FOLHA DO DOMINGO – Olhando para trás, que avaliação fazem do vosso percurso vocacional? Flávio Martins – O que posso fazer é dar graças por aquilo que Deus foi realizando no meu caminho ao ver que em todos os momentos Deus fez-se presente, principalmente nos mais difíceis. Se Deus não se tivesse feito presente, se calhar hoje não poderia dar essa resposta. Mas porque Deus se fez presente é que respondo sim e avanço, com algum temor e com alegria, nesta decisão. Pedro Manuel – Quando olho para trás recordo o dia da minha entrada no seminário, há quase 11 anos, na véspera de completar 14 anos. E olhando para toda a minha vida procuro encontrar sempre esta presença de Deus de modo efectivo e encontro-a também naqueles momentos em que parecia que Ele não estava. Vejo que não houve nunca um abandono, mas sempre uma presença e foi essa presença que, na altura da minha ordenação diaconal, me fez dizer, em conjunto com o Flávio: “Dou graças Àquele que me tornou digno deste ministério”. É essa presença que reconheço ao longo dos momentos mais altos e mais baixos que hoje me faz dar graças a Deus pelo convite que o Senhor faz: “Já não te chamo servo, chamo-te amigo”. Reconheço que ao longo dos meus 24 anos de vida houve este permanente estar do Senhor comigo. O Senhor que me foi ensinando as coisas do Pai e que hoje me convida a ser verdadeiramente seu amigo. Não é um momento de ilusões. É um momento em que, com a lucidez daquilo que vamos celebrar e a com alegria que nos inunda o coração, podemos dizer ao olhar para trás: o Senhor não passou apenas na minha história, o Senhor viveu a minha história comigo. Quando olho para trás nasce no meu coração um sentimento de acção de graças. FD – Falaram em momentos difíceis. Conseguem identificar essas dificuldades? FM – Sim, os momentos mais positivos e aqueles que, não sendo positivos, nos ajudaram a crescer e a tomar consciência dessa presença de Deus. PM – Quando olho para isso, gosto de recordar uma frase de Bernanos – “Se não conhecêssemos o pecado, como poderíamos conhecer a graça?” – que é iluminadora para todas as fases da nossa vida. Se não conhecermos o que é não ter e não ser, como poderemos conhecer verdadeiramente o que é o ter e o ser. E na minha história pessoal consigo identificar aqueles momentos em que se calhar a resposta prática seria o abandonar do processo formativo. Recordo que no 4ª ano de Teologia passei por uma terrível crise de fé. Foi essa descida àquela história mais negra que por vezes não gostamos de lembrar que me fez verdadeiramente perceber que também aí esse silêncio aparente de Deus era empático. Deus estava comigo à espera que eu O reconhecesse. FD – Diácono Flávio, quando entraste para o Seminário abdicaste de um projecto de vida já estruturado… FM – Sim. Fiz uma vida normal como qualquer jovem da minha terra. Estudei nas escolas públicas e aos 15 anos fiz um Curso de Árbitro de Futebol de 11. Estive durante 5 anos na arbitragem, continuei a estudar, não entrei logo na Universidade quando terminei o 12º ano. Nesses anos em que estive na arbitragem e simultaneamente envolvido na paróquia foi surgindo a inquietação. Optei então por deixar a arbitragem e entrar para o Seminário com 21 anos. FD – Estavas a pôr seriamente a hipótese de seguires a carreira profissional de árbitro de futebol? FM – Sim, mas conjuntamente com outra ocupação. Aspirava a ser árbitro da 1ª liga. Quando entrei para o Seminário estava em segundo lugar para subir ao nacional, o que significa que iria às provas de acesso. No entanto, decidi não fazer as provas e entrar para o Seminário. Como os meus pais não praticavam não foi fácil conciliar tudo. Hoje dou graças a Deus porque eles estão contentes porque o filho também está feliz. A minha mãe já participa. O meu pai ainda não, mas não tenho pressa em que ele participe já. E sempre me respeitaram e apoiaram na decisão que tomei. FD – Diácono Pedro, como foi com a tua família? PM – Fui para a catequese e aproximei-me bastante da paróquia através do grupo de acólitos em que me inseri aos 9 anos. Foi neste contexto que o meu pároco me convidou para vir para o Pré-seminário. Aceitei porque gostava imenso de relações sociais e do convívio, mas como queria ser médico a possibilidade de entrar no