Folha do Domingo – Olhando para trás que balanço fazes do teu percurso vocacional? Diácono Miguel Neto – Obviamente que é um balanço positivo, caso contrário não iria ser ordenado no dia 7 de Dezembro. Descobri, ao longo do meu percurso vocacional, a vontade de Deus a meu respeito. A tua vida alterou-se… Alterou-se em relação ao que sonhei até aos 16 anos e alterou-se agora devido à missão que vou assumir. Uma pessoa, para escolher um caminho, tem de abdicar de outros e isso altera a vida. Com 16 anos, resolveste entrar no Seminário. Porquê? Porque queria descobrir o que é que Deus queria de mim e também porque senti, nessa altura, que queria algo maior para a minha vida. Não queria apenas realizar aquilo que quer a maioria das pessoas. Quando entrei no Seminário não ambicionava ser padre, não tinha a certeza do caminho que queria percorrer, mas sabia que Deus me chamava a alguma coisa especial e sabia que o Seminário era o lugar onde eu poderia descobrir o que Deus queria de mim. Ao longo do percurso fui tendo altos e baixos na minha relação com Deus, mas as coisas foram-se definindo. E na altura o que achou a tua família da tua decisão? A minha família sempre teve uma postura neutra em relação à minha caminhada vocacional. Costumo dizer que a minha família é uma família “anormalmente” normal. Não quero dizer com isto que seja uma família perfeita, mas os meus pais e irmãos sempre me apoiaram nas minhas decisões. Não me forçaram nem a continuar, nem a sair do Seminário, apenas desejavam que eu fosse feliz. Se essa felicidade passasse pelo ministério sacerdotal ficariam igualmente felizes, mas se não passasse ficaria felizes de igual forma. Apesar disso, lembro-me que houve algumas questões. Embora a minha família seja de prática dominical, lembro-me que a minha mãe, que é a cristã mais fervorosa, apresentou uma vez alguma resistência. Não pelo facto de não querer que eu fosse padre, mas por não querer que eu sofresse com alguns problemas que afectam os sacerdotes por estarem mais sujeitos à crítica e à incompreensão da sociedade. Isso, até certo ponto, perturbou a minha mãe. A experiência em Timor foi um tempo de paragem e de reflexão. É esse momento que marca a tua decisão definitiva de avançar rumo ao sacerdócio? Não. Quando fui para Timor já tinha a convicção no meu íntimo, ainda que não a revelasse a ninguém, de que a minha vida passava pelo ministério sacerdotal… No entanto resolveste passar mais algum tempo a reflectir sobre o assunto. Não só a reflectir, mas também a pensar no que seria a minha vida a partir do momento em que assumisse integralmente o ministério. Fui de livre vontade para Timor porque achava que serviria melhor a diocese como presbítero fazendo uma experiência missionária como a que fiz. Porquê? Porque ficaste mais sensibilizado para a dimensão missionária da Igreja? Não só. Também para a dimensão universal da Igreja. O facto de ter de sair da minha diocese e do País, indo para uma realidade completamente estranha, tendo de me inculturar, e reiniciar a minha vida ao nível das relações pessoais, suscitou em mim uma capacidade de adaptação que eu não tinha e que sabia ser importante para o exercício do ministério. Foi então que disse ao senhor Bispo do Algarve, D. Manuel Quintas, que, indo algum tempo para Timor, serviria depois a Diocese do Algarve muito melhor do que aconteceria se tal não acontecesse. Foi uma forma de “limar algumas arestas” na minha personalidade. Por outro lado, o distanciamento físico do lugar onde eu iria entregar a minha vida ajudou-me a ter um olhar mais lúcido em relação ao que poderia ser o exercício do meu ministério, tendo em vista, por exemplo, a minha forma de actuar em relação aos problemas que me pudessem ser apresentados. Ajudou-me também a ser uma pessoa mais desprendida de muita coisa, a ter uma visão mais global e universal do mundo. Não tendo sido Timor o ponto de viragem da tua decisão vocacional, consegues identificar algum outro ponto que o possa ter sido? Não há um momento único de experiência de Deus, mas vários. Lembro-me que antes de ir para o Seminário de Évora também tive um ano de paragem que me possibilitou, por várias vezes, aperceber-me da falta de evangelização das pessoas e que as mesmas tinham necessidade de conhecer o amor de Deus. Lembro-me de um retiro que fiz no meu segundo ano de Teologia em