Pedro, aderiste aos JSF apenas quando foste estudar para Lisboa? Pedro – Sim, há cerca de 4 anos. Conheci o movimento através de um grupo de Taizé que existe na paróquia de São Tomás de Aquino, durante a preparação do Encontro Europeu de 2004. Actualmente estou integrado no grupo JSF da paróquia de São Tomás de Aquino. Esta vossa missão decorreu em Angola. Onde é que estiveram concretamente? Pedro – Fizemos passagens curtas, de 1 a 3 dias, por muitos sítios. Começámos em Luanda, depois estivemos no Huambo e finalmente chegámos ao Chinguar que foi o lugar da missão propriamente dita, onde passámos mais tempo. Durante o período em que permanecemos no Chinguar visitámos várias missões… Carolina – …onde estão padres espiritanos. Passámos pelo Bailundo, Vale do Keve, Kuando, Chiva, Kangota, Kuito, Kalandula e Chikandula. Como surgiu a possibilidade de integrarem a missão? Pedro – Foi a minha primeira experiência de missão fora de Portugal. Já tinha participado nas semanas missionárias, uma iniciativa igualmente promovida pelo movimento, e a partir daí surgiu a vontade de fazer uma experiência de contacto mais directo com culturas diferentes e mais alargado no tempo, apesar de um mês ser muito pouco tempo. Carolina, no teu caso resolveste repetir a experiência, embora no contexto de uma realidade completamente diferente. Porquê? Carolina – Gostei muito da primeira experiência que fiz no Brasil. Embora tenha consciência de que num mês não mudamos nada, creio ser importante chegarmos aos sítios e mostrarmos às pessoas que disponibilizámos um mês, muitas vezes o único de férias que temos, para estarmos com elas, o que é também um testemunho para os que cá ficam. Depois do Brasil, já andava outra vez a pensar participar numa nova ‘Ponte’ e quando soube que este ano era em Angola inscrevi-me, até porque da primeira vez estava inicialmente previsto irmos para lá, mas depois houve uma alteração dos planos. Quis participar pela experiência da vivência em grupo, pela curiosidade que tenho em conhecer outros sítios, sobretudo aquele país, pela história que tem de uma guerra que durou 30 anos. O facto de teres participado numa iniciativa semelhante anterior foi uma mais-valia? Carolina – É sempre uma mais-valia pois já sabia que a nossa capacidade de adaptação, de convivência e os nossos limites iriam ser colocados à prova. Enquanto no Brasil tínhamos à nossa disposição o mesmo que temos na Europa, em Angola, em termos materiais, não tínhamos acesso a nada. Isso foi muito positivo porque nos coloca à prova enquanto pessoas e ensina-nos a lidar com os outros no dia-a-dia, fazendo cedências. É bom para aprendermos a viver em sociedade, relacionando-nos com os outros. Lá, trabalharam concretamente em quê? Pedro – Estivemos a dar formação de Português e a trabalhar num ATL com cerca de 300 crianças. Carolina – Eu estive também a dar aulas de Comunicação Social e fazer formação em Direitos Humanos, Educação Cívica e Ambiental e em Saúde. Fiz alguns cursos de Liderança com catequistas e leccionei EMRC – Educação Moral e Religiosa Católica. Fizemos também uma formação em Informática igualmente aos jovens das escolas. Quando fazíamos visitas às comunidade tínhamos sempre encontros com os líderes. Onde ficaram alojados? Pedro – No Chinguar ficámos sempre na Casa Paroquial, pois as comunidades que visitámos eram todas próximas, o que nos permitia ir e voltar no mesmo dia. Apenas no Lubango é que ficámos a dormir no Seminário. Carolina – …e em Luanda também ficámos ou na casa dos padres espiritanos ou na casa das irmãs espiritanas. O que acharam de Angola? Pedro – Está a renascer mas ainda continua a ser uma terra de muitos contrastes, muito marcada pela guerra. Mas nota-se que está a haver um empenho para renovar. Em Luanda, por exemplo, existe a realidade da metrópole muito desenvolvida e depois, ao lado, os bairros. Os contrastes são muito acentuados… Carolina – …tanto dentro da própria cidade, como em relação a Luanda relativamente ao interior de Angola. Temos casas em Luanda de cimento iguais às de cá, temos os musseques (bairros de lata) e depois, no interior, temos casas de barro e palha. Ainda há muito medo instalado, pois as pessoas por vezes têm medo de falar, e existe ainda grande controlo por parte do Estado, no entanto já é muito positivo que as pessoas possam sair à rua, regressando à escola ou ao trabalho. Só isso é já uma grande vitória. Assim como é já muito positivo ter havido eleições