Promovida pela paróquia da Mexilhoeira Grande que compreende a localidade da Figueira, a iniciativa que procurou fazer memória da vida da pequena Joana contou também com a participação de algumas pessoas que vindo de fora da terra se quizeram associar aquele autêntico testemunho de fé. Dois grupos de cristãos, depois da concentração nas igrejas da Mexilhoeira e da Figueira, partiram numa marcha silênciosa com velas acessas em direcção a uma ponte o­nde a investigação policial realizara já algumas buscas com o objectivo de encontrar o corpo da criança. Aí, depois de uma breve leitura, regressaram todos à igreja da Figueira, o­nde se realizou uma Celebração da Palavra. Segundo esclareceu o padre Domingos da Costa, pároco da Mexilhoeira Grande, o objectivo da vigília foi «descobrir o sentido da vida e da morte». «Estamos aqui porque acreditamos que a vida da Joana, apagada para nós, continua a iluminar os nossos caminhos e a dizer-nos a todos a mensagem bonita que ela hoje nos deu: já que não soubestes proteger a minha vida, protegei a vida de outras crianças que correm os mesmos perigos» – afirmou o sacerdote. Na sua homilia, o padre Domingos da Costa que aproveitou a presença de tão grande número de pessoas, fez uma autêntica catequese sobre a morte e a vida. O pároco da Mexilhoeira Grande afirmou que «este caso foi não só a negação da Humanidade, como também a negação da própria divindade que se revela sempre através do que é humano». «Deus não pode estar em tanta desumanidade e só Deus pode iluminar esta realidade» – considerou.Procurando resposta para as interrogações que pairavam na cabeça do profeta da primeira leitura, as mesmas que não raras vezes originam a indignação de todos nós, o padre Domingos da Costa garantiu que «Deus intervém mas sem as nossas preces e não pelos nossos caminhos porque os seus caminhos não são os nossos. Um dia compreenderemos o que agora não nos é dado a compreender. Esperamos que a Joana já tenha compreendido o que nós ainda não conseguimos compreender» – afirmou, acrescentando que quando «os ímpios parecem prosperar, na realidade estão a construir a sua própria ruína». Recordando a lição da Páscoa, «da vitória da justiça sobre a injustiça, do bem sobre o mal, da vida sobre a morte, da luz sobre as trevas», o sacerdote recordou que «a oração é o único meio de manter a serenidade perante injustiças que bradam aos céus». «Mas a oração não nos pode levar a fechar os olhos ou a cruzar os braços perante as injustiças dos homens, antes ela, se for verdadeira oração cristã, nos dará a força do alto não só para denunciar as injustiças, como também para as combater a exemplo de Jesus Cristo» – complementou. E precisamente esta atitude de inconformismo é, segundo o padre Domingos da Costa, a «grande lição a tirar desta situação». «Se a partir deste momento tudo continuar como dantes continuarão outras “Joanas” a sofrer e a morrer em vão e terão sido inúteis, não só as luzes das nossas velas, como a nossa oração» – referiu, com a certeza que «esta celebração não liberta a Joana da desgraça que a atingiu, nem a traz de volta para o meio de nós, mas pode e deve libertar-nos de continuarmos como espectadores, para não dizer, como autores passivos das desgraças que continuarão a acontecer se nada fizermos para o impedir». Para que «não haja a lamentar outras mortes como esta», o padre Domingos da Costa deixou o apelo a alguns compromissos: uma maior colaboração com a escola, através de, por exemplo, uma maior assiduidade nas reuniões de pais, bem como a inscrição dos filhos nas aulas de EMRC – Educação Moral e Religiosa Católica.«Se não houver outra justiça – a de Deus – , a vida, o sofrimento e a morte da Joana não terão tido qualquer sentido» – lembrou o pároco, apontando de seguida o que classificou como «primeiro escândalo» de todo este caso: «que tenha andado tanta gente, com tantos meios, durante tanto tempo, ocupada com a morte desta menina e ninguém se tenha preocupado com o seu sofrimento enquanto vivia». «Onde esteve a Comissão de Protecção de Menores? o­nde esteve o Tribunal de Menores? Para que existem estas instâncias? Para salvar os indefesos ou apenas para justificar empregos e arquivar processos, lamentando-se depois da morte de quem chegou junto destas instâncias à procura de quem lhe salvasse a vida?» – criticou o padre Domingos da Costa, acrescentando que «se este País dedicasse tanto tempo e tantos meios a salvar os vivos como os que dedica à procura dos mortos não haveria tantos maus tratos a lamentar, nem tantos mortos a chorar». «Pelos meios de comunicação social soubemos que tinha sido apresentada queixa na Comissão de Protecção de Menores pelos maus tratos de que a Joana era vítima e que a própria escola tinha apresentado queixa pela sub-alimentação da criança, causa do seu insucesso escolar. Qual foi a resposta da Comissão de Protecção de Menores? Segundo a senhora dona Dulce Rocha, a queixa foi arquivada, em Abril deste ano, por falta de sinais exteriores de maus tratos. Mal vai este País quandos os nossos técnicos (psicólogos) só conseguem ler os maus tratos do corpo e não conseguem ler as feridas da alma» – considerou o sacerdote.«O Pai nosso que está no céu, por ser melhor Pai que todos os pais do mundo, deve ter a Joana em melhor lugar, se de facto ela morreu, do que o lugar que lhe deram seus pais e lhe demos todos nós durante os poucos anos que viveu» – afirmou o pároco, para quem «a Joana foi vítima dos pecados da sociedade corrupta e corruptora». O padre Domingos da Costa que lamentou ainda não ter conhecido melhor a Joana por ter sido impedido de leccionar a aula de EMRC no 1º ciclo da Escola Primária da Figueira, pediu aos presentes que continuassem a ver a pessoa da Joana nas outras crianças que andam pelas ruas da aldeia.