Subordinado ao tema ‘Onde pára a fé?’, o debate, que teve lugar no contexto do programa ‘Café Central’ no bar do Teatro Municipal de Faro, foi transmitido através de emissão directa em 102.7 fm e no sítio da Internet daquela estação radiofónica, mas ao vivo não contou com qualquer espectador. O padre Pedro Manuel, citando os Papas Paulo VI e Bento XVI, começou por explicar que “a fé parará no coração de cada homem”, pois “os caminhos para chegar a Deus são tantos quantos os corações dos homens” e considerou que o século XXI é “o século da esperança” e, por isso, “o século da fé”. Também Radhouan Ben-Hamadou concordou que “a fé faz todo o sentido hoje” e que “o século XXI é de esperança para a fé e para ir ao encontro de Deus”. Ralf Pinto, por sua vez, explicou que o Judaísmo, que perdurou durante 50 séculos, continuará assim, seguindo a mesma Torat que Moisés recebeu há mais de 3 mil anos. Os representantes das três religiões concordaram também que a fé é para ser vivida em comunidade e não como uma vivência individualista. “A comunhão só se consegue a partir da unidade e essa unidade é uma unidade de diferentes que, a partir da partilha das suas diferenças, encontram pontos comuns que os ajudam a ser família. Para dar uma resposta a nível comunitário já tive de ter uma primeira experiência particular e pessoal com Deus”, justificou o padre Pedro Manuel, que reconheceu haver “uma busca muito grande de uma religião que seja mais ‘light’ e ‘soft’”. “Algumas pessoas, não se enquadrando num determinado tipo de prática assumido por uma determinada Igreja, buscam viver a fé a partir da possibilidade de não entregar tanto a vida, mas a fé vivida a este nível também leva a uma maior desresponsabilização e descaracterização”, advertiu. Também o padre Miguel Neto rejeitou haver uma “fé individual”. “A fé é pessoal e comunitária. Enquanto pessoal é algo que nos confere identidade e nos faz ser pessoa. Essa identidade nunca pode ser individual porque faz parte do nosso ser pessoa e não de indivíduo. Eu sou uma pessoa diferente sendo cristão do que seria se não o fosse”, justificou, acrescentando que “existe o perigo na Europa de querer remeter as expressões de fé para o foro da individualidade”. Radhouan Ben-Hamadou concordou que é impossível viver a fé sem ser em comunidade. “Podemos ter tendência para individualizar a fé” porque as pessoas são “singulares”. “O problema é acharem que a fé pode ser vivida individualmente”, complementou, lembrando que “as pessoas não podem esconder a sua fé em casa ao final da tarde, depois de trabalhar”, pois “a fé tem uma grande influência na vida profissional e familiar e em todos os momentos do dia-a-dia”. Ralf Pinto explicou que também “para o judeu a religião é a vida que vive diariamente segundo a religião”, embora cada judeu possa ter “uma ideia própria sobre Deus”. O padre Pedro Manuel, advertindo ainda para a incoerência do divórcio entre a fé e a vida, explicou que, quando há “individualismo e individualização da fé”, “opta-se por testemunhar uma fé que não é a fé da Igreja”. “Católico não praticante é aquele que não ama? Ou não pratica porque não pratica a religião? E nesse caso é católico? Se não pratica, a religião faz-lhe falta?”, interrogou. O padre Miguel Neto considerou que “o fenómeno de acreditar continua a existir cada vez mais”. “Crê-se é em coisas erradas”, justificou, lembrando que existe a “substituição do fenómeno espiritual por grupos religiosos paralelos, por seitas e por fenómenos esotéricos e místicos”. “Há um desvio das religiões instituídas para esses grupos”, reconheceu, considerando que “o homem é um ser religioso e tem necessidade dessa religião desde sempre”. “Se calhar não lhes soubemos dar as respostas adequadas no momento certo”, admitiu, considerando que o homem, embora crente, “não se quer comprometer e prefere o imediatismo”, escolhendo “realidades que não implicam compromisso e mudança de vida”. O padre Pedro Manuel reconheceu que “o consumo será um dos caminhos por onde está a ir a fé, mas não é único e não será o que faz oposição verdadeira e radical à fé”. “A oposição verdadeira à fé é o meu medo de acreditar em algo que seja superior a mim e a oferta que outros me fazem e que não está vinculada a nenhum tipo de regras nem a nenhum tipo de religiões instituídas que possam preencher mais as inquietações que tenho”. “Temos de ter um olhar purificador que nos ajude a passar daquilo que escraviza o homem para aquilo que verdadeiramente o liberta”, defendeu. Radhouan Ben-Hamadou sublinhou que o objectivo da fé é que a humanidade seja melhor. “A fé e ser crente não está na moda, sobretudo nesta sociedade ocidental, como o reconheceram os Papas João Paulo II e Bento XVI”, constatou, defendendo que existe uma “crise de fé”, pois “as pessoas preenchem a sua vida com coisas mais materialistas”. Ralf Pinto, por sua vez, concordou que “não há menos pessoas a acreditar”. O padre Miguel Neto lamentou que se esteja a criar “demasiado preconceito acerca das pessoas que têm fé e que a manifestam de uma forma clara”. “Há países onde existe uma grande percentagem de pessoas sem fé e que sofrem efeitos nocivos. O país com maior qualidade de vida e com mais ateus é a Suécia, mas também é o país com mais suicídios”, exemplificou, evidenciando que “quem tem fé consegue ultrapassar melhor os obstáculos”, opinião corroborada mais adiante por Radhouan Ben-Hamadou. Admitindo que seja mais difícil hoje chamar alguém para a fé, o sacerdote considerou, em contrapartida, que “também é mais aliciante”. Radhouan Ben-Hamadou e Ralf Pinto consideraram não ser difícil viver a fé num país maioritariamente católico. “A fé, quando vivida num país em que a maioria não a professa, pode ser um incentivo para quem a vive puder testemunhá-la no seu dia-a-dia”, destacou o representante da Igreja islâmica, lembrando que “um muçulmano não tem a obrigação de converter pessoas, mas de testemunhar a fé que tem no seu coração com o seu comportamento”. “Deus chama, mas o homem tem de querer ser chamado por Deus”, complementa, reconhecendo que “a Palavra de Deus também se encontra no Evangelho e no Antigo Testamento”. Ralf Pinto, por sua vez, lembrou que “o Judaísmo não é proselitista” e que “a conversão ao Judaísmo é muito difícil”, acontecendo normalmente só quando alguém quer casar-se com um judeu.