O padre Joaquim Nunes, representante da Igreja Católica, começou por clarificar, perante professores, alunos e outras pessoas presentes, que aquele encontro não se enquadrava no âmbito do diálogo inter-religioso, possível somente com a participação de outras religiões para além da cristã, o que não se verificava por estarem presentes apenas confissões cristãs, limitando assim a iniciativa ao nível do diálogo ecuménico. O sacerdote, que lembrou a comunhão das três Igrejas presentes no âmbito da sua participação no Conselho Mundial das Igrejas, reconheceu que “a hierarquia católica demorou muito mais tempo para experimentar esta adesão” ao diálogo ecuménico, iniciado muito antes por cristãos da Bélgica, Inglaterra e Alemanha em resultado de uma experiência de vida comum entre pessoas de diversas confissões cristãs. “Chegaram à conclusão que havia muito mais em comum dos que os conflitos”, elucidou o sacerdote. Em representação da Igreja Ortodoxa Romena, o padre Ioan Gherbovetchi, destacou o grande entendimento já existente entre a Igreja a que pertence e a católica. “Podemos falar em fraternidade”, considerou mesmo o sacerdote, testemunhando que, quando chegou a Portugal a Igreja católica foi “muito aberta”, facultando-lhe inclusivamente uma igreja onde celebrar. “Isto advém da catolicidade das Igrejas”, considerou o padre Gherbovetchi, justificando a afirmação: “a Igreja católica tem a denominação de católica, mas nós, ortodoxos, somos igualmente católicos, embora com uma denominação ortodoxa. A catolicidade é a mesma”. “No início éramos a mesma Igreja que se dividiu devido a causas que conhecemos. Foi algo humano. Mas se seguirmos o mandamento de Deus devemos unir-nos novamente”, acrescentou o sacerdote, considerando que a separação “deve acabar” por ter sido causada por vontade dos homens e não de Deus. Como exemplo do entendimento entre católicos e ortodoxos, já possível no tempo presente, apontou a comunhão vivida no contexto do Movimento dos Focolares que é aberto também a outras religiões. “Se pensarmos nas diferenças nunca conseguiremos unificar-nos, mas se pensarmos no que nos une vamos conseguir com certeza”, advertiu, admitindo contudo que possam existir ainda “interesses em manter a separação”. Também o pastor Mário Ribeiro, da Igreja Evangélica Baptista do Portimão, que fez questão de frisar que não participava em representação das Igrejas baptistas, mas apenas representava a sua comunidade, apelou à necessidade de “esquecer as diferenças” em nome do “essencial” que já une os cristãos das diversas confissões, pese embora haja “diferenças” no “corpo doutrinal teológico” e na “praxis dessa mesma teologia”. Como entrave à definitiva implementação da unidade, os intervenientes destacaram sobretudo os medos ainda existentes de parte a parte. “Medo de que uma Igreja poderá aniquilar a outra”, apontou o pastor Mário Ribeiro, ou o medo de que o diálogo ecuménico possa “descaracterizar” a identidade de cada confissão como confirmou o padre Joaquim Nunes, considerando “absurda” essa linha de pensamento. E porque o caminho ecuménico não tem sido feito só de avanços, o pastor Mário Ribeiro lembrou que “há reacções muito violentas de todas as partes”. “Dentro da Igreja católica há pessoas que não aceitam o ecumenismo como também dentro das Igrejas evangélicas”, lamentou, constatando que “há sempre pessoas que olham que as diferenças também são importantes e, ao evidenciar as diferenças, entram em choque”. Neste sentido, o padre Joaquim Nunes testemunhou que “o caminho deste diálogo tem sido difícil, às vezes doloroso, muito complicado e palavroso no que respeita ao descobrir da palavra certa”. Pese embora, as dificuldades de entendimento com evangélicos, sobretudo ao nível de alguns dos dogmas e tradições das Igrejas católicas e ortodoxas, ficou claro que se a aproximação for feita com base nos pressupostos da Sagrada Escritura (Bíblia), de Cristo e do amor para com os outros, a unidade será uma realidade. E porque a unidade pode estender-se a outros quadrantes, o padre Joaquim Nunes garantiu que “há possibilidade de entendimento ao nível de diálogo com outras religiões em relação a grandes desafios do homem, como a paz, a justiça ou a solidariedade”, desde que não estejam presentes “os medos que os fundamentalismos acarretam”.