Seminário estava à partida posta de parte. Inseri-me ainda mais na paróquia e neste contexto a minha mãe começou também a integrar-se. Nesta altura convidaram o meu pai para um curso de cristandade e aí deu-se um volte face substancial na prática da minha família. Acredito que os meus pais desconfiassem que eu pudesse entrar no Seminário. A minha mãe aceitou naturalmente, nunca me disse para ir ou para não ir. Ao meu pai talvez lhe tenha custado um pouco mais, mas é curioso que nunca ouvi da sua parte qualquer reprovação. Sempre senti um apoio total na concretização da minha felicidade. Relativamente aos meus irmãos, apesar de ambos não serem na altura praticantes, o meu irmão aceitou com naturalidade, mas a minha irmã custou-lhe muito mais e na primeira hora nunca se convenceu de que eu algum dia pudesse vir a ser padre. Senti até da parte dela alguma relutância em aceitar, embora não tivesse sido uma oposição clara. Por um lado, joga-se aqui o amor que a família tem àquele que vê partir e, por outro, a vontade natural que a família tem de ver aquele que é seu, feliz. Quando acontece essa felicidade, a família faz cair todas as barreiras e passa a aceitar, ainda que não compreenda, o que pode ser uma forma de expressar a sua fé. FD – Conseguem identificar um momento concreto como aquele que terá marcado a vossa decisão? FM – Lembro-me que, durante parte do 3º e 4º ano, vivi um tempo de uma grande provação. Para mim, viver no Seminário naquela altura era quase penoso. O 5º ano, após um retiro de uma semana que fizemos depois da minha participação na Jornada Mundial da Juventude (JMJ) em Colónia (Alemanha), foi um ano diferente. Se calhar estas experiências abriram-me os “olhos” do coração. Sei que a partir desse ano disse: “é por aqui que vai a minha vida”. O ano passado foi para mim também um ano decisivo quando estive a trabalhar na pastoral na paróquia matriz de Portimão. Fui assumindo diariamente esta vontade de entregar a minha vida e de dizer: quero ser padre. A ordenação do padre Joel foi para mim um impulso a dizer sim. Tinha vivido todas as outras, mas o que vivi naquele dia não o consegui exprimir. Tocou-me e fez-me avançar. Nos momentos em que estamos a decidir Deus fala. Lembro-me que em Portimão, sempre que rezava, sentia um apelo a que desse a minha resposta. Este ano, também o trabalho em São Pedro continua a alimentar o meu desejo de ser padre. FD – A participação na JMJ teve alguma influência na tua decisão? FM – Eu acho que acabou por ter. Porque todo o ambiente de peregrinação que se vive numa JMJ propicia à decisão e a mim ajudou-me bastante. Essa peregrinação tocou-me particularmente. FD – Diácono Pedro, ainda relativamente à anterior questão, consegues identificar um momento concreto como aquele que terá marcado a tua decisão? PM – É muito fácil dizer àqueles com quem gastamos a vida que queremos ser padres, mas é muito mais complicado dizermos a nós próprios que já sabemos que queremos ser padres. Recordo, quando estava no 4º ano e passei pelo tal momento de crise, que um dos aspectos em relação ao qual eu tinha alguma curiosidade era a vida missionária. E falei disso muitíssimas vezes com o meu director espiritual. Nesse contexto quis tomar algum conhecimento do que era a vida missionária e lembro-me que, quando estive em Angola, percebi verdadeiramente que o meu lugar era ser padre na Igreja, mas na minha Igreja diocesana. Também a partir da experiência de estágio na paróquia de São Pedro, em contacto com o povo de Deus, com a pastoral e com a Igreja, fui tendo a certeza de que esta era a minha vida. FD – Essas experiências que fazem nas paróquias são então muito importantes… FM – Sim, porque recebemos muita teoria, mas quando contactamos com a prática é totalmente diferente… PM – Também aqui percebemos que a teoria está muito aquém da prática… FD – Que significado tem para vós o passo que ides dar? FM – Tem um significado muito grande e é uma grande responsabilidade, mas ao mesmo tempo uma grande alegria. Sentimo-nos tão pequenos diante da imensidão do mistério que acabamos por nos deixar tocar e levar pelo Pai. É um passo importante para a minha vida porque a partir desse momento ela muda. Passa a ser uma outra vida. Mas conjuntamente com essa responsabilidade