Sexta-feira 20 de Setembro de 2019
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«SER CRISTÃO NA SOCIEDADE AQUI E NO FUTURO»

Foi um Bispo, um grande Pastor da Igreja, que contrariamente ao que os seus detractores propagandeavam nunca fez política, nem jamais se meteu nesses meandros, mas que fiel ao seu ministério espicopal de pastor e mestre da fé, fez da Doutrina Social da Igreja, entre nós adormecida na poeira dos compêndios, letra viva, aplicando-a à vida concreta da sociedade portuguêsa do seu tempo. Muitos dos seus contemporâneos, traumatizados ainda pelas perseguições à Igreja promovidas pela “Primeira República”, julgavam-se eternos devedores à paz podre que lhes era proporcionada pelo Estado Novo e por isso não ousavam afrontá-lo, contemporizando e incensando até o ditador de Santa Comba. D. António, pelo contrário, fiel ao princípio “de joelhos diante de Deus, de pé diante dos homens”, denunciou nas suas homílias e intervenções, sempre e só fundamentado no Evangelho e na Doutrina Social da Igreja, as injustiças sociais, a miséria do mundo rural, especialmente do Alentejo, o­nde por quatro anos foi Bispo de Portalegre e Castelo Branco, a exploração dos operários, a falta de liberdade dos cidadãos, a ausência da participação democrática. O seu pró-memória para uma entrevista, é um tratado de lucidez sobre o futuro de Portugal, sem deixar de ser correcto e até cortês para com o seu destinatário, nunca se afastando minimamente da perspectiva e das preocupações próprias de um pastor da Igreja. Mesmo assim, nada pôde aplacar a fúria do ditador afrontado, que não descansou enquanto não conseguiu atrair o Bispo do Porto para uma cilada que o conduziu para o exílio, sob o pretexto de ir passar umas férias ao estrangeiro… Seguiu-se o martírio do exílio, a que foi condenado sem julgamento prévio, vivendo dez anos longe da Pátria e do governo pastoral da sua Diocese e aqui a palavra martírio é própria e não meramente uma analogia, bastando lembrar que foi impedido pela PIDE de entrar no País para acompanhar a mãe à sua última morada. E viviamos nós sob um governo que se pretendia cristão e muito amigo da Igreja… Depois de regressar do exílio ficaram célebres e constituem verdadeira antologia doutrinal, as suas homílias do Dia Mundial da Paz, proferidas no primeido dia de cada ano, quer no período que antecedeu o 25 de Abril, quer nos conturbados anos que se lhe seguiram. A Diocese do Porto e a Fundação SPES celebraram o centenário do nascimento de D. António Ferreira Gomes com a realização de um Congresso Internacional subordinado ao tema «Ser cristão na sociedade aqui e no futuro». É disso que se trata e esse é o interesse da evocação que sentidamente aqui fazemos. Com ele, que foi «meu bispo» desde que nasci até quase vir para o Algarve, e com muitos dos seus padres, vários dos quais foram e são aliás como ele, grandes bispos, aprendemos a ser cristãos com os pés bem assentes na terra e o coração projectado na eternidade. Durante os trabalhos daquele Congresso o Bispo emérito de Setúbal e Presidente da Fundação SPES, declarou que “D. António é essencial para quem quer ser do seu tempo. Que não passe distraído por este mundo, que mergulhe na vida, que se esforce por ler os sinais dos tempos” e o Secretário da Conferância Episcopal Portuguêsa, D. Carlos Azevedo, testemunhou em síntese admirável que “a figura do Bispo Portuense é emblemática devido à sua fidelidade para com a doutrina social da Igreja tendo desde sempre lutado por um regime de liberdades ordenadas… Homem livre, configurando a liberdade em referência ao Absoluto, defende os direitos humanos em tom profético, com intransigência de génio”. Esta referência da liberdade ao Absoluto, salientada por este jovem Bispo da “escola episcopal de D. António” fez-me recordar um feliz trocadilho de palavras, proferidas aquando da atribuição de uma comenda: Em 1976, foi o Senhor D. António agraciado pelo Presidente da República, General Ramalho Eanes, com a Ordem da Liberdade e em 1982, quando resignou, foi novamente condecorado, agora com a Ordem Militar de Cristo. Jogando com o nome das condecorações e com a cronologia da sua atribuição, o Bispo do Porto disse então, brincando, mas brincando ensinou algo de muito profundo, que a ordem da atribuiçao das comendas havia sido trocada, porque “primeiro Cristo e depois a liberdade”! Como que a ensinar-nos que a liberdade de que foi heróico profeta decorre de Cristo e de nada mais. Homem da filosofia, doutorado pela Universidade Gregoriana, D. António retirou de um salmo o seu lema episcopal: «Na Tua Luz veremos a Luz». Foi à difusão dessa Luz, da Luz de Cristo e de mais nenhuma outra luz, que este nosso irmão Bispo, consagrou inteiramente a sua vida, a sua grande inteligência, a sua alta e vasta cultura.

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