A sua história vocacional nasce no movimento dos Convívios Fraternos. Foi aí que diz ter descoberto “um Deus mais próximo” que a tocou “de forma diferente”. Na “busca incessante” que ia fazendo com ajuda de algumas pessoas, até pelo facto de ser catequista, foi alicerçando a sua fé e tomando mais consciência de que o “Deus de amor” a estava a chamar. “Posso dizer que umas das actividades de Verão que mais contribuíram para encontrar o sentido para minha vida foi a participação numas saudosas Férias Comunitárias” promovidas pelo Sector da Pastoral Juvenil da Diocese do Algarve, refere a irmã Maria Otília, garantindo que “o primeiro amor nunca se esquece”. “Para mim, recordar é viver aqueles momentos de partilha, de alegria e de muita fraternidade, não só entre nós, os participantes, mas também com as pessoas da comunidade com quem éramos chamados a trabalhar, a anunciar o amor de Deus”, relembra a religiosa. Em 1995, não se realizaram as tão desejadas Férias Comunitárias, mas um outro desafio se proporcionou à jovem Maria Otília e que marcaria a descoberta da sua vocação. “Um jovem daquele tempo, o Tito, deu-me o telefone de umas irmãs que faziam Campos de Férias. Sem saber ao que ia, lá fui no início de Agosto. Aqui deu-se algo mais profundo. Senti, através dos doentes internados com quem trabalhei, que ali era o meu lugar. Sentia que Jesus me dizia pela boca das doentes da unidade de São Camilo: «preciso de ti aqui, para seres a minha presença junto destas pessoas que sofrem». E o que me motivou ainda mais foi descobrir no rosto das irmãs uma alegria em servir Jesus naqueles que são a sua viva imagem”, testemunha. Em resposta a um desafio que uma irmã lhe fez, comprometeu-se a voltar à comunidade no dia 11 de Novembro de 2005. E assim, aconteceu. Nesse dia iniciou uma experiência de dois meses até Janeiro de 1996. A partir dessa data, regressou ao Algarve sem comunicar a ninguém o que se tinha passado, pois queria fazer a experiência de “estar perto de casa, estando longe”. Esteve seis meses à experiência a trabalhar com crianças com problemas sociais e pessoas portadoras de deficiência na Santa Casa da Misericórdia de Albufeira. Depois desse tempo, iniciou, no dia 15 de Setembro de 1996, o Postulantado em Braga, na Congregação das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus. Passados dois anos dá entrada no Noviciado, “um tempo mais íntimo de oração com Jesus e com a missão hospitaleira, solidificando o chamamento” que em cada dia ia sentindo. No dia 1 de Outubro de 2000, faz a primeira profissão religiosa. Depois de quatro anos em Braga, parte para a comunidade da Idanha, onde tinha participado no Campo de Férias. Aí inicia a sua vida como religiosa com um compromisso mais sólido e inicia os estudos teológicos, na área das Ciências Religiosas. A 4 de Setembro de 2005, faz os votos perpétuos, “com um sentido de querer ser cada vez mais mendiga de Deus”. Depois dos votos é-lhe dada a missão da Pastoral Juvenil da Casa de Saúde da Idanha e o voluntariado. Mais tarde, colabora na Unidade dos Cuidados Paliativos, onde reconhece ter “aprendido muitas coisas com as pessoas em sofrimento” e no dia de Páscoa do 2007, é-lhe feito o convite de ir trabalhar para Angola, na Província da Huíla. Chegou àquela cidade no dia 5 de Dezembro de 2007, tendo o primeiro tempo sido de “adaptação ao clima, às pessoas e a uma nova forma de viver muito mais calma”. Começou a colaborar na área pastoral da Imaculada Conceição, com os missionários Claretianos, num trabalho de formação para os jovens e também para os ministros da comunhão. “Aqui sente-se a presença de um Deus mais próximo e também mais delicado. Uma das coisas que os jovens uma vez me disseram e que tocou no mais fundo de mim mesma foi: «nós andamos três horas a pé para estar com a irmã e depois andamos mais três para chegar a casa, mas o que custa é quando chegamos e não temos nada para comer»”, relata a missionária, lembrando que “com muito pouco do que sobra na Europa pode-se matar a fome a muita gente daqui”. Depois da Páscoa foi convidada para assessora da Pastoral Juvenil Vocacional da Arquidiocese do Lubango. “Trabalhar com os jovens é sempre um desafio mas também é um enriquecimento muito grande”, reconhece. O trabalho das irmãs Hospitaleiras é também com pessoas que sofrem de doença mental. “Aqui estas pessoas ainda são mais marginalizados do que aí”, relata a irmã Maria Otília, assegurando que “falta tudo”, desde a medicação, “que não se encontra nas farmácias”. “Por isso, é muito difícil trabalhar sem recursos, mas o amor de Deus por cada um vai-nos dando a força de sabermos que somos uma gota no imenso oceano. Quando vamos ao hospital psiquiátrico ficamos com o coração apertado, pois as pessoas que lá se encontram internadas não possuem uma cama, nem mantas para se resguardarem do frio. Por isso, podem imaginar o que é dormir no chão”, descreve. Neste contexto, solicitou à diocese do algarvia a possibilidade de assegurar um Natal diferente aos jovens e às pessoas doentes com que trabalha. “Gostaríamos de comprar algum material para a Pastoral Juvenil”, justifica. A iniciar a colaboração num programa de reabilitação de doentes, a religiosa explica que necessita de “todas as ajudas de materiais”. Computadores, cadeiras, mesas, panos, toalhas para bordar, cera para madeira, linhas, revistas de trabalhos manuais, telas e tintas a óleo, são algumas das necessidades para o trabalho com os utentes. “O que tentamos fazer com reabilitação da terapia ocupacional é apenas oferecer um meio para a pessoa voltar a estar em contacto com a sociedade”, elucida. Aos jovens algarvios deixou uma mensagem: “Não tenhais medo de abrir o vosso coração ao nosso Deus, pois com Ele tudo podemos e com Ele a nossa vida tem sentido. Não tenhais medo de responder ao desafio que vos fazem. Não quereis embarcar comigo nesta missão? Vinde e descobrireis que o amor transforma”.