toda, sinto uma grande alegria em puder dar o meu sim, sabendo que Deus, apesar da minha fragilidade e limitação, continua a contar comigo para tornar presente o seu projecto de salvação aos homens. PM – Essa é uma pergunta complicada porque confunde o nosso coração com a nossa certeza. Aquilo que sinto neste momento é a maior alegria que senti ao longo de toda a minha vida. Para mim ser padre é extraordinário. É a concretização da maior alegria que Deus pode dar ao homem, para que este a retribua aos seus irmãos. É ser todo em todas as partes com aquilo que sou totalmente. Ser padre faz-me tentar (apesar de já me esforçar por isso) ser outro Cristo, que se aproxima dos mais pobres e fracos e que para eles tem uma palavra de amor. Ninguém imagina o que vive uma pessoa depois de ordenada, nem antes da ordenação. É verdadeiramente a natureza humana a sentir que mão de Deus está a envolvê-la. FD – Vão ser pessoas diferentes dia 12 de Maio? FM – Se por um lado passaremos a ser um outro Cristo, por outro lado continuaremos a ser as mesmas pessoas. Continuaremos a viver a nossa vida e a nossa história. PM – A diferença aqui não será a diferença daquilo que é habitual. Não poderei não ser diferente. É óbvio que será a continuidade da minha pessoa, mas será também a sublimação da missão. É que a missão que me vai ser entregue não me poderá deixar indiferente. A partir da ordenação passaremos a ser na vida o próprio Cristo que age. FD – Como projectam o vosso ministério para o futuro? Em que áreas gostariam de trabalhar? FM – Farei o que me for pedido. Mas vejo-me no contacto com os outros, sendo pároco. Gostava de me ver a exercer o meu ministério no contacto com um povo e com uma realidade concreta. Gosto também muito de trabalhar na liturgia, mas também noto que há urgências às quais devemos responder e uma delas é o catecumenado de adultos. PM – No dia da ordenação o senhor Bispo pergunta-nos: “promete-me a mim, e aos meus sucessores, obediência e reverência?” e nós respondemos: “prometo”. É uma afirmação que parte do coração e que significa que a nossa vida, a partir daquele momento, está alheada dos nossos critérios pessoais para passar a ser o sentir da Igreja. É essa a minha perspectiva. Nesse contexto acho que aquele que é ordenado coloca-se necessariamente na disponibilidade. Acho que devemos estar permanentemente com o coração disposto para o serviço. Eu neste momento estou livre para evangelizar. Acho que o trabalho pastoral e a evangelização é sempre a prioridade da Igreja. Sinto-me com muita vontade de me entregar em qualquer dimensão da vida pastoral. FD – Tendo em conta o actual contexto de diminuição das vocações, que mensagem deixariam aos jovens que se questionam acerca da sua vocação? FM – Primeiro: não nos podemos esquecer que Deus sabe as vocações que são necessárias. Segundo: não nos podemos esquecer que foi Jesus que nos pediu que rezássemos ao Senhor da Messe para que enviasse operários para a Messe. Aos jovens relembro aquela frase do Papa Bento XVI: “Cristo não tira nada, Cristo dá tudo”. Não direi que os jovens estejam desinteressados, direi antes que os jovens não conhecem. Ou porque não se lhes dá a conhecer, ou porque eles também têm medo de procurar. Se há vontade de perceber o que Deus quer fazer da sua história, o melhor é procurar uma resposta neste Cristo que preenche a vida de uma outra maneira. Acredito que os jovens da nossa diocese não estão esquecidos, mas penso que temos de ter a coragem de os interpelar e falar-lhes directamente ao coração. PM – O capítulo 18 de São Lucas diz o seguinte: “todo aquele que deixar pai e mãe, irmãos, irmãs ou filhos não perde nada, mas ganha tudo e recebe muito mais nesta vida e na vida eterna”. Esta é uma realidade que eu, neste momento, percebo totalmente na minha vida. É uma realidade que deve justificar a alegria da consagração de qualquer pessoa. “Hoje, se escutardes a voz do Senhor, não fecheis o vosso coração”. Este hoje é o hoje da nossa história. Quando um jovem escutar essa voz que o deixa inquieto, que não lhe feche o coração. O importante é que lhe dê a resposta, que pode ser sim ou não. Se verdadeiramente aderimos a Cristo, que o façamos com alegria e que o nosso testemunho seja o de pessoas felizes.