O padre Mário de Sousa começou por advertir que “falar da antropologia é falar da concepção que Paulo apresenta sobre o homem” e “falar de soteriologia é falar da salvação tal qual São Paulo nos apresenta nas suas cartas”. “O facto como Paulo vê o homem, marcou a filosofia e, sobretudo, a teologia do ocidente”, embora “nem sempre da forma mais correcta”, complementou o sacerdote, acrescentando que “muitas vezes olhou-se para a forma de falar do apóstolo como se fosse um filósofo que pretendesse dar-nos definições sobre o homem e a salvação”. “Paulo não é um filósofo, mas um pastor que procura apresentar a salvação em Jesus Cristo de acordo com as necessidades concretas das suas comunidades”, rectificou. No contexto das advertências para uma melhor compreensão da sua exposição, o sacerdote aconselhou os presentes a deixarem cair os seus pré-conceitos. “A linguagem que Paulo utiliza para falar do homem é muito nossa conhecida nas palavras, mas o conceito que está por detrás das palavras é diferente do nosso”, justificou. Explicando que “São Paulo move-se num mundo que é, ao mesmo tempo, bíblico e grego”, “mundos muito diferentes naquilo que se refere à concepção do homem”, o conferencista elucidou que “a concepção que a filosofia grega tem do corpo é negativa”, pois “o corpo aparece como uma espécie de carcereiro da alma e o homem só será feliz quando a alma se libertar da sua prisão”. “Isto não tem nada a ver com a vida porque a Sagrada Escritura diz-nos que o homem não é um composto. É um mistério em que é corpo e é alma e não pode ser homem se não tiver corpo e não pode ser homem se não tiver alma”, clarificou, mostrando que “o pensamento de Paulo é o da Bíblia”, embora sem se confinar a este. “Paulo, embora usando uma linguagem grega e um pensamento bíblico, vai utilizar aquele que é o seu pensamento e concepção do mistério do homem, sempre iluminado pelo mistério de Cristo”, constatou. Como forma de sublinhar aquilo que é essencial na mensagem de Paulo sobre o mistério do homem, o padre Mário de Sousa, explicou também porque é que Paulo defende que “a criação de Adão é inferior à criação realizada por Cristo”, garantindo que só em Cristo, verdadeira imagem de Deus, é que podemos recuperar aquilo que, foi perdido pelo pecado, e nos tinha sido dado na origem – a característica de sermos imagem de Deus –, porque “na medida em que estamos ligados a Cristo e Cristo a nós, reproduzimos a imagem do Filho de Deus”. “Cristo, o «novo Adão», vem dar ao homem a possibilidade estragada no paraíso”, afirmaria mais à frente. O conferencista deixou claro que, para São Paulo, “a pessoa que foi salva por Cristo já não se pertence a si mesma”, “o corpo já não é seu enquanto representação da pessoa, porque agora vive numa representação nova, uma identidade relacional com a pessoa de Jesus”. “No nosso eu está presente o mistério de Deus em Jesus, por isso, um dia, o nosso eu será ressuscitado”, fundamentou, lembrando que “Paulo fala muito do corpo como uma realidade marcada pelo pecado”. “Paulo não fala apenas da morte física, mas da morte espiritual no pecado”, justificando que “enquanto corpo, o homem encontra-se num âmbito em que não há salvação”. Neste sentido, “na realidade ressuscitada, o homem continuará a existir como corpo, ou seja como pessoa, mas não como carne”, defende Paulo, para quem “não há lugar para a ressurreição da carne”, mas apenas “para a ressurreição da pessoa, do corpo”. “Para Paulo esta transformação do corpo mortal em corpo glorioso trata-se de um milagre, um mistério realizado por Deus. É nesta transformação que consiste a nossa ressurreição”, elucidou o padre Mário de Sousa. Avançando na sua intervenção, o conferencista demonstrou como para Paulo “a fé nos cristãos é um elemento determinante da consciência”, porque