que decidi verdadeiramente que queria entregar a minha vida totalmente ao serviço de Deus. A experiência de Timor, também não posso dizer que não tenha sido forte. Por outro lado, o contacto pastoral, com a realidade, em Monchique e em São Pedro também me ajudou a descobrir a alegria da vivência do ministério. Quando ainda estava no Seminário menor, em Faro, lembro-me que a vivência das Semanas Santas, na Catedral, também eram muito intensas. Vivi muito a minha primeira Sexta-feira Santa e senti, que a partir daquele momento, havia pequenos sinais de Deus na minha vida que me diziam que Ele estava comigo e o que queria de mim. Agora já diácono, que significado tem o derradeiro passo rumo à ordenação presbiteral? Tem um significado enormíssimo. É uma coisa pela qual eu anseio há muito tempo. E o facto de ter completado um percurso bastante lento, desde o terminar do curso de Teologia até agora, com 4 ou 5 anos pelo meio, não quer dizer que eu não desejasse ardentemente ser ordenado presbítero. Sinto que vou ser ordenado no momento certo da minha vida, em que poderei exercer o ministério com a serenidade e sensatez e com capacidades que, se calhar, não teria se tivesse sido mais cedo. Tem um grande significado. A partir da ordenação, eu e Deus, na celebração da Eucaristia, seremos um só. Dá-me uma alegria imensa exercer o ministério de diácono, mas estou convicto de que a alegria de exercer o ministério presbiteral ainda será maior. Em relação ao futuro, como é que projectas o exercício do teu ministério? Tens alguma área em que gostasses de te dedicar com mais empenho? Obviamente que há aspectos para as quais eu sinto que estou mais capacitado. A partir do momento em que for ordenado presbítero deixo de ter objectivos pessoais para a minha vida. As minhas ambições passam a ser as da Diocese do Algarve e aquilo que o nosso Bispo me pedir tentarei fazer o melhor que puder, como já acontece. Há coisas para as quais me sinto mais talhado e o senhor Bispo sabe disso, pois já temos conversado. Verdadeiramente, o meu objectivo pessoal é fazer a vontade de Deus. Gostava de ser como padre aquilo que tenho sido até agora. Procurarei ser um padre simples, humano e próximo das pessoas. É assim que tento ser todos os dias. Acima de tudo, procurarei mostrar aos outros o amor de Deus e Deus não se quer longe e afastado das pessoas, mas próximo e semelhante a cada um de nós. Em qual dos sectores é que te vês mais à vontade: na pastoral litúrgica, sócio-caritativa ou profética? Sem dúvida no sector da pastoral litúrgico-profética, mas eu farei aquilo que me for pedido. Tendo em conta a diminuição das vocações ao sacerdócio… Essa foi também uma sensibilidade muito importante que contribuiu para a minha decisão. O cónego José Pedro Martins, quando era reitor do Seminário Menor, gostava de mostrar-nos a serra algarvia. E lembro-me que uma vez, em Cachopo ou Martinlongo, estava um sacerdote já muito idoso. Na altura, o cónego José Pedro Martins disse-nos que quando aquele sacerdote falecesse não saberia se haveria algum outro para o substituir. Essa realidade sensibilizou-me, na altura, para a falta de sacerdotes e foi um aspecto que, ao longo do meu percurso, teve também uma grande importância. Tendo em conta essa realidade que a nossa diocese também vive, apesar de algo atenuada nos últimos anos devido às ordenações que têm ocorrido, que mensagem gostarias de deixar aos jovens que possam eventualmente estar a ponderar a questão vocacional? Em primeiro lugar, gostaria de deixar uma frase do Evangelho, usada inúmeras vezes pelo Papa João Paulo II: “Não tenhais medo”. Medo de arriscar e medo dos preconceitos, que ainda existem muito, em relação à vida de um padre. Muitas vezes ainda se olha para um padre como se fosse um extraterrestre, alguém fora do normal. Arrisquem e tentem, porque se derem uma hipótese a Deus, Ele não vos desiludirá. Pelo menos dêem-Lhe uma oportunidade para que possam descobrir o que Deus quer de vós. O que se passa é que muitas vezes nem sequer damos qualquer hipótese a Deus e voltamos-Lhe as costas, pois até temos medo nos colocarmos de frente para Ele, não vá Deus pegar-nos. Demos uma hipótese a Deus, pois Ele ajudar-nos-á a ultrapassar as dificuldades. Costumo dizer aos jovens que estamos a um passo da mediocridade ou da graça e esse passo somos nós que temos de o dar.