A deputada independente do PS advogou que a “incapacidade de ler os sinais das evoluções” e o individualismo determina a intervenção feita que, por vezes corre o risco de não ser ela própria muito cristã, defendendo que “a satisfação do bem comum implica a construção de uma rede de condições sociais”. “Só em rede é que podemos satisfazer às necessidades diversas de todos”, advogou. Considerando o “princípio da solidariedade” como o “mais construtivo de fazer a intervenção”, por ser “aquilo que determina uma sociedade justa e solidária”, Maria do Rosário Carneiro definiu a solidariedade, não como uma resposta pontual para ocorrer a calamidades, mas como trabalho constante que só feito dessa forma poderá permitir a organização em rede. “A solidariedade é um dever de consciência de ser-se cidadão, sendo cidadão o que participa de forma solidária”, classificou, considerando que “o voluntariado é a expressão mais sublime da cidadania”. “É bom haver um quadro normativo que o enquadre e delimite áreas de intervenção, que delimite alguma protecção que é necessário pensar relativamente a esta actividade, mas o voluntariado não intervém porque os normativos legais dizem que ali vai intervir o voluntariado, apesar disso acontecer já em muitas das áreas pensadas para intervenção social”, clarificou. Considerando que “ser solidário significa renunciar quando é necessário fazê-lo para satisfazer as necessidades dos outros” e que “para se interagir e conviver com os outros tem de se renunciar”, a deputada classificou a renúncia como “a forma mais eficaz contra a avidez e a ganância”. “A sede de resultados ilimitados é um dos travões mais atrozes ao desenvolvimento sustentado. A incapacidade do limite é a impossibilidade das nações contribuírem para a construção da paz. Não se pode contribuir para a construção da paz com assimetrias tão profundas. Esta incapacidade por avidez do poder, de protagonismo, de estar à frente, é inibidora da construção do bem comum e do exercício da solidariedade”, conclui. Maria do Rosário Carneiro lembrou que “o voluntariado traduz-se pela gratuitidade”. “É-se solidário também nesta perspectiva, e por isso é que ela é cristã, porque se ama o outro. Este é o grande imperativo que define a intervenção cívica dos cristãos. Somos compelidos a intervir sempre porque esse amor é o mandamento”, complementou, justificando que “somos todos responsáveis uns pelos outros”. “Esta é a grande interpelação à intervenção. Somos particularmente responsáveis por aqueles que estão mais abandonados, mais pobres. Somos igualmente responsáveis pelas questões ambientais e pelas gerações futuras”, acrescentou. Defendendo que “a participação é a única garantia da democracia”, a conferencista lembrou que não há sociedades democráticas e eficazes sem participação. “A cidadania é um direito, mas simultaneamente um dever, porque a construção da sociedade exige a participação de cada um de nós. Por cada um que não participa a sociedade fica mais pobre e a resposta é mais insuficiente”, salientou. Sem resposta para a pergunta que lançou – “de quantos anos precisaremos para erradicar a pobreza?” –, a oradora deixou uma outra certeza. “Se não formos persistentes nas campanhas de solidariedade para erradicar a pobreza, do ponto de vista da acção e das políticas concretas, nunca se erradicará”, afirmou. Criticando o chamado relativismo ético, a deputada mostrou que segundo este conceito, “a dignidade humana ganha uma perspectiva muito relativa”. Voltando à articulação do trabalho social, Maria do Rosário Carneiro explicou que “amar, no plano social, é trabalhar em rede”. “Trabalhar em rede significa organização e estrutura, isto é renúncia”, relacionou, acrescentando que “não basta que se constitua um modelo de resposta”. “É necessário ajustar a oferta à procura”. “Só agindo rapidamente é que a resposta pode ser adequada”, concretizou. Maria do Rosário Carneiro elucidou ainda que a “capacidade de amar no plano social significa «ver» com o coração”. “Ter capacidade de se colocar no lugar do outro. Se não temos capacidade de nos colocar do outro, aquilo que lhe propomos raramente corresponde àquilo que ele necessita”, decifrou, acrescentando que “ver com o coração é também ver com o olhar crítico”. “Ser capaz de denunciar o que é injusto e insuportável, de não se ter medo ou ser cobarde, ser capaz de ver com esperança”, aditou, defendendo a necessidade de se ser “um pouco utópico”. “A utopia é que fez andar as sociedades ao longo da história”, justificou. A conferencista defendeu ainda a necessidade de se saber sobre o que é se intervêm. “Não é só porque se trata de uma amorosa intervenção que se pode descurar. O amor quando não está estruturado e alicerçado, vai-se”, advertiu, considerando fundamental o diagnóstico para determinar o objectivo da intervenção. “Não posso autopropor objectivos relativamente aos quais eu não tenho capacidade de lá chegar. Uma intervenção cristã tem de ter isto em conta. Isto significa o respeito não só pelas expectativas criadas, mas pelos bens escassos que são de partilha universal”, destacou, demarcando a necessidade da avaliação.