Com base na definição da associação, apontada pelo documento, como organização católica internacional de leigos, o assistente, analisando cada termo, lembrou que a estrutura da organização “é sempre a Igreja”, “não uma estrutura de poder, de força ou de domínio, mas de serviço”. “Tanto vale o presidente, como o secretário ou o tesoureiro, cada um na sua justa missão e disponibilidade e sempre numa dimensão de serviço”, elucidou o padre Carlos de Aquino, considerando que por vezes, as comunidades vicentinas parecem “acéfalas”. “Ou não têm cabeça ou são um corpo monstruoso com muitas cabeças”, afirmou com recurso à metáfora, lamentando que “todos querem ser presidentes e ninguém quer ser voluntário”. A propósito do termo ‘católica’, que significa universal, recordou que “ser católico é construir a unidade e a universalidade na fé e na comunhão de um só corpo”. “Não é cada comunidade na sua caserna. A casa não é vossa”, alertou, advertindo que “às vezes sentimos os problemas como se fossemos a solução”. “O objectivo não é o pobre, é Cristo”, clarificou. “Se tivermos um coração católico, Cristo será sempre o nosso objectivo”, acentuou. Lembrando a designação internacional, o sacerdote salientou que o mundo é o espaço de acção do cristão e do vicentino. “Não vale a pena sentir só os problemas da minha terra ou da minha localidade. O mundo é a nossa casa e o pobre é Cristo”, disse. O padre Carlos de Aquino lembrou que a Sociedade de São Vicente de Paulo é um movimento laical, “de gente que está no mundo e por isso o trabalho é no mundo” e “não na Igreja e na sacristia”. “É na rua, no café, no hospital, no bairro de lata que o vicentino exerce o ser católico”, referiu. A propósito da história “longa e antiga” da associação, fundada em Paris em 1833 por Frederico Ozanam, o padre Carlos de Aquino deixou uma outra recomendação. “Não somos proprietários da Sociedade de São Vicente de Paulo. Ninguém é chefe de uma casa que não lhe pertence”, referiu. Lembrando o contexto da sua fundação, no seio da revolução francesa, realçou que a sociedade surgiu “para dizer ao mundo hipócrita: haja igualdade, mas a partir de Deus; haja liberdade, mas a partir da fé; haja fraternidade, mas a partir do Evangelho”. “É isso que estamos a fazer hoje?”, interrogou, interpelando os presentes sobre “como continua a ser tão verdadeiramente revolucionário o espírito vicentino”. Considerando indispensável o conhecimento do fundador e de Vicente de Paulo por parte dos associados, o assistente destacou que Ozanam “lutou pela renovação da fé”. “Se queremos ser bons vicentinos temos de lutar pelo mesmo”, afirmou, considerando que o “carisma do vicentino” consiste em buscar a sua própria “santificação de vida”, não através de muitas práticas, mas apenas através do acolhimento do Evangelho. Sintetizando a missão do vicentino, utilizou uma frase de Vicente de Paulo – “ver Cristo nos pobres e os pobres em Cristo” – para considerar que “Cristo é que é o objectivo e não o pobre”. A acção vicentina defendeu ser necessário “vivê-la em receptividade constante ao Espírito Santo”. “Falamos muito de Jesus, algumas vezes de Deus e quase nunca do Espírito Santo”, complementou. Ainda sobre a missão do vicentino salientou que consiste em “aliviar os que sofrem em espírito de justiça e caridade e ter um compromisso pessoal”. “É isto que nos distingue de outros grupos que também exercem a missão da caridade”, complementou, concordando, no entanto, que “há grupos, dimensões e movimentos da Igreja que podem falar do amor para com os pobres e promover a justiça”. Lembrando o caso concreto da Caritas, sublinhou que aquela instituição “não rouba nada ao mundo vicentino”. “Pelo contrário, ajuda o mundo vicentino a situar-se no contexto da Igreja e do mundo, porque a missão da Caritas é apenas pedagógica: despertar nas comunidades cristãs o espírito de amor pelos pobres, pela justiça, pela caridade, pelo serviço. Mas quem é que faz esse serviço? Não é a instituição da Caritas. São outros grupos e movimentos, cujo carisma mais específico seja este contacto directo com quem sofre”, esclareceu, classificando o vicentino como “um evangelizador e um servidor dos pobres através de um amor afectivo e libertador e não ocasional”. “Na liberdade da caridade todos têm espaço. Todos temos lugar na Igreja, cada um para a sua missão justa e certa e a do vicentino é esta”, afirmou, sublinhando que “toda a obra de caridade não é estranha à comunidade vicentina”. “Por isso não somos intrusos e não andamos a roubar adeptos de ninguém. Na Igreja somos uma casa única”, reforçou. Salientando que todas as formas de ajuda daquela associação devem passar pelo contacto pessoal, lembrou que quando este falha, falha a missão vicentina. “Quando não visitamos o pobre, para levar em primeiro lugar o Evangelho, falhamos a nossa missão”, disse. Alertando as conferências para a necessidade de desprendimento dos bens, recordou que “os vicentinos estão unidos entre si por um espírito de pobreza e de partilha”. “Não andemos, por competitividade, a ver quem é que tem mais fundos. Se outras comunidades estão mais pobres ou são mais frágeis, partilhe-se”, sugeriu. “Só verdadeiramente pobres é que podemos evangelizar o pobre”, advertiu, garantindo que “o problema é não criarmos um coração generoso”. A terminar, considerou que “a regra vicentina tem de estar no coração”, nem que para isso seja preciso reduzir as conferências, mas que as que permaneçam “sejam fiéis”. Antonino Magalhães, presidente do Conselho Central, apresentou ainda durante a tarde o exemplo de trabalho realizado na Colômbia pela associação e deteve-se no esclarecimento de alguns aspectos práticos relacionados com o funcionamento das conferências. A terminar o dia, o padre Carlos de Aquino voltou a intervir, desta vez para se referir à espiritualidade que deve animar e estar subjacente ao trabalho vicentino. 28 novos vicentinos A jornada vicentina começara porém com a celebração da Eucaristia na antiga catedral diocesana tendo o assistente alertado que “um cristão e um vicentino é aquele que faz de Deus a sua herança”. No final da celebração foram ainda admitidos 28 novos associados oriundos de várias conferências da diocese algarvia. Antonino Magalhães, presidente do Conselho Central, destacou o acontecimento. “É importante porque temos necessidade de uma renovação, de modo particular em idade”, afirmou. No Algarve, as 17 conferências contam com 301 vicentinos.