e, desta vez, ter corrido bem. Pedro – …e sente-se que as pessoas querem todas a paz. Não há um sentimento de revolta, apesar de tudo o que se passou. Carolina – Apesar de as pessoas viverem nas condições mais miseráveis, existe uma pastoral extremamente organizada, a maior parte dos jovens estão a estudar e querem fazer cursos superiores e estão muito optimistas em relação ao futuro. Está a ser feito um esforço para reorganizar o país. Acho que o principal problema é mesmo a Educação, pois durante 30 anos as pessoas não foram à escola. Agora estão a pedir aos jovens angolanos que se formaram fora durante os últimos anos que regressem ao país. Pode ser que esses angolanos ajudem a reconstruir o país com outra mentalidade relativamente aos que não têm formação e que saibam pensar por si. Antes de ir tiveram alguma preparação? Pedro – Tivemos três encontros de preparação em Fátima para nos conhecermos uns aos outros, pois éramos todos de diferentes pontos do País, e também para nos enriquecermos com testemunhos de pessoas que já participaram noutras ‘Pontes’ e para conhecermos um pouco a realidade de Angola. Carolina – O primeiro encontro foi de contextualização, enquanto os restantes dois já foram para preparar trabalho. Dividimo-nos em grupos, vimos as áreas a abranger, embora no terreno tivéssemos de adaptar esse aspecto, e antevimos como seria a convivência em grupo durante um mês inteiro. Qual foi a aceitação das vossas famílias a este vosso projecto? Pedro – É complicado porque sabemos que este tipo de missões implicam sempre alguns riscos, mas até aceitaram de forma mais fácil do que eu esperava. No início, com alguma dificuldade, mas depois aceitaram, apoiaram e ficaram contentes. Carolina – A minha mãe sempre me apoiou em tudo, inclusive porque eu não tenho disponibilidade financeira para puder, do meu bolso, fazer uma experiência destas. Financeiramente qual foi o apoio que tiveram? Carolina – Sabemos que há sempre uma parcela que sai do nosso bolso e que é de 500 euros, independentemente do custo da viagem (que neste caso até foi bastante mais elevado). Depois há sempre candidaturas a projectos, a FEC – Fundação Evangelização e Culturas também apoia sempre e, para além disso, todos os grupos de JSF do país se envolvem em campanhas de angariação de fundos para tentar conseguir o restante valor que um projecto desta envergadura envolve. Temos consciência de que o custo da nossa participação é muito superior aos 500 euros com que contribuímos. Tendo sido uma experiência tão gratificante, admito por isso que pensem em repetir… Pedro – … Sim, de boa vontade e com muito gosto. Se tivessem oportunidade de fazer uma experiência missionária mais alargada no tempo estariam disponíveis? Pedro – É possível que sim, embora não para já, pois quero acabar o curso primeiro. Depois disso é uma hipótese. Carolina – Já disse à minha mãe que, se arranjasse trabalho numa das missões, seria uma hipótese que eu não descartaria. Ela sabe que é uma coisa que me deixaria muito satisfeita. Como acolheram as vossas paróquias a vossa decisão de participar neste projecto? Pedro – Acolheram e apoiaram. Em que medida ajuda esta nova experiência a que trabalhem agora com outro entusiasmo na vossa paróquia? Pedro – Para já o conhecimento de outras realidades faz-nos crescer e encarar as situações do dia-a-dia com outro olhar. Por outro lado, o facto de testemunharmos a nossa experiência também constitui um exemplo de vida que damos aos outros. Um dos aspectos constatados no último Congresso Nacional Missionário, em Fátima, é de que os jovens que fazem estas experiências são muito pouco aproveitados quando regressam às suas paróquias de origem. Concordam? Carolina – Sim, sinto muito isso. Na minha paróquia quem mais apoia e se interessa são precisamente os jovens que já pertencem aos JSF e as senhoras da LIAM, que é o público alvo que menos me interessa porque já estar sensibilizado para a questão. Gostava que estas experiências pudessem dar fruto junto de outras pessoas. Pedro – Os JSF procuram fazer missão em primeiro lugar na comunidade onde estão inseridos e só depois mais longe. Nessa perspectiva, este testemunho de missão deve ser passado no dia-a-dia na paróquia e nas nossas actividades, dando a conhecer a experiência e não a deixando morrer. Haverá sempre qualquer coisa que ficará. Mais fotos na Galeria de Imagens Consultar também o testemunho de Carolina Silva publicado na secção ‘Opinião’.