dizer que a Igreja será cada vez mais um pequeno «rebanho», não significa que passe a ser um ‘gheto’ ou uma «seita» fechada em si mesma, acomodada num tradicionalismo cómodo ou numa formulação velha e ultrapassada da doutrina”. “Pelo contrário: quanto mais pequeno for este «pequeno rebanho», mais eficaz terá de ser, mais terá de se abrir para fora de si. E também, cada vez mais, será difícil definir os limites que a separam de um mundo não crente”, clarificou. Neste contexto, o padre Domingos Costa deixou algumas interrogações. “Os que não vêm à Missa ao domingo estão todos fora ou podem estar dentro da Igreja? Porque não vêm? Os casados apenas civilmente estão fora ou estão dentro? Porque se afastaram ou foram obrigados a afastar-se?”, questionou, considerando que “hoje em dia é preciso ter a coragem de fazer todas estas perguntas”. “Em vez de insistir em dar às pessoas o que elas não querem ou não entendem – Missas ou regras de moral –, porque não perguntar-se pelas «fomes» e pelas «sedes» dos nossos contemporâneos?”, interrogou ainda. Na sua análise da realidade, o padre Domingos Costa observou ainda que “os valores cristãos da fraternidade são espezinhados em nome do lucro e do ganho, pelo liberalismo económico”, que classificou de “feroz”, e que considerou gerar “mais pobreza e, cada vez mais, exclusão social”. “Não nos devia preocupar muito o termos menos Baptismos, se passássemos a ter melhores baptizados; nem o termos menos casamentos pela Igreja, se passássemos a ter melhores famílias”, frisou, acrescentando que “quanto mais a Igreja for minoritária, mais os cristãos terão de se afirmar como tal: como cristãos”. O padre Domingos Costa defendeu ainda que, “na Igreja, só a coragem da fé, uma pregação viva e o exemplo de uma vida autenticamente cristã podem fazer novos cristãos”. “É preciso que nos convençamos que não mais se nasce cristão. Os cristãos fazem-se. E isso dá muito trabalho”, destacou. O sacerdote apelou então à mudança de comportamentos, atitudes e estratégias. “Tudo isto obrigar-nos-á a perguntarmo-nos por muita coisa, a pôr muita coisa em questão e a abandonar muitas práticas e costumes que não levam a sítio nenhum. E quanto mais cedo, tanto melhor”, interpelou. Lembrando a metáfora, usada por Jesus, – do sal que quando se corrompe serve apenas para deitar fora –, o padre Domingos Costa adaptou-a à Igreja. “Se a Igreja não for sinal de Cristo, nem do Reino, para que serve ela, senão para ser deitada fora? Por muito que nos custe é o que fizeram muitos dos nossos contemporâneos”, observou. Mas a intervenção do orientador não se ficou apenas pela identificação das dificuldades. O padre Domingos Costa deixou ainda algumas propostas para que o futuro da Igreja seja positivamente diferente. “A Igreja, concretizada em comunidades, terá de criar todo um clima, todo um ambiente que se exprima celebrativamente em símbolos e sacramentos, em oração e em gestos de caridade e fraternidade, mas sempre com os olhos postos no futuro que é o Reino”, concretizou, exortando à realização de “uma liturgia que celebre a alegria da fé e as dores da vida, a morte e ressurreição de Cristo”. “Para ser assim, a Igreja, concretizada em comunidades, terá de privilegiar uma iniciação na fé que insira os novos e os que chegam, transmitindo desse modo a fé de geração em geração. A Igreja, concretizada em comunidades, terá de ser capaz de gestos proféticos na construção da justiça e da paz, atendendo nomeadamente aos mais desprezados”, complementou. E precisamente a propósito da área sócio-caritativa, considerou a que “a caridade sempre foi e continua a ser a melhor visibilidade da fé e, por isso, o que dá crédito e torna a Igreja credível”. “A caridade é a melhor liturgia de todos os dias e de todas as horas”, sublinhou.