Aconteceu, uma vez mais, no Carmelo de Nossa Senhora Rainha do Mundo, no Patacão (Faro), no passado fim-de-semana sob a orientação dos padres carmelitas Agostinho Leal e Manuel Reis. Esta iniciativa, promovida pelo Centro de Espiritualidade carmelita, sedeada em Avessadas (Marco de Canavesses), contou com cerca de 45 participantes (dos quais apenas 2 homens) e procurou extrair do anonimato popular uma figura menos conhecida comparativamente com outras da família carmelita. O encontro sobre a santa e doutora da Igreja colocou em especial relevo alguns dos aspectos mais marcantes da sua vida, particularmente o sentido que lhe deu como testemunho da sua fé em Cristo. Nascida numa família judia da Alemanha, Edith Stein, aos 14 anos, abandona praticamente toda a sua prática religiosa e, entrando mais tarde para as Carmelitas Descalças de Colónia, assume-se como uma das principais vozes alemãs de resistência ao regime nazi e de defesa do povo judeu germânico. Essa determinação viria a custar-lhe a vida, pois seria executada nas câmaras de gás do campo de concentração de Auschwitz. O padre Agostinho Leal, logo no sábado, referiu-se a Edith Stein como “uma figura” com uma “importância muito grande”, “ao nível do pensamento filosófico e da vivência dos Cristianismo”. “Num tempo em que a filosofia foi superada pela tecnologia, e em que há um afastamento da Igreja na prática religiosa, esta figura adquire um relevo especial”, destacou o sacerdote, considerando que Edith Stein “tinha todo um conhecimento acerca da pessoa”. “Se conhecêssemos a pessoa não se cometeriam atrocidades como se cometem hoje, nem haveria a manipulação das pessoas como há hoje”, defendeu o padre Agostinho Leal, considerando Edith Stein “uma voz actualíssima, no campo filosófico e sobretudo ontológico”. Procurando fazer o enquadramento biográfico de Edith Stein, o padre Agostinho Leal fez referência à sua família, formação cultural, presença na universidade e importância do ambiente universitário na sua abertura espiritual, através de amigos, alguns de fé evangélica. Abordou igualmente a ruptura com o Judeísmo. “Declarando-se praticamente declara-se ateia, Edith Stein mas não fica no ateísmo”, explicou, acrescentando que “ser ateia não era uma militância, mas uma condição para procurar a verdade. E como ela dizia: quem procura a verdade, mas cedo ou mais tarde, sem se dar conta disso, acaba por se encontrar com Deus”. No encontro foi ainda destacado igualmente o sentido testemunhal do seu martírio como “uma aceitação e doação da sua morte em favor da paz mundial, da conversão da Alemanha e do mundo”. No sábado à tarde, os participantes visualizaram o filme “Sétima Morada”, sobre a vida da santa carmelita, e participaram na celebração da Eucaristia. Houve ainda uma exposição, feita pelo padre Manuel Reis sobre a mística da cruz na vida da doutora da Igreja. Procurou-se mostrar que Edith Stein entende-se numa ligação muito estreita com a espiritualidade da cruz, ao nível da dimensão do abandono e da oferta da vida pelos outros. Precisamente este aspecto seria sublinhado pelo padre Manuel Reis no domingo na sua intervenção sobre a espiritualidade do abandono como expressão máxima do amor. Um dos últimos momentos do encontro, que terminou com a celebração da Eucaristia, foi a intervenção do padre Agostinho Leal sobre a actualidade de Edith Stein em relação ao pensamento dominante actual.