é uma espécie de “opção fundamental” para a sua vida. “A nossa relação com Cristo é a opção fundamental que ilumina todas as outras opções que temos de tomar, ao longo da vida, em consciência. Quando a presença de Jesus em mim é a opção fundamental do meu viver, então necessariamente todas as outras opções que vou tomando estão determinadas por esta opção fundamental. Por isso, não é necessário haver lei, porque a única lei dos cristãos é o amor, a relação com Deus. Por isso, a fé aparece como princípio iluminador da consciência dos cristãos”, justificou. O apóstolo convertido, que destaca o coração como “o lugar privilegiado porque o lugar central do nosso viver, para a nossa relação com Deus e com os irmãos”, explica assim que “a verdadeira «circuncisão» não se dá num membro exterior do corpo, mas no coração” porque é ali que acontece “a experiência interior da presença de Deus”. Por outro lado, o sacerdote algarvio salientou que “Paulo utiliza a expressão espírito para expressar a relação íntima que existe entre o espírito humano e o espírito divino”, “o facto de que, ao ser cristão, o espírito humano está marcado pelo espírito divino”, “a partir do momento em que adere a Cristo”. “Os diferentes termos que Paulo utiliza para falar do ser humano acabam por se sobrepor, mas o que pretende é mostrar a existência humana marcada pela riqueza daqueles que, aderindo a Cristo, transformaram o seu ser e estão destinados a uma outra ordem para além da meramente terrena”, explicou o conferencista, salientando que “Paulo contrapõe duas realidades: viver segundo a carne, segundo as coisas naturais e físicas, e viver segundo o espírito divino que habita em nós”. “O homem, por si só, não tem possibilidade de se salvar da situação natural. É preciso que venha um Salvador que o puxe desta realidade”, sublinhou. Enfatizando novamente a ruptura de pensamento protagonizada na época pelo convertido de Damasco, o padre Mário de Sousa lembrou que “os judaizantes (judeus convertidos ao Cristianismo) pensavam que para se tornarem membros deste povo justificado tinham de cumprir a lei”, algo que seria fruto do seu empenho e acção. Paulo, no entanto, vem garantir que não, pois “somos salvos e justos em Jesus”, afirmou. Aproximando-se do final da sua intervenção, depurou o essencial do pensamento paulino. “O homem, que pela sua natureza está destinado à morte, na medida em que adere a Cristo, através da fé, cujo sinal visível é o Baptismo, entra numa nova dimensão: começa a participar e a beber de tudo aquilo que Cristo é”, sublinhou o padre Mário de Sousa, considerando que “a partir do momento em que fomos enxertados em Cristo e bebemos de tudo o que Cristo é, já estamos ressuscitados”. “A nossa ressurreição não acontece apenas depois da nossa morte, porque já estamos a viver a eternidade recebida pela nossa ligação ontológica com a pessoa de Jesus, no entanto aquilo que havemos de ser ainda não se manifestou completamente. E isto é acção de Deus”, salientou, extraindo algumas conclusões. “Nós não somos filhos de Deus. Enquanto nascemos, fisicamente, somos apenas criaturas de Deus, porque o único Filho de Deus é Jesus e por isso somos filhos de adopção, na medida em que, agregados a Cristo, recebemos de tudo aquilo que Cristo é. E é enquanto baptizados, vivendo nesta relação com Ele em que já recebemos as coisas, mas não ainda em plenitude, que havemos de receber a vida eterna”, concluiu, justificando que este pressuposto significa que “Paulo não concebe a ressurreição dos que não acreditam em Cristo”. “A ressurreição é um dom de Deus, que Deus oferece, mas não obriga”, afirmou, deixando claro que este pensamento de Paulo, “embora fundamental, não é o único” no contexto teológico da Igreja. Mais fotos, brevemente na Galeria de Imagens